1 de dez de 2014

A HORA DOS VENCIDOS - ("Prisciliano Ressuscitado" - Capítulo 3)


 
“Quebremos com Roma. Deitemos fora esse fardo de trevas e de desalento que há séculos pesa, mais ou menos, sobre as nossas inteligências e sobre as nossas decisões." 
Fernando Pessoa

“Liberdade, ainda que tardia.” 
Dístico da bandeira do estado de Minas Gerais, Brasil

 “Se exteriorizardes aquilo que está dentro de vós, aquilo que exteriorizardes, salvar-vos-á. Se não  exteriorizardes aquilo que está dentro de vós, aquilo que não exteriorizardes, destruir-vos-á.”
Palavras de Jesus, segundo o evangelho gnóstico de Tomé





Todos sabemos que a história é escrita pelos vencedores e, no caso em questão, a grande vencedora foi a Igreja Católica Romana.

 Então, para poder escrever a História à sua vontade procurou, desde logo, silenciar todos aqueles que se lhe opunham, classificando-os como perigosos “hereges”, que perseguiu sem piedade, destruindo os seus escritos e testemunhos de modo a que ficasse apenas documentada a sua própria (e única) versão dos acontecimentos, que assim se converteria em “verdade histórica”.

 O filósofo português Agostinho da Silva diz que “cada pessoa tem o dever na vida de ser aquilo que é e de se tornar contagioso, não no sentido de converter os outros naquilo que ele é, que é a tentação de muita gente, mas de os outros serem exactamente aquilo que são”. Em termos colectivos, a Igreja romana não só caiu estrondosamente nessa tentação como a levou para além de todos os limites.

A sua obsessão pela manipulação de factos e pessoas constituiu uma verdadeira lavagem ao cérebro da humanidade, mais chocante ainda por provir de quem se intitulava “Santa” Madre Igreja, que nunca hesitou em queimar documentos, livros e autores nas fogueiras que acendeu ao longo da História, antes e depois de se assumir, também, como “Santa” Inquisição.

 Mas, apesar de todas as denúncias, os resquícios da monumental lavagem ao cérebro continuam activos!...Tanto que o homem de hoje, mesmo sabendo que a Igreja Católica manipulou a verdade em seu proveito e nos enganou a todos, ainda recusa enfrentar esses factos, ou procura desculpá-los perante si mesmo, libertando-se da ousadia de colocar a “sagrada” instituição em causa… Ou seja, vergando-se ao peso injectado por ela na psique colectiva e que ainda provoca, em muitos, o reflexo pavloviano da “culpa”!

A culpa, associada ao medo, sempre foi e continua a ser a grande arma do obscurantismo. Mas a irrupção actual dos valores antigos, prenuncia o advento de uma nova ordem moral.

Esses valores antigos são a Gnose e constituem, afinal, a “Tradição Oculta do Cristianismo”, que o Poeta português Fernando Pessoa tanto exaltava e da qual, inclusive, se dizia seguidor. É ela que está por detrás da temática envolvendo o Quinto Império e o surgimento do Cristo Redentor Encoberto, tão cara ao messianismo lusitano, porque somente a partir de um estado de espírito gnóstico se poderá aceder e vivenciar a chegada do Reino de Deus em cada um. Isto é, cada um será a sua própria igreja, não necessitando da instituição romana para nada.

 Por isso, os gnósticos foram sempre ferozmente combatidos e apagados da História.

 No entanto, os Pais da Igreja, na sua cruzada militante, e ao pretenderem demonstrar uma superioridade moral e intelectual sobre os adversários, referem uma oposição “herética” que supostamente refutam através das suas próprias obras literárias. Mas, ao declararem o seu repúdio, descrevem a existência dessas outras correntes de pensamento e, involuntariamente, reconhecem o seu relevo – senão, para que escreveriam tantos e tantos volumes contra algo de somenos?...

 Por exemplo, no ano 180, o bispo Irineu, que dirigia a Igreja de Lyon (cidade do actual sul de França), deu-se ao trabalho de escrever, nada mais, nada menos, do que cinco espessos volumes contra a Gnose (derivada da palavra grega “gnosis”, que significa “conhecimento”) intitulados, precisamente, “Destruição e Derrube do Falsamente Designado Conhecimento ”.

 Devido a estas obras “em contra” que, como canónicas, persistiram e chegaram aos nossos dias, uma minoria de estudiosos pôde conhecer a existência de várias correntes, dentro do próprio cristianismo, que contestavam fortemente o rumo tomado pela Igreja primordial e seguiam caminhos doutrinários alternativos. No entanto, o que prevaleceu para o grande público, sobre as origens do cristianismo, foi a versão oficial propagada pelo catolicismo, que apresentava uma Igreja sem qualquer oposição interna, surgindo como a herdeira única, natural e universal, do ensinamento de Jesus – e, na verdade, durante muito tempo não existiam quaisquer outras provas documentais a desmenti-la.

 Segundo essa versão, os primeiros cristãos eram uma congregação de santos e mártires, formando um bloco homogéneo que começava nos discípulos de Jesus e continuava nos seus bispos, a quem obedeciam com devoção, dirigindo uma comunidade unida e fraterna que resistia sem violência a todas as perseguições e semeava, por toda a parte, a doutrina única que professavam, depois transformada em religião católica.

Mas à luz das últimas descobertas, Elaine Pagels, uma reconhecida autoridade contemporânea nesta matéria, diz que “agora podemos ver claramente que a história do cristianismo primitivo foi tumultuosa, uma época de intensa reflexão, experimentação e contenda, que se alargava a todas as questões fundamentais”… E acrescenta, significativamente: “no século II, como no século XXI, os integrantes de cada controverso bando (católico), afirmam possuir a verdade e negam esse direito aos outros”, o que nos conduz de imediato a um cenário muito distinto.

 Continua Elaine Pagels: “Do mesmo modo, os historiadores antigos falam da “primitiva Igreja cristã” como se só houvesse um grupo em cada cidade e cada membro estivesse unido aos demais por idêntico ensinamento, práticas ritualísticas e zelo pelos pobres e doentes. Não obstante, os historiadores de hoje consideram que as grandes cidades albergaram os mais diversos grupos de seguidores das doutrinas de Jesus. (…) Durante o século II, na urbe de Roma, por exemplo, havia Igrejas formadas por crentes procedentes de todas as partes do império: da Síria, Turquia, Egipto e norte de África. Falavam grego, latim e as suas línguas nativas… A “Igreja cristã” de Roma, na realidade, consistia num conjunto de grupos locais em diferentes sectores da cidade. Cada grupo conformava uma ilha à parte, com o seu próprio lugar de encontro, os seus líderes e, com frequência, a sua própria interpretação do evangelho. (…) Não existia nenhuma instituição unificada ou uniforme. Somente na segunda metade do século II se ergueu um único bispo sobre os demais; e com esse facto, começaram a esboçar-se claras linhas divisórias entre os grupos, excluindo aqueles que, a partir daí, foram considerados heréticos”.

Nessa altura, duas grandes linhas ou escolas sobressaíram sobre as demais: a da Igreja, depois chamada “católica” por Irineu, e aquela outra que classificamos como “gnóstica”. Esta última foi perseguida e combatida pela primeira até à extinção, já que, segundo os seus inimigos católicos, havia sido contaminada pelo paganismo e perdera a pureza da fé cristã.

 Mas, no entanto, os gnósticos, enquanto puderam resistir, persistiram em afirmar-se como os herdeiros e guardiães daquela mesma fé, isto é, da tradição autêntica do cristianismo, chamando à outra uma “igreja de imitação”.

No “Apocalipse de Pedro”, é o próprio Jesus ressuscitado que apelida desse modo o cristianismo romano, que se resume “a uma mera imitação ou falsificação, no lugar da verdadeira irmandade cristã dos gnósticos”. E prossegue o seu autor: “alguns ignorantes do mistério falam de coisas que não compreendem, mas gabam-se do mistério da verdade lhes pertencer exclusivamente…”

Outra obra gnóstica, o “Segundo Tratado do Grande Set” é igualmente clara: “fomos odiados e perseguidos, não apenas pelos que são ignorantes mas também pelos que pensam estar a fazer avançar o nome de Cristo, que são inconscientemente vazios, desconhecendo quem são, como animais estúpidos”.

A resposta dos católicos encontra-se numa epístola atribuída a Clemente, Bispo de Roma por volta do ano 100, dirigida aos cristãos de Corinto. Escreve Clemente que “o Deus de Israel é o único regente de todas as coisas - Ele é o senhor e o mestre a quem todos devem obedecer”. Ora este Deus, continua ele, delega a sua “autoridade governativa” a determinados“ regentes e líderes na Terra” que são, nada mais, nada menos, que os bispos, padres e diáconos da Igreja… Quem se recusar a “vergar o pescoço” a estes líderes torna-se de imediato culpado de “insubordinação contra o próprio Deus”. E claro, quem desobedecer a estas autoridades divinamente mandatadas “recebe a pena de morte”!

Um outro bispo, Ignato de Antioquia, na Síria, vem defender o mesmo princípio, acrescentando, porém, que assim como no Céu só existe um Deus, na Igreja só pode existir um bispo. “Um só Deus, um só bispo”, era o que proclamavam, a partir daí, os pretensos ortodoxos, a quem todos os “laicos” deveriam reverenciar, honrar e obedecer “como se ele fosse Deus”.

