23 de jun de 2017

PORTUGAL ENTRE O TUDO E O NADA (Evangelho da Ibéria - II)


































  “Ao longe por mim oiço chamando
    A voz das coisas que eu sei amar.

    E de novo caminho para o mar. ”
                                                   

                           Sophia de Mello Breyner Andresen






                          1   



   Que ânsia distante perto chora?




      “Ninguém sabe que coisa quer.
        Ninguém conhece que alma tem,
        Nem o que é mal nem o que é bem.
        (Que ânsia distante perto chora?) ”


          Fernando Pessoa, “Mensagem”







Tudo...

Segundo Fernando Pessoa, um dia, os portugueses serão tudo. Disse-o assim, desta forma curta e definitiva, como a batida do martelo do juiz – mas o que fazer com tal veredicto?

Recordemos o entrecho das suas palavras: "O futuro de Portugal - que não calculo, mas sei - está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas Trovas do Bandarra, e também nas Quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. " Não se trata, pois, de uma interpretação, mas de uma afirmação, seguida por uma confirmação; ou seja, invocando a autoridade de dois outros reconhecidos profetas para sublinhar e corroborar a sua própria percepção, Fernando Pessoa sintetiza naquela palavra o futuro dos portugueses.

Mas que tudo será esse que se não divisa no nevoeiro que há muito cobre o país e que, ao invés, aproxima cada vez mais os portugueses do nada? ... Claro que este nada não é “o nada que é tudo”, com que o Poeta define o mito, nem o nada do Tao ou do Zen (o Zen dos samurais, não o dos “beatniks”, como diria Agostinho da Silva), representando o vazio da mente, o despojamento total, a renúncia e a humildade, também apontadas nos Evangelhos, e que são simultâneas daquele tudo.  Infelizmente, este outro nada para que tende Portugal é mesmo nada, o zero de uma consciência desertificada pela ignorância e insuflada pelo catolicismo, ou seja, precisamente o contrário do que propunha Pessoa nestes termos igualmente contundentes: "Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a Terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma cousa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade."

No meu entender, estas palavras descrevem um estado de espírito a que só uma mente livre e completamente desanuviada poderá aceder. Representam um caminho de transcendência e de realização espiritual, que ali surge representado como um Neo-Paganismo, mas que conduz àquele mesmo futuro que António Vieira chamou de Quinto Império – um futuro verdadeiramente aberto a todos os futuros, inclusive ao que Pessoa se referia com o "não calculo, mas sei"...

Qualquer futuro é agora, ou começa agora, e o que fazemos hoje determina o que seremos amanhã. Portanto, se realmente aspiramos ou sonhamos com um futuro, teremos que o erigir agora, neste mesmo momento, pois nada se constrói por si mesmo, independentemente do nosso esforço e vontade.

Mas então como resolver este sombrio agora, cada vez mais perto do nada? A resposta só poderá ser encontrada no mais fundo de cada um, pois creio que cada um tem dentro de si tudo aquilo que precisa para atuar. Por isso, qualquer caminho apontado do exterior terá sempre que ser reconhecido internamente, antes de ser aceite e cumprido, ou não, por fora. Mas essa condição é também o principal obstáculo do processo, pois já muito poucos olham para dentro de si e, menos ainda, pensam em Portugal.

 O autor da "Mensagem" também já advertia para o obscurecimento progressivo da nação e apelava: "Dia e noite, em pensamento e acção, em sonho e vida, esteja conosco (a crença de um “ressurgimento assombroso” da pátria) para que nenhuma das nossas almas falte à sua missão de hoje, de criar o super-Portugal de amanhã. " Concluindo, com timbre profético: "E a nossa grande Raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas “daquilo de que os sonhos são feitos”. E o seu verdadeiro e supremo destino, de que a obra dos navegadores foi o obscuro e carnal ante arremedo, realizar-se-á divinamente."

O problema da realização deste destino não é só de agora, nem do tempo de Fernando Pessoa; vem muito detrás, possivelmente desde o século XVI, quando a fina flor lusitana foi ceifada na planície de Alcácer-Quibir .... Nesse dia fatídico, Portugal perdeu mais do que uma batalha e muito mais do que a sua independência; esta foi recuperada sessenta anos mais tarde, mas não o sonho anterior, ou a continuidade daquele plano que fez nascer Portugal e que, até ali, havia sido maioritariamente respeitado e prosseguido. 

A partir dali tudo se foi diluindo e surgiram outros valores que foram paulatinamente apagando memórias e definindo novos objetivos. Muitas vezes, não por intenção consciente e deliberada, mas pelo autodeslumbramento, esquecimento, vista curta e ignorância.... Desta forma, tateando e tropeçando mais do que caminhando, uma monarquia esgotada deu lugar à república e esta, igualmente desinspirada, transformou-se no Estado atual, em que a identidade profunda de Portugal e o seu projeto primeiro foram totalmente travestidos pela visão temporal e tristemente normalizada dos seus sucessivos dirigentes.

Foi assim que a alma portuguesa entristeceu cada vez mais e foi definhando, até se tornar incompatível com o novo corpo do país. Na verdade, foi rejeitada por ele, por um Portugal incaracterístico, que adoptou uma história que não era a sua e se arvorou com todos os tiques do novo-riquismo europeu. E muitos daqueles poucos portugueses que ainda se referem a um hipotético Quinto Império, não fazem mais do que falar de cor, presumindo do futuro e projetando um Portugal imperial no centro do mundo, a maior parte das vezes com o maior orgulho na sua humildade...

Que longe se encontra este Portugal das palavras avisadoras de Agostinho da Silva: "Como creio (segundo a velha ideia de Fernão Lopes e a menos velha de Vieira) que o novo Evangelho do mundo inteiro será pregado em língua portuguesa, não tenho a menor dúvida sobre o futuro de Portugal e dos povos a que deu origem, esperando que a nós se juntem os de outras línguas ibéricas(...), e isto na Europa e na América, na África e na Ásia. Quero, porém, um Portugal pobre, sem sociedade de consumo, sem fumaças nos ares, e despojado uma vez por todas da ideia de que é centro de império ou de que seria seu destino ser Casa Grande de uma imensa Senzala. Oxalá se ponha modesto e justo, sociável e compreensivo, síntese perfeita de contrários, como nos tempos em que vogava, quanto a pensamento, na metafísica do Espírito Santo, a mais abstracta de todas e muito parelha do budismo zen; quanto a mar, no melhor navio do tempo e no mais perfeito dos mapas; e, quanto a gente, na convicção de que deviam ser as crianças imperadoras do mundo, um mundo em que ninguém tivesse fome e não houvesse prisões para ninguém. Se Portugal não for isso, será apenas um nome e a caminho do descrédito que ameaça hoje muito país da Europa e, tanto quanto eles, a América do Norte."