 Foi assim que os Pais da Igreja, mesmo antes de obterem os favores do império, se converteram nos detentores da única “fé verdadeira”, iniciando a gigantesca acção policial que se estendeu ao longo da história, silenciando as vozes opositoras e destruindo todos os documentos que contestavam a sua pretensa ortodoxia ou, simplesmente, propunham outros caminhos. 

A verdade é que a sua acção decorreu com tal eficácia que, até há pouco tempo atrás, se conhecia muito pouco a respeito dos gnósticos, a não ser através dos escritos dos seus detractores, que somente estavam interessados no seu extermínio.

Tentando provar o carácter herético ou “não cristão” do gnosticismo, faziam remontar as suas origens à filosofia grega e às religiões de Mistérios, à magia e à astrologia, bem como a fontes egípcias e indianas, e o irónico é que tudo isso era verdade... Porque essas origens se encontravam realmente ligadas às origens do próprio cristianismo, como mais adiante se verá e, portanto, eram as mesmas daqueles seus detratores ignorantes!

A partir do século IV, com o triunfo total da Igreja e o acesso ao poder político, militar e policial do império, esta erradicação de provas tornou-se ainda mais eficiente e demolidora. Praticamente todos os documentos que demonstravam o ponto de vista dos gnósticos e a sua oposição à Igreja foram destruídos, fabricando o catolicismo a sua própria versão dos factos que, sucessivamente, sublinhou, recalcou e consolidou. Com o passar do tempo, foi ganhando foros de verdade porque, como dizem os mestres da propaganda, a repetição contínua de uma mentira acaba por se transformar numa verdade.

Mas alguém havia tomado nas suas mãos os livros proibidos e os guardara em jarras cerâmicas, escondendo-os da destruição, no fundo de grutas perdidas do deserto egípcio, ou nas margens do Mar Morto. Ali permaneceram encerrados por mais de 1.600 anos até que, em Dezembro de 1945, um golpe do Destino deitou por terra todas as versões manipuladas.

Aconteceu numa caverna de Nag Hammadi, no Egipto, quando um camponês árabe descobriu, por mero acaso – se é que o acaso existe –, aqueles rolos de papiro escondidos por tanto tempo. Eram 52 textos que datavam dos primeiros séculos da era cristã e continham epístolas, evangelhos e outros relatos do tempo de Jesus, contendo uma versão muito distinta das origens do cristianismo.

A esta descoberta sensacional, outras se seguiram, como a dos Manuscritos do Mar Morto, em 1947, nas cavernas de Qumram, dando cada vez mais consistência e eco àquelas vozes alternativas ao catolicismo que a Igreja triunfante julgara haver calado para sempre.

Isto é, depois de 2.000 anos de supressão de factos e de alteração da história, surgiam, pela primeira vez, as provas concretas da existência de importantes correntes dissidentes que haviam sido, no seu tempo, denunciadas como heréticas e perseguidas pela instituição vencedora, que procurou varrê-las dos registos históricos do cristianismo e da memória da humanidade.

Mas agora as suas vozes voltavam a ser ouvidas, encostando a Igreja Romana à parede da História e revelando a outra face da moeda – aquela em que eles próprios, os perseguidos do passado, passavam de acusados a acusadores e denunciavam os pretensos ortodoxos católicos de se haverem desviado da doutrina de Jesus.

Havia chegado, finalmente, a hora dos vencidos!


VULCÃO

Com todos os dados sobre a mesa, pode, afinal, constatar-se que o primitivo movimento cristão nada teve de dócil e, muito menos, de uniforme, tendo vivido, desde o início, mergulhado em violência e tumulto. Não tanto devido à perseguição dos romanos mas, sobretudo, pela encarniçada oposição, entre si, dos próprios cristãos.

Os Pais da Igreja eram perfeitamente conscientes daquela diversidade de grupos e tendências, mas procuraram encobrir a verdade e fazer passar a sua própria perspectiva de Igreja universal em construção, temendo que as controvérsias minassem a natureza daquela ideia e, sobretudo, a respectiva autoridade, que exigiam somente para a sua Igreja.

Mas naquele tempo, como já se viu, existia uma multiplicidade de correntes de pensamento, expressas por outras tantas seitas cristãs distintas, e todas elas se afirmavam como detentoras do ensinamento de Jesus e dos apóstolos. Professavam crenças e práticas religiosas muito diferentes, apoiando-se em inúmeros escritos que, na época, circulavam livremente, sob a forma de evangelhos, epístolas, cartas, poemas e hinos atribuídos a Jesus. Dessa vasta lista, para além dos quatro evangelhos que hoje constituem o Novo Testamento, faziam parte documentos excluídos pela Igreja, como o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Filipe, o Evangelho da Verdade, o Evangelho de Valentim, o Evangelho de Nicodemos, o Apocalipse de Pedro e muitos outros que hoje são chamados Apócrifos (termo que significa, literalmente, “Livros Secretos”), descobertos em Qum Ram e Nag Hammadi.

Partindo desta multiplicidade de fontes e interpretações, de crenças e de práticas, todas coevas dos primórdios do cristianismo, em que ainda se não havia imposto um paradigma, surgiram as duas grandes linhas atrás referidas, em clara oposição entre si e acusando-se, mutuamente, de graves desvios doutrinários: a linha pretensamente ortodoxa, que acabou como vencedora absoluta em termos do poder adquirido, e que se definiu a si mesma como Igreja Católica romana, e a linha dos que hoje chamamos “gnósticos”, que foram os grandes vencidos.

As diferenças fundamentais entre elas são definidas por Timothy Freke e Peter Gandy, no seu livro “Mistérios de Jesus”: “Os cristãos romanos eram rigidamente autoritários; os gnósticos eram individualistas místicos. Os romanos queriam aplicar um credo comum a todos; os gnósticos toleravam as diferentes crenças e práticas. Os romanos escolheram quatro evangelhos como sagrada escritura e lançaram os outros ao fogo, como obras heréticas do diabo; os gnósticos escreveram centenas de evangelhos cristãos diferentes. Os romanos ensinavam que o verdadeiro cristão acreditava na história de Jesus tal como era pregada pelos bispos; os gnósticos ensinavam que o verdadeiro cristão vivenciava a “gnose” ou o conhecimento místico por si próprio e se tornava um Cristo!”

Diferenças que se mostraram irreconciliáveis e que acabaram por marcar a história da humanidade.

Para se tornar verdadeiramente católica ou universal, a Igreja do século II procurava incluir o maior número de fiéis no seu seio, e para isso estabeleceu um conjunto de normas. Deixando de lado critérios qualitativos complicados, os bispos criaram um referencial claro e simples: quem confessasse o credo, aceitasse o ritual do baptismo e obedecesse aos prelados, era aceite como cristão católico.

Os gnósticos criticavam tal postura, não reconhecendo qualquer autoridade aos prelados católicos e aos seus critérios de facilitismo. Argumentavam que qualquer um poderia repetir o credo sem saber o que dizia, e que o baptismo não fazia um cristão – segundo o Evangelho de Filipe, muitos “mergulham na água e dela emergem sem nada haverem recebido”. Portanto, para demonstrar que uma pessoa pertencia à verdadeira igreja, que era a da irmandade gnóstica, apontavam para critérios qualitativos e exigiam provas de maturidade espiritual. Pois não dizia Jesus que “as árvores se conhecem pelos frutos”?...

Por tudo isso junto, os gnósticos jamais se consideraram a si próprios como “hereges”, mas sim como os herdeiros da Tradição mais antiga do cristianismo, contendo o ensinamento autêntico e, por vezes, secreto,  de Jesus; nesse sentido, seriam eles os verdadeiros “ortodoxos”, pois essa palavra tem o significado literal de “pensadores correctos”.

Mas esta celebrada ortodoxia ou “correção”, por parte da linha vencedora, sempre foi teórica e nominal, pois jamais foi correcta no respeito pelo livre pensamento, nem nunca admitiu ser posta em causa; por isso, ao longo dos 2.000 penosos anos que passaram, não se cansou de promover e exaltar os seus próprios produtos, enquanto suprimia escandalosamente tudo e todos que se lhes opunham.

Recorde-se que no século IV, aquando do triunfo completo da Igreja Católica, Prisciliano foi perseguido, preso e levado a tribunal sob a acusação gravíssima de ser gnóstico, isto é, um desnaturado herege face à ortodoxia dominante.

Que, pura e simplesmente, o condenou à morte.


OBSTÁCULO

A vitória da Igreja romana constituiu um duro golpe para toda a humanidade pois, por paradoxal que pareça, a sua ascensão, com a montagem e corrigenda da doutrina contida na história de Jesus, significou a queda daquele mesmo ensinamento.

Isto é, enquanto Jesus, ensinava o auto conhecimento para libertar o homem de si próprio e dos artifícios da mente, alargando o campo da consciência para que se não deixasse aprisionar interna ou externamente, a Igreja procurou, desde logo, substituir aquela auto consciência pelos seus serviços externos. E quanto mais ignorante e retrógrado fosse o homem, melhor, pois mais precisaria daqueles serviços e mais dependente ficaria de quem os fornecia – pagando tudo muito caro, quer em espécie, quer em liberdade.

Desse modo simples, o homem era afastado da verdadeira espiritualidade e se transformava na vítima indefesa das forças que se serviam da Igreja como testa de ferro no mundo.

Foi, portanto, à custa da ignorância e do obscurantismo humano, que a Igreja construiu o seu poder, desenvolvendo à exaustão os conceitos de “culpa” e de “pecado” para que aquele estado não se alterasse, garantindo uma manipulação perfeita e um controle cada vez mais cerrado.

 O Jesus dos textos apócrifos não fala de “pecado” como o Jesus do Novo Testamento canónico, mas antes coloca a ênfase na iluminação espiritual obtida pelo auto conhecimento. Segundo ensina, o auto conhecimento é o conhecimento de Deus, porque existe uma chispa divina por dentro de cada ser humano. Desse modo, não vem salvar ninguém do pecado, mas sim servir de guia para o entendimento espiritual e, quando o discípulo atinge a iluminação, Ele deixa de ser o mestre porque os dois se tornaram iguais…

No evangelho apócrifo de Tomé encontram-se estas palavras de Jesus: ”Aquele que beber da minha boca tornar-se-á como eu; eu próprio serei ele, e as coisas que estão ocultas ser-lhe-ão reveladas”.

Muitos textos gnósticos insistem em que o sofrimento é causado pela ignorância e não pelo pecado. Por isso, quem se mantiver ignorante, ou inconsciente de si próprio, como seres que “não têm raiz”, não poderá alcançar e experimentar a plenitude, sucumbindo a “muitas ilusões”.

O “Evangelho da Verdade” descreve tal existência como um pesadelo, em que a constante é o “terror e a confusão e a instabilidade e a dúvida e a divisão”, indo ainda mais longe: “A ignorância (…) gerou angústia e terror. E a angústia tornou-se espessa como um nevoeiro, a ponto de nada mais se conseguir ver. Por esta razão o erro é poderoso.”

Isto significa que o estado de auto ignorância se torna, rapidamente, num estado de auto destruição…Mas por outro lado, como também se lê no “Diálogo do Salvador”, “quando essa pessoa alcança o conhecimento, a sua ignorância desaparece espontaneamente; assim como as trevas se esvaem quando surge a luz, assim também a ignorância se esvai na plenitude”.

Num outro texto gnóstico, o “Livro de Tomé, o Pretendente”, pode ler-se que “quem não se tiver conhecido a si próprio nada conheceu, mas aquele que se conheceu a si próprio alcançou, ao mesmo tempo, o conhecimento sobre o mais fundo de todas as coisas”.

Muitos séculos antes, na Grécia, por cima da entrada do santuário de Apolo, em Delfos, já se encontrava inscrita a célebre frase que tudo resume: “Homem, conhece-te a ti mesmo”.

Clemente de Alexandria, contemporâneo de Irineu e igualmente canonizado pela Igreja mas que, ao contrário do bispo de Lyon, ensinava um cristianismo muito próximo do gnosticismo, diz que ”o maior de todos os discípulos é aquele que se conhece, pois quando um homem se conhece a si próprio, conhece a Deus”.

O “Evangelho da Verdade” realça esta afirmação, escrevendo que é possível atingir o conhecimento Daquele “que é incompreensível e inconcebível - o Pai - aquele que é perfeito, aquele que fez todas as coisas…” e que permitiu “que O descubram em si próprios".

Segundo o “Evangelho de Tomé”, Jesus proclama o valor da autodescoberta, dizendo: ”de facto, o Reino encontra-se dentro de vós e encontra-se fora de vós. Quando chegardes a conhecer-vos, sereis então conhecidos, e percebereis que sois os filhos do Pai vivo. Mas se não vos conhecerdes, então vivereis na pobreza, e essa pobreza sois vós”.

Mas este outro Jesus gnóstico e apócrifo não deixou nunca de ser perseguido pelos líderes religiosos romanos, que mergulharam na mais vil pobreza, conforme as palavras anteriores, apesar do fausto com que sempre se rodearam.
 

RAIZES

Uma corrente de investigadores actuais afirma que os primeiros cristãos gnósticos provieram dos Essénios, o povo dos manuscritos do Mar Morto.

Historiadores antigos, como Philo Judaeus, Plínio-o-Velho, Flavio Josefo, Solanius e outros mais, contemporâneos dos essénios, distinguiram-nos com inúmeras expressões de respeito e admiração, como “ os mais antigos iniciados” ou ”a raça mais notável de quantas existem no mundo”… Isso granjeou-lhes uma aura romântica de pacifismo contemplativo que poderá não corresponder inteiramente à realidade, uma vez que Flavio Josefo nos fala, também, do heroísmo por eles demonstrado na guerra contra os romanos. E acrescenta que “quando viajam nunca esquecem de levar consigo as armas, para se defenderem dos bandidos”. Como se depreende, a sua celebrada mansidão não deixava de ser musculada…

Também Hipólito de Roma, escrevendo no ano 190 a sua “Philosophumena” se refere aos essénios como estando “divididos em quatro classes, segundo a sua antiguidade e o seu zelo pela observação da Lei” e que uma dessas classes era “a dos zelotes ou sicários, (que) chegam inclusive a degolar (com o seu punhal ou “sicca”) aqueles que blasfemam da Lei”… Esta passagem demonstra que os seus zeladores mais extremistas, agrupados na seita dos sicários ou zelotes, tinha uma ligação com os essénios –  ou era mesmo o seu braço armado, ou deles se havia constituído e posteriormente separado, mas, em qualquer dos casos, mantendo uma luta de guerrilhas contra os ocupantes romanos e liderando inúmeras revoltas.

Vivendo nas margens do Mar Morto, com ramificação junto ao lago Mareotis no Egipto e, provavelmente, ocupando ainda outros lugares e utilizando outros nomes, esta estranha comunidade judaica existiu durante os dois ou três últimos seculos antes de Cristo e também durante o primeiro século da era cristã. Supõe-se que acabaram dizimados pelos romanos, que já haviam perseguido e crucificado muitos dos seus elementos, o que confirma a relação estreita com os guerreiros zelotes, mesmo com funções separadas no terreno.

Na Palestina e na Síria os seus membros eram conhecidos simplesmente como “essénios”, enquanto no Egipto lhes chamavam “terapeutas”. De facto, alguns investigadores afirmam que o termo “essénio” ( do grego “essenoi”) provém de uma palavra aramaica que significa “médico”. Outros entendem que procede do próprio nome de Enoch, o patriarca bíblico bisavô de Noé, a quem segundo a tradição (conforme à etimologia do seu nome, que se traduz como “levado por Yavé”) haviam sido revelados os segredos dos Elohim.

Esses segredos revelados a Enoch, quando foi arrebatado por “Yavé”, referem-se a uma Sabedoria primordial procedente de fonte não humana, transmitida fragmentariamente por todas as culturas e religiões do mundo desde a mais remota antiguidade.

Segundo Edmond Bordeaux Szekely, aquele mesmo caudal de conhecimento “aparece no Zend Avesta de Zoroastro, que o converteu numa regra de vida que foi seguida durante milhares de anos. Os conceitos fundamentais do Bramanismo estão nele contidos, assim como nos vedas ou nos Upanishads. Os sistemas yoguis da Índia procedem também da mesma fonte. Posteriormente, Buda deu à luz, em essência, os mesmos conceitos básicos, e a sua sagrada Árvore de Bodhi está estreitamente relacionada com a Árvore da Vida essénia. No Tibet, o mesmo ensinamento tomou como expressão a Roda da Vida tibetana.

Na antiga Grécia, os pitagóricos e os estoicos seguiram os mesmos princípios essénios e também muitas das suas formas de vida. O mesmo ensinamento formou parte da cultura adónica dos fenícios; encontramo-la na filosofia da escola de Alexandria, no Egipto, e contribuiu notavelmente para o desenvolvimento de muitas ramas da cultura ocidental, como são a Franco Maçonaria, o Gnosticismo, a Cabala e o Cristianismo”.

Os essénios dedicavam-se ao estudo profundo deste conhecimento sem idade, interessando-se pelos seus desenvolvimentos no campo da astronomia, cujos princípios haviam herdado dos caldeus e dos persas, e das artes da cura, que haviam trazido do Egipto. O seu grau de maestria era conhecido e respeitado e, muitas vezes, eram enviados ao exterior mestres de sabedoria e médicos. Há quem diga que entre eles estiveram Elias, João Baptista e o próprio Jesus.

Mas também há quem entenda que a história de Jesus foi uma ficção inventada a partir da figura real de um notável e venerado chefe essénio a quem chamavam Mestre da Justiça, que foi perseguido e crucificado por volta do ano 88 a.C.; ou, ainda,que foi o iniciado Yehoshua Ben Pandira, ou o chefe dos messianistas zelotes Jesus-bar- Juda…

Mas tenha sido Jesus, humanamente, quem tiver sido, acredito que tenha cumprido o seu papel de avatar ou de mensageiro divino na Terra, ainda que não de acordo com as descrições factuais dos evangelhos, sejam gnósticos ou canónicos, cuja historicidade é muito duvidosa.