Mas Agostinho vai mais longe e avisa de que o rumo seguido por Portugal, muito pior que o descrédito, só o conduzirá àquele nada absoluto de que falava no início: "O mal está em que num socialismo, ou até num anarquismo económico, se instalam no homem três ideias: a de que pode dispor do mundo e dele deve dispor, afogando-se em coisas; a de que é senhor seu e a ninguém deve obediência; a de que o corpo lhe foi dado como fonte de prazer, e não para ser companheiro fiel de sua alma, como a alma lhe foi dada para ser fiel companheira do corpo."

 Evidentemente que se não trata de uma questão política, envolvendo noções ultrapassadas e superficiais de esquerda ou direita, mas sim do emergir de essências profundas que, no entanto, e numa primeira visão, se podem confundir com elas. Como escreveu o notável pensador e romancista francês Raymond Abellio, leitor atento de Fernando Pessoa, “em Portugal, fim da terra e terra do fim, o combate só será realmente derradeiro se opuser os dois universalismos radicais, o marxismo e o Quinto Império. Dois universalismos, isto é, um a mais. Combate na terra e combate no céu, de resultados contrários. ”

Quem diria que Portugal, acercando-se do fatídico nada, estaria a perder esse combate dentro do seu próprio país....  Mas ao trair a sua natureza e ignorar os seus sonhos, convertendo-se ao mundanismo e à vulgaridade de outrem e, sobretudo, ao rejeitar a componente espiritual que o formou como nação, invertendo o rumo da História, o Portugal de hoje não só abandonou o combate como acabou por perder a sua alma.


                            ***


Sublinhe-se que não defendo nenhum ponto de vista moral, político ou religioso, nos termos da sociedade atual ou dos credos institucionalizados, mas que procuro partir das premissas neutras da chamada Tradição Primordial, isto é, de um conjunto de valores arquetípicos, essencialmente espirituais, que definem um determinado Plano, inscrito, neste caso, na alma da nação portuguesa. Claro que não pretendo convencer ninguém acerca da validade ou mesmo da existência desta Tradição, inequivocamente referida por alguns dos maiores vultos da cultura lusíada. Seguindo a linha por eles traçada, dirijo-me, sobretudo, àqueles que sentem crescer dentro de si a chama bruxuleante da Portugalidade, tão desconcertante e imprevisível quanto o poderá ser o Espírito Santo que, de um momento para o outro, poderá alterar o sentido das suas vidas.

Portanto, polémicas à parte, acredito que Afonso Henriques tenha sido levado a fundar Portugal no cumprimento do tal Plano descrito pela Tradição Lusitana e que, mais tarde, o Mestre de Avis (Avis ou a Ave, símbolo do Espírito Santo, da atividade inspirada ou da realização...) tenha confirmado essa independência e aberto o período inigualável dos Descobrimentos. Muitos outros homens ilustres da nossa História terão sido igualmente agentes deste Plano e porta-vozes inspirados dos seus valores, aflorados nos escritos de Luis de Camões ou de António Vieira e, mais recentemente, nos de Fernando Pessoa. É também esse conjunto de valores que poderemos chamar Portugalidade. 

A perda desse Plano, ou da alma em que se inscrevia, deixou turvas as águas lusitanas e facilitou a ação daqueles "polvos" que, como diz o Padre António Vieira, se aproveitam da escuridão reinante para imporem e obterem os seus próprios interesses. Relembremos esta passagem do “Sermão de Santo António aos Peixes”: "E que neste mesmo elemento (água) se crie, se conserve e se exercite com tanto dano do bem público, um monstro tão dissimulado, tão fingido, tão astuto, tão enganoso e tão conhecidamente traidor como o polvo que, escurecendo-se a si, tira a vista aos outros, e a primeira traição e o roubo que faz é à luz, para que não distinga as cores? Vejo, peixes, que pelo conhecimento que tendes das terras em que batem os vossos mares, me estais respondendo e convindo que também nelas há falsidades, enganos, fingimentos, embustes, ciladas e muito maiores e mais perniciosas traições. Mas ponde os olhos em António, vosso pregador, e vereis nele o mais puro exemplar da candura, da sinceridade e da verdade, onde nunca houve dolo, fingimento ou engano. E sabei também que para haver tudo isto em cada um de nós, bastava antigamente ser português, não era necessário ser santo."

Não ignoro que esta linha de pensamento possa ser confundida, ou intencionalmente conotada, com "saudosismo reacionário", mas enquanto imperarem estes chavões, provindos de um suposto progressismo que utiliza o mais descarado conservadorismo para ocultar a sua cristalização, não se mudam mentalidades e a nação continuará maioritariamente ignorante e cada vez mais longe da sua alma.

Ainda a propósito de rotulações apressadas, recordo igualmente esta parábola contada pelo grande místico indiano Râmakrishna: Um dia, quatro cegos cruzaram-se com um elefante. O primeiro tocou-lhe na perna e disse:
 - "O elefante é como um pilar!"
O segundo, apalpou a tromba e declarou:
- "O elefante é como uma mangueira!"
O terceiro, passou as mãos pela barriga do animal e convictamente afirmou:
- "O elefante é como um tonel!"
O quarto cego percorreu com a mão uma das orelhas grandes e redondas  e proclamou:
- "O elefante é como uma ciranda!"

Então, como cada um havia tido uma percepção diferente, puseram-se a discutir acaloradamente sobre o aspecto do elefante. Um homem que passava perguntou o motivo da disputa e logo os cegos lhe pediram que dissesse quem tinha razão. Calmamente, o homem sentenciou:
- "Nenhum de vós soube definir o elefante... O elefante não é como um pilar, as suas pernas é que são como pilares; não é como uma mangueira, a sua tromba é que parece uma mangueira; não é como um tonel, a sua barriga é que lembra um tonel e não é como uma ciranda, as suas orelhas é que são como cirandas... Mas o elefante é o conjunto de tudo isso!"

Esta história ilustra bem como a falta de visão deixa espaço para a utilização de outros critérios, necessariamente obscuros e incompletos, que facilmente desembocam em sectarismos extremistas que, por sua vez, levam à génese de um qualquer fundamentalismo –  precisamente o oposto da consciência. E parece-me que não se poderá alterar esse estado sem, primeiro, se anular a ideia de que a Portugalidade representa um amontoado de velharias onde se abriga um perigoso saudosismo político...

É certo que, nos anos cinquenta, o Estado Novo de Salazar se serviu do esplendor do nosso passado histórico para criar uma onda de nacionalismo  a seu favor; mas a verdade é que esse movimento viveu de fachadas e, desse modo, sempre se ficou pelas aparências da nossa Tradição; nunca chegou, nem poderia chegar, aos seus verdadeiros valores, à sua essência mais profunda... Ou seja, nunca passou de uma grosseira falsificação, sem qualquer vínculo à Tradição, fiel-depositária das chaves-mestras da Portugalidade. 

Pós revolução de 1974, os sucessivos governantes deste país continuaram a ignorar a Tradição e, no seu afã de se demarcarem do estigma anterior, acabaram por colocar tudo no mesmo saco e confundiram História com "reação" e a dádiva de novos mundos ao mundo com "imperialismo fascista”; é claro que essa atitude dos novos poderes foi tão grave como a postura do Estado Novo, pois ambas partiram da ignorância ou do desprezo pela Tradição e ambas contribuíram para o seu ocaso, acabando por apostar num modelo forâneo e promover a ideia de um país que nada tinha a ver consigo próprio. Ninguém duvida que, no panorama atual, a retoma da economia é absolutamente necessária para reequilibrar Portugal, mas precisamente pela mesma razão, mais importante ainda será a retoma da consciência. 

E como consegui-lo?

Fernando Pessoa entendia que tal seria possível pela revitalização dos mitos nacionais, ou pela vivência desses mitos, e António Quadros explica-nos que "o que Fernando Pessoa viu no mito foi sobretudo uma potência regeneradora popular, ultrapassando o voluntarismo ideológico e medíocre dos políticos e de uma classe intelectual estrangeirada e provinciana, para lhes impor a sua lei. Dois mitos portugueses tradicionais tinham feito as suas provas de fogo, dinamizando a nação: o mito do Quinto Império e o do Encoberto."

E continua: "No Sebastianismo há não só uma valorização do heroísmo e do génio do homem individual, com o seu carisma descido do alto, mas também a emergência de uma filosofia teleológica, providencialista e mítica da história, radicalmente antagónica das filosofias positivistas, materialistas ou sociologistas de um devir temporal movido por movimentos de massas ou por interesses económicos.
Eis porque o mito sebástico se articula perfeitamente com outro mito, o antiquíssimo mito do Quinto Império, que tem decerto ressonâncias por um lado do mito do Paraiso Perdido e por outro das visões proféticas de Sto. Agostinho, com a teoria das Sete Idades do Mundo (segundo Fernão Lopes a Sétima idade ter-se-ia iniciado com o advento de D. João I, Mestre de Avis) e de Joaquim de Flora, com a sua concepção das Três Idades, a do Pai, a do Filho e a do Espirito Santo ou do Evangelho Eterno."

O próprio Fernando Pessoa deixa tudo muito claro: "Não temos que criar um mito, senão que renová-lo. Comecemos por nos embebedar desse sonho, por o integrar em nós, por o incarnar. Feito isso, cada um de nós independentemente e a sós consigo, o sonho se derramará sem esforço em tudo que dissermos ou escrevermos, e a atmosfera estará criada, em que todos os outros, como nós, o respirem. Então se dará na alma da Nação o fenómeno imprevisível de onde nascerão as Novas Descobertas, a Criação do Mundo Novo, o Quinto Império."

Mas, ai! ..., haverá ainda alguém para responder ao desafio? De um modo geral, os portugueses guardam apenas lembranças difusas das glórias dos seus "egrégios avós", sobretudo quando as cantam o hino nacional e que agora valem, sobretudo, para lhes dar lustro ao ego, mas o mais é nevoeiro, um nevoeiro crescente, gradativamente mais espesso e gelado...

 Não obstante, o país está a transformar-se num cartaz de topo do turismo internacional e respira um optimismo económico que leva as novas gerações a substituírem os heróis do mar pelos da terra, na qual, segundo lhes dizem, terão que ter os pés bem assentes! .... Com certeza que é positivo que se melhore a economia e a condição de vida das pessoas e é claro que podem haver heróis em todos os campos da atividade humana, mas a maioria dos portugueses sonha e vibra com números e modelos de fora, e não sabe o que significa o seu próprio mito do Quinto Império – não sabem nem querem saber, o que torna logo impraticável o método prescrito por Fernando Pessoa... 

Estará este Portugal hibrido sob um qualquer efeito hipnótico desconhecido, ou a sofrer um esgotamento nervoso provocado pelo excesso de névoa e que, estranhamente, o deixa à beira da euforia? ...  Porque só assim se entende que os portugueses continuem a ser dirigidos por cegos, que só atuam às apalpadelas e que, tal como os outros, só se agarram à tromba ou ao rabo do elefante... 

No entanto, apesar da insistente música de festa e de todo o estonteante fogo de artifício, mais artificial do que nunca, há também quem sinta, cada vez mais apertado, um nó na garganta.

E um arrepio desconfortável, entre foguetes e risos.

 Ou serão soluços? ...


(Que ânsia distante perto chora?)  










                     2


     Debaixo do Arco-íris





Escrever ou falar sobre Portugal sempre me provoca um indescritível sentimento de comoção pois, de corpo e alma, amo a alma e o corpo do país onde nasci. Esteja onde estiver no mundo, vivo sobretudo no plano interno ou espiritual onde se situa aquele Portugal por dentro de mim, que em tudo transcende o seu espaço geográfico, influenciando o meu sentir, o meu pensamento e as minhas ações. 

A vida levou-me a realizar inúmeras viagens de descoberta e, em cada uma delas tentei aprender com os ventos que enfunavam as minhas velas e me conduziam aos sucessivos destinos, sem quase nunca ter que forçar o leme.... Ao referir-me agora, mais detalhadamente, a esses destinos e aos caminhos que neles ainda percorro, sublinho que não me sinto protagonista de nenhum processo extraordinário, nem me arrogo qualquer tipo de importância pessoal, mas que o faço, apenas e tão só, para deixar um testemunho que, eventualmente, poderá vir a ser útil a alguém.