 Por um lado, o Jesus do Novo Testamento, tolerante com os cobradores de impostos e com a ocupação romana, não duraria muito na Palestina daquele tempo!... Por outro, é sabido que os evangelhos gnósticos não se preocupam demasiado com a verdade histórica, mas sim com o conteúdo espiritual da mensagem que querem transmitir.

 Mas como é a mensagem e não o homem o que mais conta, então, sem qualquer dúvida, são os relatos gnósticos que melhor e mais fielmente reproduzem e transmitem a Sabedoria contida na vida iniciática de Jesus.

Os manuscritos do Mar Morto dela nos dão conta, manifestando, da parte dos seus autores essénios, uma visão muito própria e nada ortodoxa do judaísmo, que poderá muito bem ter servido de matriz ao primeiro cristianismo. 
   
 A versão tradicional da história contada pela Igreja é a de que o cristianismo se desenvolveu a partir dos ensinamentos de um Messias judeu e que o gnosticismo foi um desvio posterior. Mas, como  questionam Timothy Freke e Peter Gandy, “ se o quadro fosse invertido e o gnosticismo encarado como o verdadeiro cristianismo? Poderia acontecer que o cristianismo ortodoxo fosse um desvio posterior do gnosticismo e que o gnosticismo fosse uma síntese do judaísmo e da religião dos Mistérios pagãos?”

São perguntas pertinentes, que partilho inteiramente, e que valem tanto como respostas…

Já vimos que o gnosticismo não era um credo restrito mas uma corrente de consciência multicultural e multi-temporal, subjacente nas várias religiões e que percorria toda a antiguidade. Deste modo, tal como Pitágoras ou Platão haviam sido gnósticos pagãos, iniciados nos Mistérios de Dionísio, os essénios, ou outros judeus, poderiam haver-se transformado em gnósticos cristãos, iniciados nos Mistérios de Jesus.

Os acontecimentos político-militares no terreno, com a derrota dos zelotes e a destruição de Jerusalém, conduziram a uma inversão do pensamento essénio, levando os seus teólogos a compreender a impraticabilidade do conceito de um Messias guerreiro, que estabeleceria uma nova ordem social, política e religiosa na Terra, após derrotar militarmente os poderes das trevas … E essa constatação fundamental abriu a porta para uma concepção mais espiritual do Reino de Deus, fazendo com que, muito provavelmente, os essénios reaparecessem na cena histórica como os primeiros cristãos gnósticos.

Para isso, só tiveram que se recordar do seu Mestre da Justiça, ou relembrar o ensinamento do Sermão da Montanha, fosse ele de quem fosse, revivendo as passagens da vida iniciática desse Ser, através dos evangelhos, cartas, epístolas e muitos outros textos por eles recuperados e lidos agora com outra atenção.

O novo conceito do Messias deixava os objectivos temporais de lado e assentava num mestre espiritual vestido de carne, partilhando a vida das pessoas e nelas provocando uma sensação de proximidade porque, com elas, experimentava o desespero, a alegria, o amor e a morte, enquanto lhes transmitia o acesso ao conhecimento e à possibilidade de se tornarem iguais a Ele… A Sua presença no mundo representava, assim, a medida do amor de Deus, que havia enviado a Sua própria substância encarnada para comungar do destino da humanidade e apontar o caminho da Ressurreição, de acordo com todos os outros mitos eternos da Sabedoria universal.

Este ensinamento de raiz gnóstica, extravasou da Judeia para todos os cantos do império e o seu crescimento contínuo, ainda que anárquico, atraiu a atenção e a cobiça do poder político.

Mas, como assinala John M. Allegro, especialista na análise dos manuscritos do Mar Morto, “o cristianismo gnóstico tinha demasiadas interpretações para demasiados povos, para estar apto a um controlo regulador teológico ou para apresentar uma frente coesa a outras crenças mais arreigadas, com fortes tradições sacerdotais de autoridade doutrinária. Sem esta frente comum, o gnosticismo não serviria as necessidades de uma burocracia de Estado, nem garantiria para si o apoio dos tesouros imperialistas e exércitos que alargariam a sua evangelização”.

Dali até surgir Irineu para constituir a tal frente comum, foi um passo… Um passo em que o misticismo dos cristãos primitivos foi tomado de assalto por um simulacro do ensinamento original – a Igreja Católica –, que substituiu o cristianismo gnóstico por uma religião dogmática e autoritária.

E dali até surgir Constantino, para institucionalizar a Igreja e a colocar ao seu serviço, foi outro passo.

O novo poder necessitava de factos e não de doutrinas. Por isso, tornou-se essencial “historificar” o mito de Jesus na versão canónica, para justificar a nova teologia, assente na prerrogativa da Igreja. E, a partir daí, com a ânsia hegemónica a ferver, foram destruídas todas as restantes provas que a ligavam à gnose, e atribuídos aos textos do Novo Testamento autoridade suprema e inviolável, como fonte de doutrina e de história.


IRINEU

Quando Irineu visitou Roma, ficou estarrecido com o número de grupos cristãos, distintos entre si, que ali encontrou. Mais tarde, escreveu acerca da deplorável diversidade do movimento cristão daquele tempo, defendendo com veemência que só poderia existir uma igreja unificada – a sua própria igreja, claro está, desvinculada por completo das suas origens gnósticas -, e que fora dela, como fez questão de assinalar, “não existe salvação”, acrescentando que a religião católica “é a entrada para a vida” e que “ todas as outras são ladrões e assaltantes”…

De facto, o bispo Irineu e seus apoiantes conseguiram acabar com muitos grupos dispersos e acabaram por criar a almejada instituição una, ou frente comum, comandada por uma hierarquia de bispos, padres e diáconos. Todos os seus membros acreditavam numa doutrina unificada e estabelecida num “cânone” – isto é, por uma regra ou preceito que a definia e onde se incluíam os textos considerados de inspiração divina, como os quatro evangelhos que, ainda hoje, integram o Novo Testamento.

Mas havia muitos mais evangelhos, cartas e outros documentos que circulavam com enorme popularidade por todo o império. Diz Irineu que “os hereges gabam-se de possuir mais evangelhos do que os que realmente existem”.

 Para integrar o cânone, o bispo de Lyon selecionou cuidadosamente, de entre as múltiplas escrituras de que dispunha, quais as que poderiam ser mais afins ao projecto de poder em gestação. Mas mesmo assim, os textos escolhidos foram acrescentados, cortados e, inclusive, emendadas algumas passagens mais controversas ou comprometedoras.

Sobre essa prática, que já vinha detrás e que aí não se esgotou, escreveu Orígenes, no século III: "É hoje um facto mais do que evidente que, entre os manuscritos, existem grandes diferenças, devidas não só à negligência dos escribas, mas ainda à audácia perversa das pessoas que corrigiram os textos, acrescentando-os ou amputando-os a seu belo prazer, assumindo-se como correctores."

Todos os demais evangelhos e textos similares foram excluídos do cânone e declarados de inspiração demoníaca, cujo destino seria a fogueira. Mais tarde, inúmeros textos lançados às chamas passaram a ser acompanhados, também, pelos seus autores.

Irineu proclamava que somente os membros da instituição por ele criada seriam considerados cristãos ortodoxos e que a sua igreja deveria ser chamada “católica”, isto é, “universal”. Quem ousasse contrariar ou tão-somente argumentar em favor de outras formas de pensamento ou de ensinamento cristão, era sumariamente declarado “herege” e expulso.

Quando, dois séculos volvidos, estes cristãos ortodoxos subiram ao poder pela mão de Constantino e passaram a deter o apoio militar e policial do império, o castigo para a “heresia” subiu de tom, até ultrapassar limites inconcebíveis. Vide o caso de Prisciliano que, apesar de bispo católico, teve a suprema ousadia de romper o cânone e de pensar por si mesmo.


CONSTANTINO
                                                          
Constantino foi um imperador romano de legitimidade duvidosa que, num império dividido e assolado por guerras civis, foi subindo a escada do poder até ser proclamado “Augusto”, no ano 306.

Como imperador do ocidente, Governou uma vasta e crescente porção do império até à sua almejada reunificação, com o triunfo sobre Licínio, imperador do oriente. Ali converteu a cidade de Bizâncio na Nova Roma, depois chamada Constantinopla, em sua homenagem.

É possível que o lema católico em voga, “um Deus, uma religião”, tenha servido de mote para o seu ambicioso “um Império, um imperador”… Daí que, promulgando o Edito de Milão, em 313, assinado também por Licínio, tenha concedido a liberdade de religião no império romano; no entanto, nunca fez do catolicismo a religião oficial do império, o que só sucedeu com Teodósio, em 380, através do Edito de Tessalónica.

O episódio mais conhecido associado a Constantino, e que o ligava, desde logo, ao cristianismo, terá ocorrido em Itália, onde enfrentou o seu opositor Magêncio, na batalha da Ponte Mílvio, perto de Roma, em 28 de outubro de 312. Segundo a lenda, na noite anterior à batalha, Constantino sonhara com a cruz cristã contendo a inscrição “in hoc signo vinces” (“com este sinal vencerás”) e, na manhã seguinte, depois de fazer pintar a cruz nos escudos dos seus soldados, obteve uma vitória esmagadora.

Esta lenda, que sugere uma espécie de outorga transcendental e de missão divina do imperador, muito convinha a Constantino, pois acabava com as dúvidas pendentes da sua legitimidade dinástica, desse modo ratificada pelo Céu, mas convinha, igualmente, à igreja católica, para “cristianizar” a figura implacável de um tirano que, no entanto, favorecia a instituição romana. Obviamente, não tem qualquer validade histórica e, hoje em dia, é atribuída à imaginação do seu biógrafo, Eusébio de Cesareia.

Como quase sempre acontece, os ditadores preocupam-se com a justificação da sua tirania, não somente em relação ao seu próprio tempo, mas também face à posteridade. Com esse propósito, o imperador contratou o bispo Eusébio de Cesareia, autor de uma vasta e elaborada “História da Igreja”, onde também se relata o “milagre” da Ponte Mílvio, para imortalizar a sua vida numa outra obra que lhe seria totalmente dedicada – a “Vida de Constantino”.

Foi assim que Eusébio nos legou uma biografia hagiográfica e laudatória do imperador, exaltando as grandes qualidades humanas e as virtudes morais e religiosas de Constantino – que, na verdade, nunca foi paladino da fé cristã, e cujas virtudes morais ficaram bem patentes ao mandar assassinar a sua própria família!...

De facto, como se encontra historicamente comprovado, Constantino mandou matar o seu filho e sucessor, Crispo, e asfixiou a sua própria mulher, Fausta; e quanto à fé cristã, também é sabido que, pouco antes de morrer, permanecia devoto do Deus Sol Invicto, oferecia sacrifícios a Zeus e utilizava o título, na altura pagão, de “Pontifex Maximus”, nunca tendo participado em qualquer acto litúrgico católico. Ou seja, Constantino utilizou o cristianismo em expansão como arma para as suas próprias ambições políticas, nunca se tendo baptizado a não ser no leito de morte, supostamente para cobrir todas as hipóteses de salvação…

Por isso, a “Vida de Constantino”, escrita por Eusébio, não tem qualquer confiabilidade histórica. Mas o que seria de esperar de uma biografia do imperador que abriu as portas ao catolicismo, compilada pelo teólogo da sua corte, em pleno processo de consolidação da Igreja?...

Quanto à anterior e compacta “História Eclesiástica”, escrita por Eusébio de forma apologética, isto é, como defesa da fé, nela se reproduz, apenas, a versão oficial, em que se omitem e alteram factos para os conformar à versão canónica, com tudo bem colorido pela imaginação do autor. Acabou por ser o único relato coevo da história da Igreja que chegou aos nossos dias, seguramente porque os outros, que contavam uma versão diferente, foram destruídos e queimados pelo poder eclesiástico.

No ano 325, Constantino reuniu os bispos católicos em Niceia, cidade da actual Turquia. Nesse célebre concílio, a Igreja Católica consagrou o seu canone, baseado nos textos selecionados por Irineu, decretando que o credo niceno, ali definido, era a única visão do cristianismo e "anatemizando" aqueles que não o subscrevessem.

Todos os outros evangelhos e escritos não afins, ou que poderiam pôr em causa o papel da Igreja, foram oficialmente expurgados, e a instituição católica dedicou-se depois, durante dezasseis séculos, e com eficiência quase total, a queimá-los e a eliminar-lhes o rasto.

Percebe-se assim, muito melhor, o embaraço da Igreja dos nossos dias ao serem descobertos no deserto egípcio e nas margens do Mar Morto inúmeros textos, coevos dos evangelhos canónicos, que escaparam à censura romana…


ESPANTO 

As raízes do gnosticismo – onde floresceu o cristianismo primordial – foram beber na mesma nascente que saciou Enoch, e cujo caudal se espraia, externamente, em inúmeros mitos universais. 

 Como, por exemplo, o mito pagão de Dionísio, o deus-homem nascido numa gruta no dia 25 de Dezembro, de mãe virgem e assistido por pastores…Também esse deus-homem pagão morria e ressuscitava para ilustrar um processo de conhecimento iniciático e de iluminação espiritual.

Quanto ao rito do baptismo, há muitos séculos, ou mesmo milénios, que já existia, proveniente de Eridu, a antiga cidade-templo suméria do “Deus da Casa da Água”, Ea ou Enki.

 E o que dizer da cerimónia pagã em que os sacerdotes se uniam ao seu deus numa refeição simbólica de pão e de vinho?... De acordo com as respectivas escrituras, cumpriam as palavras de Mitra: “Aquele que não comer do meu corpo e beber do meu sangue, para que se torne um comigo, não conhecerá a salvação”.

 Todos estes exemplos (entre muitos outros...), demonstram que a doutrina cristã, ao contrário do que diziam os seus paladinos, não era original ou única, mas que nela existiam substanciais e importantes contribuições da antiga religião dos Mistérios Pagãos. Mas se estes Mistérios eram primitivos e "obra do Diabo", segundo afirmavam os Pais da Igreja, como justificar estas “coincidências” comprometedoras, que antecederam o cristianismo em muitos séculos?...

 Antes de dar a palavra àqueles atónitos e abalados Pais da Igreja que procuraram responder a esta questão, debrucemo-nos um pouco sobre o paganismo que, afinal, não só produziu uma das culturas mais desenvolvidas da Antiguidade, como também, indubitavelmente, se encontra ligado às origens do cristianismo.

Para termos uma noção do elevado grau da espiritualidade do mundo pagão, reflectido na sua civilização e cultura, basta dizer que dela se originou o Teatro, assim como os Jogos Olímpicos e que dela nasceram as obras imortais de Pitágoras, Sócrates, Platão e muitos outros clássicos, onde assentam as nossas ideias modernas e a nossa própria cultura; que ela produziu construções fabulosas, como as Pirâmides de Gizé, no Egipto, ou o Pártenon, na Grécia, reconhecidas como das maiores maravilhas da história do homem, e que os nossos museus estão cheios de obras-primas da escultura suméria, egípcia, grega e romana, admiradas ainda hoje como expoentes de uma arte sem tempo.

Os grandes pensadores e estadistas da antiguidade, bem como os seus maiores artistas e inovadores, eram iniciados e mestres dos Mistérios, que consideravam a fonte inesgotável da sua cultura e o principal propósito da sua vida, permitindo-lhes o acesso a um outro estado de consciência e à iluminação espiritual. O conhecido estadista romano Cícero escreveu que “os Mistérios fizeram-nos evoluir da selvajaria mais grosseira para uma civilização culta e refinada; os seus ritos chamam-se “iniciações” e aprendemos com elas os princípios da vida, adquirindo a compreensão necessária não só para viver com felicidade, mas para morrer com esperança.”

Estes Mistérios decorriam em dois níveis: os Mistérios Externos, baseados em mitos do conhecimento geral ou exotérico, e que dispunham de uma ritualística aberta a todos os interessados, e os Mistérios Internos, de cariz esotérico e fechado, reservados àqueles que haviam superado o processo de iniciação, com a indispensável transformação e superação pessoais, onde se explicava o significado oculto daqueles outros mitos e se tornava acessível o segredo sagrado de todo o caminho espiritual – isto é, o conhecimento de Deus directo e empírico, tal como o defendiam os gnósticos.

Ou seja, através dos Mistérios internos, os iniciados podiam vivenciar a Gnose e conhecer, por si próprios, a Verdade.

Um iniciado pagão nos Mistérios poderia descobrir Deus em si mesmo, tal como um iniciado gnóstico – de acordo com as palavras do próprio Jesus - poderia e deveria aceder ao seu nível crístico… Por isso os gnósticos afirmavam conhecer os Mistérios Internos do Cristianismo.

Digamos, então, que a Igreja, ou o cristianismo romano, se relacionava apenas e mal, com os Mistérios Externos, enquanto o gnosticismo era um verdadeiro “cristianismo espiritual”, que revelava os Mistérios Internos e secretos do cristianismo àqueles que eram escolhidos. Como em todas as outras iniciações, o objectivo destes Mistérios gnósticos consistia em levar o eu inferior humano à união com o seu próprio Ser Superior, pois é somente quando ambos se tornam Um que ocorre a iluminação.

O mestre gnóstico Valentim é claro: ”quando o eu humano e o Eu Divino estão interligados, podem atingir a perfeição e a eternidade”.

Por isso, ao compartilharem a morte do deus-homem redentor, qualquer que Ele fosse, os iniciados morriam para a sua natureza terrena inferior e, ao ressuscitarem, renasciam espiritualmente e viviam a mesma essência eterna e divina.

 O próprio Clemente de Alexandria desvela que, no cristianismo primitivo, se celebravam “Mistérios Inferiores”, para principiantes no caminho espiritual e “Mistérios Superiores”, correspondentes a um conhecimento mais elevado e secreto, que levava à iniciação plena. Faz também questão de explicar que “as tradições secretas da verdadeira Gnose” não se perderam e haviam sido legadas “a um pequeno número”, por uma sucessão de mestres e não por escrito”.