Nasci em Lisboa e vivi uma boa parte da minha vida numa pequena quinta, a uns cinquenta quilômetros da capital. Para dar uma ideia de como decorreram esses anos que prepararam e impulsionaram tudo o mais, reproduzo um texto que escrevi na altura, solicitado pelo boletim cultural da Câmara Municipal de Azambuja:

"Quando me pediram um texto que me auto retratasse, resolvi escrevê-lo como se me tivesse sido encomendada uma pintura. Na tela imaginária, atribuí toda a importância ao fundo, isto é, ao cenário que rodeia os contornos do que seria o retrato propriamente dito, que optei por deixar em branco. A razão dessa escolha é a noção de que aquilo que melhor retrata um homem é a sua consciência; ora, essa consciência, para além de só ao próprio dizer respeito, poderá representar-se figurativamente à sua volta, mas por dentro, em essência, não tem forma, situando-se ao nível da abstração. Como tal, o espaço vazio, que somente representa essa ausência de forma e apenas é vazio em aparência, será o que melhor a simboliza. E que simultaneamente encerra o método para o seu alargamento.

De facto, o olhar comum é condicionado e limitado pelos parâmetros impostos pelo sistema mental-social, onde assenta o nosso mundo conhecido. Passar desse “olhar” pré-definido para o “ver”, livre de empecilhos e abarcando horizontes sem fim, é deixar de pensar somente aquilo que nos foi ensinado a pensar; é despejarmo-nos dos conceitos impostos por outrem, de Aristóteles para cá, provocando um amontoado de ideias, critérios, interpretações, conceitos e preconceitos, que nos ocupam todo o espaço da visão; trata-se, afinal, de criar o vazio interior necessário para se poderem vislumbrar caminhos novos sobre novos mundos, ambos completamente insuspeitos, até aí.

Esta outra "arte do olhar", surgida com a limpeza do velho armazém de dados, implica a abertura de processos criativos internos que funcionam por imagens, surgidas a par do sentimento mais profundo. Poderemos, portanto, estar a falar de um certo tipo de cinema – não propriamente de películas externas, mas de um cinema da alma, íntimo, abstrato, reservado, mas que encerra a maior e a mais espetacular das aventuras a que um ser humano pode aspirar.

Voltando à tela da pintura que estava a descrever, encontra-se, no lado esquerdo, a torre de um castelo pintada com traços rápidos e vigorosos, apoiados em cores fortes. Esses traços do passado correspondem ao período em que deixei o curso de arquitetura para me dedicar profissionalmente ao cinema. Foram tempos em que me esforçava por conquistar todos os castelos que delineava no ar, tentando chegar à torre mais alta da fama e da glória; são dessa altura as várias colaborações técnicas e artísticas nos filmes de outros cineastas, a minha própria série para a televisão (curiosamente, sobre castelos portugueses), as presenças nos festivais internacionais de cinema, os sonhos de uma carreira brilhante fora de portas...

Se nessa época tivesse que apresentar um auto-retrato, à semelhança do pedido de agora, a pintura seria, seguramente, aquilo que poderíamos considerar como o contraponto da atual: o meio da tela totalmente preenchido pelo meu rosto, com os traços fisionómicos pintados ao pormenor e o fundo apenas vagamente delineado...

Todo este período terminou ou culminou com a realização da longa-metragem "Mensagem". Quando me debrucei sobre a obra de Fernando Pessoa foi como se tivesse rebentado um canal dentro de mim, por onde irrompeu um jacto fortíssimo de memórias e valores a fazerem esboroar e ir por água abaixo grande parte do meu estafado armazém de dados. Ficaram assim, à vista, os tais caminhos novos, apontando misteriosamente para um futuro em liberdade.

Percebi, então, que as corridas desenfreadas e a dedicação exclusiva a que o cinema e a televisão me obrigavam, apesar da paixão com que sempre o fazia, não me conduziriam por nenhum desses caminhos. E nada me pareceu tão importante como percorrê-los e tentar chegar ao mistério que deles emanava.

Foi assim que deixei a vida conturbada de Lisboa e renasci em Azambuja, onde agora vivo no cimo de um monte, em pleno campo, numa casa térrea, com os meus discos e os meus livros, como diz a canção de Elis Regina. E onde também vou escrevendo as minhas filosofices rurais...

Este é, portanto, o pano de fundo do lado direito da tela, pintado em tons alegres, mas suaves e mesmo translúcidos, fazendo coexistir vários planos num mesmo olhar. Ao lado da casa, está um enorme pinheiro manso e, por detrás, a vastidão de uma serra tocando no céu. Refira-se que a simbologia tradicional do pinheiro o associa à ancestral deusa Cibele, que representa a Mãe Natureza, chave essencial para a resolução de qualquer daqueles mistérios...

Então, nesta outra etapa de busca de sentidos para a vida, vou-me pautando pelos ritmos da natureza e desenvolvendo a arte do olhar junto com a arte do sentir. Por isso, quando vejo o sol a subir no horizonte, as gotas de orvalho a provocarem pequenos arco-íris pelo chão, as estrelas a entrarem, desavergonhadamente, pela janela do meu quarto, ou quando passo a mão pelas carumas, ou pela terra virgem, ou por um conjunto de espigas ondulantes, sinto percorrer-me o corpo aquele mesmo arrepio de quando toco a pele da mulher amada. E sei conhecer a mensagem que esse arrepio me traz.

E sou feliz."

Aquela pequena quinta, nas cercanias de Azambuja, foi uma espécie de batota do Céu neste jogo incerto da vida, oferecendo-me o trunfo invencível da Natureza. Em pleno campo, a minha vida foi perdendo forma e ganhando sentido; passei a dedicar-me à agricultura e de cada vez que lavrava a terra, abria também sulcos profundos por dentro de mim, que recebiam as sementes lançadas.

Já referi o pinheiro ao lado da casa, mas não é demais acrescentar que se trata de uma árvore absolutamente fora do comum, com uma majestade ímpar aliada a uma rara graciosidade. Poderá ser, de fato, a expressão encantada do pastor Átis que a deusa Cibele, num acesso de ciúme e de paixão mitológica, transformou em pinheiro; mas seja apenas uma referência ou não, dele emana uma intensa vibração amorosa, serena e suave, que impregna todo o espaço, como se a divina parelha pagã ali tivesse feito definitivamente as pazes e gozasse, em plenitude, o seu amor de milénios... E, na verdade, foi sob o seu influxo que o núcleo da família aumentou e se converteu em sete, comprovando igualmente a fertilidade dos terrenos cultivados por dentro e por fora.