O mesmo Clemente afirma que o evangelista Marcos terá escrito, na sua cidade de Alexandria, não um mas três evangelhos diferentes, conformes aos diferentes níveis de iniciação. O Evangelho de Marcos, contido no Novo Testamento, destina-se aos principiantes da fé. Mas Marcos também escreveu um Evangelho Secreto a ser usado por aqueles que estavam a ser iniciados. Clemente chega ao ponto de aconselhar um dos seus alunos a negar a existência desse Evangelho Secreto “mesmo sob juramento”, pois nem todas as coisas verdadeiras devem ser ditas a todos os homens” e a “luz da verdade deve ser escondida daqueles que são mentalmente cegos”.

Segundo Clemente, o Evangelho Secreto de Marcos registava “coisas adequadas a quem faz progressos em direcção à Gnose.” No entanto, mesmo neste “evangelho mais espiritual”, Marcos persistia em não “divulgar as coisas que não devem ser proferidas, e nele tampouco escreveu os ensinamentos mais secretos do Senhor, mas acrescentou outras histórias às que já tinha escrito, e introduziu certas frases que levariam os ouvintes ao santuário mais profundo da verdade”.

Por isso Clemente dizia que “saber é mais do que acreditar”. Antes dele, já Platão defendia que a crença se ocupa apenas com a aparência das coisas, enquanto o conhecimento, através do espírito, penetra na realidade subjacente.

E Clemente conclui: “a filosofia grega expurga a alma e prepara-a para a recepção da fé, na qual a Verdade constrói o edifício da Gnose”. Claro que o bispo Irineu discordava em absoluto, condenando os gnósticos por fazerem “uma nova veste dos trapos inúteis e velhos da filosofia grega”…

Clemente de Alexandria teve como discípulo e sucessor Orígenes, que chegou a ser considerado como Pai da Igreja oriental e um dos três pilares da teologia cristã, junto com Santo Agostinho e S. Tomás de Aquino. No entanto, Orígenes ensinou doutrinas antigas, pagãs e gnósticas, já patentes em Clemente e, mesmo depois de morto, foi questionado o seu ortodoxismo, não escapando de ser condenado como herege.

O Concilio de Constantinopla, de 553, ordenou a destruição das suas obras e o grande livre-pensador de Alexandria não se livrou da expurga póstuma “damnatio memoriae”,em que a sua memória era liminarmente proscrita.

Uma “damnatio memoriae” que, um dia, poderá voltar-se contra quem a lançou.


DIABO

As forças tenebrosas trabalharam, e trabalham ainda, no mundo para manter o estado de escravatura e de nulidade espiritual em que se encontra grande parte da humanidade. Contra o lado negro, sempre se levantaram as forças luminosas, procurando libertar o homem através do desenvolvimento da consciência.

 A sabedoria popular diz que "não há mal que sempre dure" e este outro Mal  sabe que já perdeu a partida,  neste ciclo que se esgota. Mas mesmo derrotadas, as forças negras continuarão a causar o maior dano possível à humanidade, como o seu último estertor, confundindo todas as vias que levam a uma era de liberdade.

Na antiguidade, um importante caminho de libertação foi, precisamente, o culto dos Mistérios.

Já vimos que muitos temas míticos deste culto coincidiam com a história de Jesus, e nenhum dos Pais da Igreja o negou, ainda que ignorantemente chocados com as suas extraordinárias semelhanças. Por sua vez, os pagãos não entendiam porque é que os cristãos faziam da história de Jesus uma revelação, quando ela apenas copiava, e de forma incompleta, os seus próprios mitos. Celso, filósofo e sátiro pagão, não podia ser mais claro: “Na verdade, não existe nada de novo no que os cristãos acreditam, a não ser que eles acreditam naquilo e excluem verdades mais compreensivas acerca de Deus.”

Incapazes de compreender que os mitos expressavam um arquétipo universal e que, portanto, eram a história-padrão de todos os enviados divinos, salvadores da humanidade, os Pais da Igreja viam-se em grandes dificuldades para explicar aos cristãos como é que os Mistérios pagãos contavam a história de Jesus em primeira mão, muitos séculos antes de Jesus ter nascido!...

Em compreensível desespero de causa, inventaram a teoria mais absurda alguma vez formulada: a “mimesis diabolica”, ou seja, o mimetismo do Diabo…

Seguindo o raciocínio de Justino, de que os mitos pagãos haviam sido “inventados por demónios” para pôr em dúvida o verdadeiro Cristo, Tertuliano recorre a um argumento ainda mais absurdo e rebuscado: o Diabo, conhecedor da vinda futura do Filho de Deus à Terra, criara os mitos pagãos como cópia antecipada da biografia de Jesus, num descarado plágio para confundir os cristãos vindouros!…

E desenvolve a mesma teoria, relativamente aos sacramentos: “o Diabo, cuja tarefa é perverter a verdade, imita as exactas circunstâncias dos divinos sacramentos: baptiza os seus crentes e promete o perdão dos pecados da Fonte Sagrada, e assim os inicia na religião de Mitra; celebra a oblata do pão, e introduz o símbolo da ressurreição. Reconheçamos a astúcia do Diabo, que copia coisas que são Divinas”.

 Mas a Igreja, consciente de que a "astúcia" dos seus eruditos defensores deixava muito a desejar, procurou jogar pelo seguro e eliminar de uma vez por todas as semelhanças “diabólicas” comprometedoras, arremetendo, com todo o seu poderio, contra os “demónios pagãos”.

A fúria selvagem com que a Igreja perseguiu o paganismo, levou à destruição das mais sublimes obras de arte, de templos e santuários sagrados e de bibliotecas inestimáveis, como a de Alexandria, que haviam enchido a Antiguidade de beleza, conhecimento e brilhantismo, levando o homem de então à mais elevada espiritualidade.

Um marco dessa campanha devastadora foi o ano 396, em que bandos de monges cristãos, com o beneplácito do império, arrasaram o templo de Elêusis, na Grécia, onde, durante onze séculos, se havia celebrado o culto dos Mistérios em honra da Grande Mãe e do deus-homem Dionísio.

Uma cultura religiosa e civilizacional infinitamente superior foi estilhaçada pelo ódio, ou ardeu nas chamas do fanatismo mais cego… Tudo foi varrido e erradicado, a ponto do paganismo ser hoje considerado como “religião morta” ou antes, como mais apropriadamente deveria ser dito, exterminada.

O mundo ficou mais pobre.

E mais sombrio.

No entanto, por muito que a Igreja se esforçasse, o paganismo estava de tal modo arreigado à vida e ao coração das populações da antiguidade que os seus fundamentos tiveram que ser, de alguma forma, incluídos na nova religião, sob pena de não serem seguidos. Foi por isso que a Igreja acabou por manter e “cristianizar” todas as celebrações e dias festivos do calendário pagão, dando-lhes outros nomes e consagrando-os a santos cristãos.

Resta acrescentar que na etapa final da sua vida, Tertuliano, o principal mentor da teoria do “mimetismo diabólico”, caiu em si e consciencializou uma igreja diferente, essencialmente espiritual - “pois a igreja é, justa e principalmente, espírito” – e rompeu com a instituição católica, a quem apelidou de cristãos “psíquicos”, juntando-se à heresia montanista, um movimento reavivador das realidades “pneumáticas” (ou espirituais) e escatológicas dos cristãos primordiais.

Como, finalmente, reconheceu, ”a igreja congrega-se onde o Senhor o planear – uma igreja espiritual para pessoas espirituais – não a igreja de um certo número de bispos”.


ILUMINAÇÃO

Com o foco colocado no poder temporal e na forma externa, a Igreja perdeu, há muito, o sentido profundo da mensagem de Jesus, fazendo jus àquelas palavras do “Apocalipse de Pedro” que a classificam como “igreja de imitação”. O seu vazio desolador, contrastando com o forte impulso espiritual da actualidade, fez com que se reabrissem todas as antigas questões do início do cristianismo.

Ou seja, a gnose ressurge agora como alternativa poderosa à corrente católica que a aniquilou.

Recordemos, então, que Clemente de Alexandria afirma que a gnose é uma ciência divina, revelada aos homens para lhes trazer a luz sobre todas as coisas e os tornar capazes de chegar a Deus, através do conhecimento directo ou empírico, facultado por um estado interior de iluminação.

Os gnósticos distinguem a igreja falsa da verdadeira pelo nível de consciência dos seus membros. O citado “Apocalipse de Pedro” adianta que aqueles que foram iluminados discriminam por si próprios o que é verdadeiro do que é falso; havendo sido convocados para a gnose, nem tentam dominar os outros, nem se sujeitam à hierarquia eclesiástica de bispos, padres e diáconos, “esses canais sem água”…

A gnose não é uma doutrina, assente numa hierarquia, mas um "estado de ser" e, por isso, não poderá nunca ser compreendida verdadeiramente do exterior sem se haver experimentado, por dentro, o seu impacto transformador.

Prisciliano estudou com mestres gnósticos, foi sensível àquele impacto e muitas destas considerações tecidas sobre a gnose foram acusações que também sobre ele pesaram. Daí que devam ser um pouco mais desenvolvidas.

A via do autoconhecimento, ou o conhecimento do poder divino que existe no interior de cada ser humano, era transmitida aos candidatos suficientemente “amadurecidos”, que depois eram iniciados directa e verbalmente pelos mestres gnósticos, como nos antigos Mistérios pagãos.

Os sábios pagãos ensinavam que todos os seres humanos têm um “eu” inferior mortal a que chamavam “eidolon” – constituído pelo corpo e pela personalidade -, e um “Eu” Superior imortal, o “Daemon” - a Individualidade, o Espírito -, que liga cada um com Deus. O culto dos Mistérios servia para ajudar os iniciados a compreender que o “eidolon” é um “eu” transitório e que a sua verdadeira identidade é o “Daemon”.

Portanto, atingindo o patamar do “Daemon”, do Eu Superior, do Eu Divino, tudo o mais será conhecido… E como o “Daemon” é uma parte do Eu universal que habita cada ser, também cada um se percebe como parte do Todo Divino.

Os sábios gnósticos ensinavam precisamente o mesmo. Um dos seus mais respeitados expoentes, Valentim, explica que o iniciado se vivencia como o “eidolon”, a personalidade encarnada que se alinha com o “Daemon”, o seu Eu individual, que é uma parte da Alma única de Deus; desse modo, conhecer-se a si próprio é integrar-se no Todo e conhecer Deus…

A busca da gnose, controlando o “eidolon” e fazendo com que se alinhe com o “Daemon”, não é tarefa fácil e requer conhecimento, esforço e disciplina. É um processo solitário e directo, porque toda a revelação do espírito é individual, assim como isolado é o caminho que a ela conduz - a transformação e a superação de cada um em si mesmo. Por isso, a experiência própria e imediata tem um valor único e insubstituível, e as experiências dos outros (“meros testemunhos em segunda mão”) servem apenas como referências provisórias, até cada um descobrir o seu próprio caminho.

Também não é isento de perturbação interior, pois haverá que enfrentar inúmeras e fortíssimas resistências internas. O próprio Jesus avisa no “Evangelho de Tomé”: “Deixai aquele que busca continuar a buscar até encontrar; quando encontrar ficará perturbado; quando ficar perturbado, ficará espantado, e terá também primazia sobre todas as coisas.”

Ao mudar internamente o foco para um outro plano da existência, o seu mundo deixa de ser o mundo dos seus semelhantes, mesmo que vivam ao seu lado. E essa outra solidão é a mais solitária de todas… Segundo o mesmo “Evangelho de Tomé”, Jesus refere-se a ela com palavras consoladoras: “Abençoados sejam os solitários e os escolhidos, pois eles descobrirão o Reino – dele procedem e a ele regressarão.”

O caminho da descoberta do divino interior é, assim, essencialmente meditativo e silencioso embora, paradoxalmente, também se alimente do som. A entoação do som – mantras, palavras e sílabas sagradas – faz parte das técnicas meditativas, ainda que também seja possível e desejável cantar em silêncio ou falar com Deus sem palavras.

Em determinadas circunstâncias, o som transforma-se numa prece muda, e o silêncio transforma-se num cântico de palavras e vogais sagradas…

Mas para iluminar esse caminho de revelação é indispensável “acender a lâmpada” que cada um traz dentro de si… E, no “Diálogo do Salvador”, Jesus é peremptório: “A lâmpada do corpo é a mente.” Haverá que limpá-la e acendê-la para que a sua luz permita distinguir e assimilar tudo o que está para além dela.

Desse modo iluminado, será possível “bater à porta que sois e caminhar sobre a estrada que sois”, no dizer do mestre gnóstico Silvano, que assim aconselha: “Abri a porta por vós mesmos, de forma a poderdes ficar a conhecê-la.” Na verdade, será a única forma de o fazer pois, como conclui: “Tudo aquilo que abrirdes por vós próprios, abrireis efectivamente.”

Esta tónica na acção directa e individual contrariava abertamente a função exclusivista dos clérigos católicos, como supostos detentores das chaves de todas as portas. Mas o que lhes provocava ainda maior horror é que, de novo como nos Mistérios Pagãos, a iniciação era aberta igualmente às mulheres.

                                                            ***

A Igreja sempre teve dificuldade em conviver com o aspecto feminino, ao contrário de Jesus, que era acompanhado por um misterioso grupo de mulheres. Inclusive, conforme relata uma passagem do Evangelho de Tomás, uma dessas mulheres, identificada como Salomé, pergunta, significativamente, a Jesus: “E tu quem és? Donde surgiste para te haveres metido na minha cama e haveres comido á minha mesa?”... 
       
E Paulo não viajava com a sua companheira Tecla, acerca da qual escrevia na Epístola aos Coríntios: “Acaso não temos direito a levar connosco uma irmã que seja nossa mulher?”

Tal como afirmava escandalizado o bispo Irineu, as figuras femininas, com destaque para Maria Madalena, são fartamente referidas nos evangelhos gnósticos, ainda por cima como detendo posições de chefia e autoridade espiritual.

Prisciliano viria a ser acusado da mesma liberdade em relação ao feminino pois, contrariando as normas vigentes da igreja, permitia que as mulheres tomassem parte em cerimónias litúrgicas. E uma delas também o acompanhou no cadafalso.

Um sábio gnóstico, conhecido como Simão, o Mago, afirmava que os iniciados que haviam conhecido o verdadeiro Pai eram “livres de viver conforme queriam”. Tal concepção amoral – herdada pelos grandes mestres gnósticos de Alexandria, Basilídio e o seu sucessor Valentim – enfurecia os ortodoxos que, de novo pela pena do bispo Irineu, acusavam os gnósticos de defender que “as acções em si mesmas não são boas nem más, mas variam apenas de acordo com as convenções humanas”, concluindo que aquela suposta liberdade espiritual era um pretexto para a devassidão em que viviam.

Mas os gnósticos nem viviam em devassidão nem pregavam a imoralidade; simplesmente, reconheciam que se poderia atingir uma plataforma de entendimento espiritual para além das regras convencionais de um código ético imposto por uma sociedade e por ela definido como “moral”, mas que num outro ciclo, ou mesmo numa outra cultura, já não era o mesmo.

Portanto, aquelas regras relativas valem somente ao seu próprio nível, mas nunca deverão constituir-se como escravidão moral, pois o grande objectivo era, é e será sempre a libertação – libertação moral incluída.

Quando o iniciado entra em contacto com a sua natureza divina, passa a agir de forma alinhada, intuitiva e espontânea. Por isso, Basilídio argumenta que os cristãos “espirituais” são verdadeiramente morais (ou amorais, o que dá no mesmo, em termos absolutos) simplesmente “por natureza”. Desse modo, ao atingir-se a gnose, todas as regras éticas fabricadas por fora poderiam ser abandonadas, pois o iniciado agiria “naturalmente bem”, mesmo que não da forma convencional.

Escreve Clemente: “As observâncias exteriores explícitas deixam de ter qualquer valor para aquele cujo ser total é levado para uma harmonia conforme àquilo que é eterno; ele não tem desejos, nem paixão; descansa na contemplação de Deus que é e será a sua bênção infalível. Assim, toda a acção de um homem possuído pela Gnose é acção correcta, e toda a acção feita por um homem não possuído pela Gnose é acção incorrecta, embora ele cumpra um plano.”

No passado, participando activamente nos Mistérios pagãos e nos gnósticos, as mulheres não somente eram iniciadas, como, muitas delas, foram sacerdotisas e profetizas famosas. Refira-se que também várias mulheres haviam sido filósofas de renome, estudando com Platão, Sócrates e outros mestres. No século IV, a filósofa neoplatónica, matemática e astrónoma Hypatia de Alexandria, expoente da cultura do seu tempo e contemporânea de Prisciliano, acabou linchada por uma turba fanática de cristãos.

Também a mitologia gnóstica incluía a Deusa Sophia na sua Trindade Santíssima, junto com deus Pai e o Filho. Sophia era a Grande Mãe, o Aspecto Feminino da Divindade, que resplandecia gloriosamente em toda a Antiguidade. Na Grécia era Deméter, no Egipto, Ísis e, muito mais tarde, S. Bernardo (significativamente ligado ao surgimento dos Templários), levou-a para os altares católicos como “Nossa Senhora”, ainda que grande parte da igreja continuasse a olhar o feminino com desprezo e desconfiança.

Nos mitos gnósticos, Sophia procura por Jesus, da mesma forma que Ísis se lança em busca de Osíris. E, por sua vez, durante a sua permanência na Terra, é o próprio Jesus que conduz os seus discípulos nas iniciações dos Mistérios.

 Quanto a Deus Pai, a sua concepção abstracta e transcendente, como unicidade inefável e indescritível, foi igualmente importada dos Mistérios Pagãos pelos gnósticos, que assim o distinguiam de Jeová, o reconhecível e caprichoso Deus de Israel. Por isso Irineu acusava os gnósticos da terrível blasfémia de afirmarem que “existe outro Deus além do Criador”…

No entanto, aquele outro Pai da Igreja e esforçado caçador de hereges não se atreveu a tocar em Paulo, comprovadamente discípulo do mestre gnóstico Dositeu e seguidor da teosofia do pagão Fílon de Alexandria.