Naquela quinta mágica decorreram anos da mais ditosa e transcendente descoberta, e tudo indicava que seria aquele o cenário para o final feliz do caminho desta vida. Mas, como diz a sabedoria popular, “o homem faz planos e Deus ri...” Precisamente no ano seguinte a ter escrito o texto citado, o destino deu um giro que me fez mudar de Portugal para a Galiza, região do noroeste da Espanha; e levando no coração tudo aquilo que não podia levar nas malas, parti para o norte, com a minha corajosa família.

Para trás, mas sempre presente, ficara a Azambuja, afinal não o término, mas o princípio de tudo, revelando-se como o mais generoso e formidável cais de partida que poderia alguma vez imaginar: não só nos concedia o impulso para a saída, como, ao longo do tempo ali vivido, nos havia preparado, amorosa e cuidadosamente, para podermos percorrer, com outra capacidade e estrutura interna, todos os novos caminhos!


                                 ***


Só muito mais tarde, depois de passar alguns anos na Galiza, percebi que os caminhos que, entretanto, havíamos iniciado conduziriam, a seu tempo, a uma determinada montanha no outro lado do mar, cujo nome era representado pela sigla LPD. E constatei também, já sem espanto, que a nossa vida se havia disposto de modo a poderem cumprir-se três grandes etapas (a primeira das quais havia sido em Portugal, decorrendo a segunda na Galiza, em Espanha), cada uma representando um atributo, ou uma característica determinada, correspondente a uma das letras daquela mesma sigla.

Em capítulos posteriores, ao descrever as etapas seguintes, falarei obviamente da respetiva correspondência e do seu significado. Mas no caso daquela quintinha em Portugal, onde passámos vinte e um anos extraordinariamente ditosos, não preciso de acrescentar mais nada, pois é por demais evidente qual a letra e o atributo ali em questão: o “D” – um enorme e abençoado “D”, de “Desapego”...







                           3

       Nascimento de uma Nação


    

          

Para alguns investigadores atuais que muito prezo, como Manuel Gandra, que se refere longamente à questão e classifica o milagre de Ourique como "categoria escatológica da Portugalidade", aquele episódio enigmático encerra a gênese da nossa nacionalidade e confirma a origem mítica de Portugal.

A batalha de Ourique ocorreu no dia 25 de julho, dia de Santiago, do ano da graça de 1139, opondo o príncipe português Afonso Henriques, ali aclamado Rei, ao exército de cinco Reis Mouros, muito superior em número, terminando com uma retumbante vitória lusitana. Vitória essa que teria sido anunciada a Afonso Henriques, na véspera da batalha, por uma aparição divina – para uns, o apóstolo Santiago (para mais, com a batalha a coincidir com a sua data de culto), para outros (e foi esta a versão que perdurou), o próprio Cristo, que não só lhe prometera a vitória como lhe deixara uma determinada profecia sobre os seus descendentes e o futuro de Portugal.

Muitos outros autores colocam em causa a autenticidade deste episódio, divulgado em 1597 por Pedro de Mariz, a partir de um original cedido pelos monges cistercienses de Alcobaça, argumentando que poderá ter sido acrescentado ou manipulado para fomentar a resistência ao domínio espanhol de então. Alexandre Herculano qualifica-o de "fábula", na sua História de Portugal, e Teófilo Braga refere que poderia ser a adaptação lusitana da lenda referente ao imperador Constantino e à sua suposta visão da cruz, que lhe terá dado a vitória na Ponte Mílvio.

Assinale-se, porém, que as lendas, tal como sucede com a mitologia, são muitas vezes utilizadas para divulgar e fazer perdurar no tempo uma mensagem originalmente genuína e, no caso de Ourique, reconheço a essência que emana da lenda e acredito na mensagem que ela encerra. Mas mesmo do ponto de vista histórico, note-se que a lenda de Ourique é anterior às publicações provindas da Ordem de Cister, já que se encontra incluída na “Crónica dos Sete Primeiros Reis de Portugal”, escrita possivelmente em 1419 por Fernão Lopes e que teria tido como fonte a "Vida de São Teotónio", o primeiro santo português, contemporâneo de Afonso Henriques. Também o cronista borgonhês Olivier de la Marche descreve nas suas "Memórias" (que abarcam o período de 1435 a 1492 sendo, portanto, muito anteriores ao domínio filipino) a lenda das cinco quinas portuguesas que, segundo ele, representam a vitória de Ourique sobre os cinco reis mouros. E Luis de Camões, que também escreveu “Os Lusíadas” antes do período em que Portugal perdeu a sua independência, assim se refere ao episódio, no Canto III:

"Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
 O lusitano exército ditoso
 Contra o Mouro que as terras habitava
 D’além do claro Tejo deleitoso;
 Já no Campo de Ourique se assentava
 O arraial soberbo e belicoso,
  Defronte do inimigo Sarraceno,
  Posto que em força e gente tão pequeno."
(...)
Para depois relatar, deste modo, a aparição divina:

"A matutina luz, serena e fria,
  As estrelas do Pólo já apartava,
  Quando na Cruz o Filho de Maria
  Amostrando-se a Afonso, o animava.
  Ele, adorando quem lhe aparecia,
  Na fé todo inflamado assi gritava:
  – “Aos infiéis, Senhor! aos infiéis,
  E hão a mi, que creio o que podeis!"

Finalmente:

"Já fica vencedor o Lusitano,
  Recolhendo os troféus e presa rica;
  Desbaratado e roto o Mouro Hispano,
  Três dias o grão Rei no campo fica.
  Aqui pinta no branco escudo ufano,
  Que agora esta vitória certifica,
  Cinco escudos azuis esclarecidos,
  Em sinal destes cinco reis vencidos;"


Portanto, a meu ver, trata-se de um episódio autêntico envolto numa expressão lendária, segundo as linhas e entrelinhas daquela corrente inspiradora da Vida, que anteriormente referi como Tradição Primordial Lusíada.

Sendo assim, tentemos penetrar um pouco mais no mistério e decifrar alguns excertos mais significativos do documento cisterciense intitulado "Juramento de Afonso Henriques em Ourique", o mais completo de todos, e que dá voz ao próprio Afonso:

"Eu, estava com meu Exército nas terras do Além Tejo no campo de Ourique, para dar batalha a Ismael, e outros quatro Reis mouros, os quais tinham consigo infinitos milhares de homens; e a minha gente atemorizada com a multidão dos Mouros, estava muito afadigada, e triste, tanto que muitos diziam ser temeridade cometer tal guerra; e eu triste do que ouvia, comecei a cuidar comigo o que faria; e como tivesse na minha tenda um livro, em que está escrito o Testamento Velho, e o de Jesus Cristo, abri-o, e li nele a vitória de Gedeão, e disse comigo: Vós, Senhor Jesus Cristo, mui bem sabeis que por amor vosso tomei sobre mim esta guerra contra vossos inimigos; e na vossa mão está dar-me forças a mim e aos meus, para que vençamos estes blasfemeadores de vosso Nome. Ditas estas palavras, adormeci sobre o livro, e vi um Velho, que se chegava a mim, e me dizia: Afonso, tem confiança, porque vencerás, e destruirás estes Reis, e desfarás sua potência, e o Senhor se te mostrará.

Estando nesta visão, chegou João Fernandes de Sousa, meu camareiro, dizendo-me: Levantai-vos, Senhor, que está aqui um Velho, que vos quer falar; respondi eu, entre, se é fiel, e tanto que entrou, conheci ser aquele que tinha visto na visão, o qual me disse: Senhor, tende bom ânimo, vencereis, e não sereis vencido. Sois amado do Senhor, porque tem posto sobre vós, e sobre vossos Descendentes, os olhos de Sua Misericórdia até à décima sexta geração, a qual será atenuada, mas nesta mesma quebra, e atenuação Ele tornará a pôr os olhos e verá Ele me manda dizer-vos que quando na seguinte noite ouvirdes a campainha da minha Ermida, na qual tenho vivido há sessenta e seis anos, guardado no meio dos Infiéis com o favor do Altíssimo, saiais fora do arraial só, sem pessoa alguma, porque vos quer mostrar a sua grande piedade. Obedeci, e prostrado por terra com muita reverência, venerei o Embaixador, e a Quem o mandava; e estando eu posto em Oração, esperando o som da campainha, na segunda vigília da noite a ouvi. E logo armado com espada e rodela, saí fora do arraial, e subitamente vi para a banda direita contra o Oriente um raio resplandecente, cujo resplendor se fazia cada vez maior e, pondo de propósito os olhos naquela parte, vi de repente no próprio raio o Sinal da Cruz, mais resplandecente que o Sol, e a Jesus Cristo Crucificado nela; e de uma e outra banda grande cópia de esplêndidos mancebos, os quais creio eu que seriam os Santos Anjos. Vendo, pois, esta Visão, pondo de parte o escudo e espada e tirando as roupas e calçado, me lancei de bruços na terra. E, desfeito em lágrimas, comecei a rogar pelo esforço de meus Vassalos e disse sem nenhum temor: A que fim me apareceis, Senhor? Quereis porventura acrescentar a Fé a quem tem tanta? Melhor será que Vos vejam os Infiéis, e creiam que eu, que desde a fonte do Baptismo vos reconheço por Verdadeiro Deus, Filho da Virgem e do Padre Eterno. E a Cruz era muito grande e estava levantada do chão quase dez côvados. O Senhor com um tom de voz suave, que minhas orelhas indignas ouviram, me disse: Não te apareci desta maneira para acrescentar tua Fé, mas para fortificar teu coração neste conflito e estabelecer os princípios de teu Reino sobre pedra firme. Confia, Afonso, porque não só vencereis esta batalha, mas todas as outras, em que pelejares contra os inimigos da minha Cruz. Acharás tua gente alegre, e esforçada para a peleja e te pedirá que entres na batalha com título de Rei. Não lhe ponhas dúvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede facilmente. Porque Eu sou o Fundador e Destruidor dos Reinos e Impérios e quero em ti e teus Descendentes fundar para mim um Império, por cujo meio seja meu Nome publicado entre as Nações mais estranhas."

Estas palavras proféticas cumpriram-se integralmente e Portugal viveu uma história de bênçãos e glorias, precisamente até à decima sexta geração, quando D. Sebastião (o 16º Rei de Portugal) pisou a planície de Alcácer-Quibir...

Mas, como aconselha Manuel Gandra: "O que importa reter é o modelo configurante da história nacional exposto no Juramento de Ourique, sintetizável numa norma canónica (tripeça), reveladora dos três tempos ou épocas distintas em cuja órbita hão-de consumar-se três realizações diferentes:
 – Cristo promete a Afonso Henriques uma descendência venturosa até à sua 16ª geração;
 – A partir da 16ª geração verificar-se-á a atenuação da prole e em consequência dela advirá a decadência;
 – A nação portuguesa retomará a sua primeira ventura, ficando ela a dever-se ao volver da vista de Deus sobre a prole atenuada."

Relativamente ao primeiro tempo, que trata das raízes mais profundas de Portugal, voltemos à descrição do milagre e fixemo-nos na figura do Velho ermitão, identificado como “embaixador” do Altíssimo e aquele que, primeiro, transmite a Afonso Henriques os Seus desígnios. Que mistério se ocultará por detrás daquela venerável figura?

Para responder a essa questão será necessário fazer um preâmbulo, explicando que, hoje em dia, a realidade ultrapassou por completo as fronteiras da ficção, tornando tudo completamente admissível, mas que, no início do século XX, alguns escritores ousados, como Saint-Yves d’Alveydre ("Missão da Índia", publicado em 1910) e Ferdinand Ossendowski ("Animais, Homens e Deuses", publicado em 1924), chocaram o mundo ocidental com a afirmação de que existiam outros mundos dentro do globo terrestre, que diziam ser oco.

 Muitos outros autores retomaram depois o tema, que, no entanto, nunca foi novo para algumas religiões orientais, e, com toda a certeza, para os arquivos do Vaticano. Atualmente, muito se especula sobre essa matéria, continuando esquecido um dos autores que mais revelações ofereceu sobre a Agartha, ou sobre a mítica Shamballah, no centro desses mundos: o brasileiro Henrique José de Souza, que morreu em 1963, deixando uma obra tão vasta quanto misteriosa.


                                  ***


A noção da existência de mundos internos, com um desenvolvimento e um grau de espiritualidade muito superior ao nosso implica, também, a noção de um poder central, isto é, de um Rei do Mundo. A Bíblia refere-se a esse Rei como "Melquisedeque" e os descobridores portugueses, que muito esforçadamente o buscaram, também lhe chamaram "Prestes João"...

Segundo os autores citados, aquele Rei chefia um Governo Espiritual do Mundo e serve-se de determinadas Ordens Secretas como canais para chegar à humanidade. Essas Ordens detêm as suas bases junto a alguns pontos ou centros energéticos do planeta, mais próximos da superfície e utilizam, por sua vez, representações ativas na face da Terra.