A Igreja, para não perder o prestígio e a autoridade do Apóstolo, tudo fez para mascarar e descartar o seu gnosticismo, mais que evidente nos seus escritos autênticos, acrescentando-lhes epístolas falsas em que se mostrava anti gnóstico… Mas Valentim refere que recebeu de Tendas, um discípulo de Paulo, a iniciação numa tradição secreta, que o próprio Paulo ensinava somente àqueles que considerava espiritualmente ”amadurecidos” e que referia, precisamente, o mesmo sentido da acusação de Irineu; ou seja, que para os gnósticos os católicos pretendiam representar Deus, mas representavam apenas o Demiurgo…

Valentim serve-se de Platão e do termo grego “demiurgos”, que significa “criador”, para, de acordo com a referida tradição secreta, definir o Deus de Israel como um ser divino de menor hierarquia, explicando que é o Demiurgo que reina na Terra, promulgando a lei e julgando severamente os seus detractores.

Tal concepção vai ao encontro do carácter irascível de Jeová, deus dos judeus, descrito no Antigo Testamento como divindade sectária e tirânica, que diz a Moisés: ”Não terás outro deus além de mim… Eu, o senhor teu Deus, sou um Deus cioso!”... Comentando esta passagem, o “Livro Secreto de João” conclui que Jeová, ao dizer isto, está a reconhecer que outros Deuses existem – “pois se não houvesse nenhum outro, de quem seria cioso?”…

Por isso, o Jesus gnóstico não é um profeta ou enviado de Jeová, mas sim do Deus Pai transcendente e inefável, referido por Platão e cultuado pelos Mistérios – e alcançar a gnose envolvia o reconhecimento da verdadeira fonte do poder divino.

Ao chegar a tal fonte, o gnóstico descobre a sua própria origem espiritual, conhecendo o seu verdadeiro Pai e Mãe. Por isso se dizia que quem alcançar esta “gnosis” – este entendimento – está preparado para receber o sacramento sagrado chamado “apolytrosis” que, literalmente, significa “libertação”.

                                                        ***

Outra das grandes questões que opunham os cristãos romanos aos gnósticos tinha a ver com a crença na ideia pagã da reencarnação.

Os católicos sempre a recusaram, apesar de no evangelho canónico de João (1,19), os sacerdotes e levitas de Jerusalém perguntarem a João Baptista se era (uma reencarnação de) Elias, ou no evangelho canónico de Mateus (17,12), os discípulos presentes na Transfiguração "compreenderem" que Jesus se referia a João Baptista como uma reencarnação de Elias (“Elias já veio e não o reconheceram”), ou ainda no evangelho canónico de Marcos (8,27), quando Jesus pergunta aos discípulos quem pensam que Ele é, e uns dizem que é João Baptista, outros Elias, e outros “um dos profetas”…

O iniciado pagão Plutarco diz que a alma “se foi conservada no corpo durante muito tempo e se tornou domesticada para a vida física, como resultado de todo o tipo de envolvimentos e longa habituação, voltará a poisar num corpo, nascimento após nascimento, sem deixar de se embrulhar nas paixões e acasos do mundo”. E assim continuará a reencarnar vezes sem conta até “ser salva da sua falta de sentido da vida” – como explica o “Livro Secreto de João”- “sendo aperfeiçoada ao atingir a gnose, não voltando a entrar noutra carne”.

Portanto, a gnose, como diz Basilídio, representava a consumação de muitas vidas de esforço.

Também Orígenes escreve a este respeito: “cada alma existiu desde o princípio; assim, já passou por muitos mundos, e passará por outros até atingir a consumação final. Vem para este mundo fortalecida pelas vitórias ou enfraquecida pelas derrotas da sua vida anterior”. Como já dissemos antes, Orígenes foi condenado postumamente como herege pela Igreja católica romana pelas suas tendências gnósticas e por ensinar estas doutrinas antigas.

A “Pisthis Sophia” explica que uma alma não poderá ser levada para a Luz sem ter compreendido todos os Mistérios, através de várias vidas, até que encarnando, por fim, num “corpo justo”, encontrará “o Deus da Verdade e os Mistérios Superiores”.

A crença na reencarnação assume-se, assim, como uma mensagem de esperança e de confiança na Vida, mas que a Igreja sempre negou aos seus fiéis. E que explica todas as desigualdades e injustiças para as quais a Igreja tampouco encontra justificações, tudo remetendo para o foro divino e para o dogma.

O belo e o horrível, o rico e o pobre, o inteligente e o estúpido, o são e o doente, o feliz e o infeliz, uma vida longa ou demasiado curta…, para a Igreja tudo são “desígnios de Deus”, que deveremos aceitar sem mais questionamentos; e também, segundo dizem, seremos julgados para toda a eternidade em função dos poucos anos que vivemos na Terra. O absurdo deste beco obscuro e sem saída contrasta com o caminho livre assinalado pela reencarnação. Não significa que seja um caminho fácil, como atrás ficou patente, mas nele existe esperança de progresso, consciência e redenção.

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 Já vimos atrás que os Mistérios nada tinham de dogmáticos e que a sua iniciação não envolvia a imposição de qualquer crença, mas sim a vivência de um estado de consciência alterado.

 Pitágoras passou 22 anos nos templos do Egipto, aprendendo os seus segredos, que se ligavam também com a Suméria e com outras culturas orientais, tornando-se iniciado nos antigos Mistérios. Regressando à Grécia e baseando-se nesse conhecimento, criou, com os seus discípulos, os Mistérios Gregos, transformando Dionísio na versão grega de Osíris, o deus-homem que morria e ressuscitava nos Mistérios Egípcios.

Da mesma forma, outras culturas da época também transformaram uma das suas divindades naquele deus-homem iniciador dos Mistérios que, assim, se chamou Átis, na Asia Menor, Mitra, na Pérsia, Adónis, na Síria, Baco, em Itália, etc. Na verdade pouco importava a identidade do deus, mas sim a consciência conquistada no processo iniciático e, ao adquiri-la internamente, não tinham dificuldade em reconhecê-la onde quer que fosse; desse modo, poderiam também adaptar-se, externamente, a qualquer religião.

 Por isso, grandes iniciados nos Mistérios, como Diógenes e Sócrates, assumiam-se como “cosmopolitas” ou “cidadãos do cosmos”, capazes de viverem conscientemente em qualquer zona do planeta ou fora dele…

 Também Prisciliano era um homem “cosmopolita”, bem adiantado ao seu tempo e, precisamente por fazer a diferença, foi perseguido e abatido pelo reacionarismo intolerante que, entretanto, chegara ao poder.

Analisando agora, com melhor perspectiva, as diferenças entre a Igreja católica e os gnósticos livres-pensadores, percebemos que Prisciliano se encontrava sem qualquer hipótese de saída no plano horizontal, dominado pela Igreja, devendo ter-se limitado à sua própria verticalidade, interna e silenciosa, como fizeram outros espíritos abertos dentro da instituição romana.

Mas se isso acontecesse sempre, não ficaria o exemplo e não seria regada, ainda que com sangue, a semente da revolta.

Compreende-se, assim, que Prisciliano, até ser eliminado, tenha tido uma relação cada vez mais difícil com uma Instituição eclesiástica tremendamente rígida e pesada, cega e autoritária, que impunha com mão de ferro o seu autoproclamado papel de intermediária exclusiva entre o homem e Deus.

Afinal, a mesma função da gnose, sem ser necessária Instituição alguma!


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Agora que as vozes dos vencidos de outrora soam livres, não se ouvem alaridos inúteis, nem cânticos de vitória ou qualquer outra manifestação de triunfalismo, e, muito menos, clamores de vingança, de acordo com a neutralidade iniciática que acompanha a reposição do equilíbrio.

A luta pela liberdade não terminou.

Os factos passados são agora conhecidos e estão aí para serem devidamente avaliados, e todas as ilações e consequências tomadas - e é muito importante que o sejam, para que a consciência possa surgir como essência deste processo, absolutamente decisivo para que o homem e a mulher do nosso tempo se tornem, um dia, em "cidadãos do cosmos".

Porque ainda existem na Terra campos de extermínio espiritual, em que o ser humano (ou a energia que dele emana) é preparado como “alimento”, através do obscurantismo e da ignorância, para ser consumido por forças tenebrosas…

A consciência é a única arma que as pode vencer.

Alan Watts, um mestre zen do nosso tempo (e o zen também é uma via para a iluminação, isto é, para a gnose ou para a consciência) dizia liminarmente, na linha daquela neutralidade referida, que “as coisas são o que são. Quando olhamos o universo de noite, não fazemos comparações entre estrelas correctas e incorrectas, nem entre constelações bem ou mal organizadas”.

No entanto, faz parte da nossa demanda como “cidadãos do cosmos” tentar chegar a um conhecimento tão perfeito quanto possível acerca dos corpos celestes que observamos, pois tudo tem uma ligação entre si, e a consciência é, de facto, a mola real dos universos.

Por isso, se há um astro que, nesse firmamento, representa a Igreja Católica Romana, tenho para mim que já se extinguiu há muito tempo, e que só continuamos, de momento, a observá-lo, porque a luz do seu último reflexo ainda não terminou de percorrer a enorme distância que nos separa…