Sendo assim, o Velho ermitão que surgiu a Afonso Henriques como “embaixador” do Altíssimo, poderia muito bem ser um enviado de uma dessas Ordens, mais precisamente aquela que foi definida por Henrique José de Souza como “a sacrossanta Ordem de Mariz”. Terá sido ela que fez nascer Portugal com um propósito definido, pois a vitória de Afonso Henriques foi decisiva para que "em ti e teus Descendentes" se funde um Império "por cujo meio seja meu Nome publicado entre as Nações mais estranhas..."

 E, a partir dali, o pequeno Portugal não só se completou e definiu como país independente, desenhando com a espada as fronteiras terrestres mais antigas da Europa, como se lançou ao mar, para percorrer e unir entre si todos os continentes, espalhando as sementes do futuro Império que lhe havia sido encomendado: o Império do Espírito Santo ou o Quinto Império espiritual do mundo. Tudo isto, supostamente sob a égide da Ordem de Mariz, ainda que a História o desconheça por completo...


                                   ***


Para termos uma noção mais clara sobre a ação específica da Ordem de Mariz, recorro às próprias palavras de Henrique José de Souza: "Seus raros filiados espalhavam-se por toda a parte do mundo como “membros do culto de Melquisedec” (...) Os mais antigos se reuniam nas proximidades de certo lugar (em Portugal) que, ainda hoje, traz o nome de S. Lourenço dos Anciães. (...) Era aí onde se reuniam, em tempos muito distantes de hoje, os preclaros Membros da Ordem de Mariz. Santos e sábios Homens, muito influíram na grandeza do velho Portugal e também na do Brasil.
A Ordem de Mariz tinha as suas insígnias (cruz e fita) verde e encarnado. Isto é, o verde que veio usar, depois a de Avis (que lhe servia de escudo ou “cobertura exterior”, Círculo de Resistência, etc.) e o encarnado da de Cristo. Interessante que são as mesmas cores da respeitável bandeira de Portugal... Mistério! Embora arrisquemos dizer que "felizes daqueles que se acham sob a referida Proteção do Governo Oculto do Mundo!"

Os contatos diretos entre os Reis portugueses e a Ordem de Mariz, ter-se-ão mantido ao longo da Primeira Dinastia e favoreceram igualmente a Segunda, iniciada por D. João I, Mestre de Avis e Rei de Boa Memória, pai da “ínclita geração”, na qual se contava o Infante D. Henrique, aquele que fez com que o mar unisse e não mais separasse...

Na verdade, foi com o Rei de Boa Memória que se iniciou um ciclo fantástico e sem igual na história do mundo, no qual se ligou o Ocidente com o Oriente, estabelecendo-se as bases do mundo moderno. E esta radiante Dinastia de Avis terminou, de fato, com D. Sebastião, o 16º Rei de Portugal – mas não havia dito o Velho ermitão a Afonso Henriques que o Senhor punha sobre ele e seus descendentes "os olhos de Sua Misericórdia até à décima sexta geração"? ...

Ou seja, havia chegado o segundo tempo da "tripeça de Ourique", durante o qual se verificaria a atenuação da prole e, em consequência, a morte e a decadência da nação.


                                    ***



O arcano correspondente ao número 16 no Tarot de Marselha denomina-se, originalmente, "A Casa de Deus", mas popularizou-se como "A Torre", cujo primeiro significado é o desmoronamento e a ruína. Muito apropriado, portanto, ao que sucedeu a Portugal depois do desastre de Alcácer-Quibir... 

No entanto, como "A Casa de Deus", o arcano visa mais além dos simples efeitos ou consequências e assinala a possibilidade do reconhecimento interno da voz da Divindade, favorecendo um segundo recomeço. Ora, no caso português, aquela voz até já havia avisado Afonso Henriques: "Sois amado do Senhor, porque tem posto sobre vós, e sobre vossos Descendentes, os olhos de Sua Misericórdia até à décima sexta geração, a qual será atenuada, mas nesta mesma quebra e atenuação Ele tornará a pôr os olhos..."

 Ou seja, o número 16, historicamente associado à derrocada de Portugal, poderá ser também o do seu renascimento.

  Reforçando esta possibilidade, não deixa de ser interessante assinalar que, segundo Henrique José de Souza, a base principal da Ordem de Mariz coincide com um importante centro interno, situado em Portugal e referenciado pela serra de Sintra, associado ao quinto “chakra” planetário. Utilizando a analogia com o quinto “chakra” do corpo humano, denominado em sânscrito “Vishuddha” e, no ocidente, “Laríngeo”, podemos verificar que ele expressa a raiz do som, a origem do verbo e que, por isso, se relaciona diretamente com a comunicação, com a transmissão de algo... E não tem sido essa a função de Portugal, anunciando ao mundo o Quinto Império? ... Mas, mais curioso ainda, é o fato do quinto “chakra” se apresentar, nada mais nada menos, do que com 16 pétalas, e ainda o nome do templo oculto da Ordem de Mariz (situado, conforme dizem, perto da rocha onde se encontra gravada a profecia da Sibila de Sintra) ser "Templo dos Dezasseis Raios"!

Mas esta numerologia reveladora contém ainda outros possíveis desenvolvimentos: todas as fontes anteriormente citadas revelam que o Rei do Mundo, Melki-Tsedek, e a Grande Mãe, como aspecto feminino da Divindade, expressam as duas faces de um Sol central e oculto, núcleo primordial de toda a espiritualidade planetária e que é representado, simbolicamente, com 32 raios, ou duas vezes 16. Por outro lado, a redução do número 32 (3 mais 2) é igual a 5, o mesmo número do Império do porvir… Poderá, então, admitir-se a hipótese de que a missão dos portugueses respeitante à instauração do Quinto Império passa pelo cumprimento de dois ciclos de dezasseis, perfazendo os 32 raios do Sol oculto e precipitando a sua transposição do interior para o exterior, o que, em termos bíblicos, corresponderia também à Segunda Vinda do Cristo Redentor...

O primeiro ciclo assentou nos primeiros 16 reis portugueses e decorreu de forma visível e solar, isto é, sujeito ao Princípio Masculino, com Portugal a atravessar o período mais brilhante da sua História. Teve uma duração de 439 anos: desde 1139, batalha de Ourique, até 1578, batalha de Alcácer-Quibir.

Creio que o segundo ciclo de 16 começou com a chegada ao poder da 3ª Dinastia, em 1580. No entanto, as linhagens reais que se seguiram nada tinham a ver com a anterior; depois de um período de 60 anos de domínio filipino ou da Casa de Áustria, foi da Casa de Bragança que saíram todos os seguintes reis de Portugal até à instauração da República, em 1910. Portanto, com a “prole atenuada”, este ciclo deixou de estar ligado à realeza, decorrendo, segundo creio, de forma oculta, lunar ou sob o signo do Sagrado Feminino. Acredito que ainda hoje perdura (até ao momento, 2017, passaram 437 anos), por vezes dando sinal de si através de uma ou outra individualidade que lança uma nova luz sobre o sonho primevo, como sucedeu no campo das Artes e das Letras com Fernando Pessoa, pois é sempre através da Cultura ou da Ciência, superiormente inspirada, que se manifesta o que é verdadeiramente novo e renovador. O cumprimento deste ciclo coincidirá com o anunciado terceiro tempo da “tripeça de Ourique”, no qual a nação portuguesa retomará a sua primeira ventura, pelo volver sobre ela da vista de Deus...

Não me parece necessário ser clarividente para perceber que nos encontramos muito perto do final deste segundo ciclo, cuja tarefa consistiu (e ainda consiste, até ao seu término) em recolher os múltiplos pedaços da alma lusíada...

Tal como Isis fez com Osíris.... 









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Nos braços da Grande Mãe


"Salvé nobre Padroeira
Do povo, teu protegido,
Entre todos escolhido,
Para povo do Senhor.
 
Ó glória da nossa terra, 
Que tens salvado mil vezes,
Enquanto houver Portugueses
Tu serás o seu amor. ” 

(estrofes do Hino à Imaculada Conceição)
 



A presença da Mãe Divina tem sido uma constante na História de Portugal. Na sequência dessa dedicação, e como agradecimento pela restauração da independência, o Rei D. João IV colocou a sua própria coroa na imagem da Senhora da Conceição, em Vila Viçosa, que assim passou a ser, além de Padroeira, Rainha de Portugal.

Desde os primórdios da nação que existe em Portugal o culto à Divina Mãe. É um fato que Afonso Henriques, o Fundador, se confessava como adepto fervoroso de "Nossa Senhora", designação escolhida pelo abade de Claraval, S. Bernardo, para a apresentar à cristandade do seu tempo – o mesmo S. Bernardo que também interveio a favor de Afonso Henriques, conseguindo do Papa Alexandre III o indispensável reconhecimento da independência de Portugal.

Muito se tem especulado sobre a autenticidade de uma correspondência trocada entre S. Bernardo e Afonso Henriques, evidenciando uma relação direta e muito próxima entre as duas figuras históricas. Ilustrando essa relação, também existe uma lenda relatando que, quando o nosso primeiro rei se dirigiu, em 1147, à cidade de Santarém, em poder dos Mouros e considerada inexpugnável, jurou erigir um mosteiro cisterciense caso obtivesse a vitória. E de novo, na noite anterior à batalha, Afonso Henriques teve uma visão: dessa vez surgiu-lhe S. Bernardo, que prometeu o triunfo às armas portuguesas. Assim aconteceu e o Rei não esqueceu a promessa feita, enviando o seu próprio irmão Pedro Afonso à abadia de Claraval, em França, para anunciar a conquista e pedir uma colónia de monges para a nova fundação. A lenda acrescenta que Pedro Afonso ficou tão impressionado com Bernardo que, passado algum tempo, voltou a Claraval para envergar o hábito e ali ficou até à sua morte, em 1165.

Concretamente, aquela que viria a tornar-se na importantíssima abadia de Alcobaça, em Portugal, foi oferecida à Ordem de Cister no reinado de Afonso Henriques e aprovada, em Claraval, em vida de S. Bernardo. Para que isto sucedesse, é forçoso que tivessem existido contatos entre a abadia francesa e a coroa lusitana. Portanto, seja ou não fictícia a referida correspondência, uma coisa é certa: a ordem instalou-se em Portugal desde a sua fundação e desempenhou um papel relevante na cultura, no povoamento, no desenvolvimento da agricultura e no concurso às ordens militares, porque todas as ordens militares medievais surgiram a partir das ordens monásticas, de que adoptaram a respetiva Regra. Note-se que a Ordem de Avis, reconhecida por D. Afonso Henriques em 1162, e que, mais tarde, conduziria Portugal ao ápice da sua História, despontou do seio de Cister. E também foi de Cister que proveio a Ordem de Cristo, representando a continuidade dos Templários, tão caros a S. Bernardo, pois havia sido autor da sua Regra.

         
                               ***


Bernardo, futuro Abade de Claraval, nasceu em 1090 no sul de França, mais precisamente no castelo de Fontaine-lés-Dijon, na Borgonha, de família nobre, e fez-se monge em Cister, mosteiro que albergava a Ordem recém-formada com o mesmo nome, provinda da Ordem Beneditina e que pretendia marcar um regresso à simplicidade e à austeridade do monaquismo primitivo.

A Ordem de Cister teve um início muito penoso, mal sobrevivendo a uma situação de pobreza e abandono que quase a fez soçobrar como instituição. No entanto, poucos anos volvidos e, sobretudo, devido à ação de S. Bernardo, deixou a situação de ruína em que vivia (não se confunda a prosperidade da Ordem com os votos de pobreza dos seus membros) para se expandir por toda a cristandade, tornando-se numa das mais ricas, famosas e influentes instituições religiosas da Europa.

A opção espiritual de Bernardo não o afastou da vida secular, na qual sempre interveio com lucidez e brilhantismo. De fato, o prestígio e a sabedoria do abade de Claraval, considerado pelos seus contemporâneos como um ser "cheio de graça e de verdade", levaram os poderosos do seu tempo – papas, reis, grandes senhores feudais... – a consultá-lo amiúde, fazendo dele um inexcedível árbitro político e eclesiástico. Mas nada disso perturbou o silêncio no coração de Bernardo, verdadeiro homem de Deus e de "Nossa Senhora", a quem adjudicou Cistercienses e Templários, de cujas Regras foi autor. Deixou-nos ainda inúmeras obras inspiradas, entre as quais uma sobre a vida de S. Malaquias, o célebre profeta dos Papas, seu amigo pessoal e que morreu na sua abadia. Mas reitero a minha convicção de que a maior contribuição de S. Bernardo para o mundo cristão foi o impulso decisivo que conferiu ao culto de "Nossa Senhora", com uma intencionalidade e um sentido particulares, numa igreja muito pouco interessada em cultos no feminino.

Com efeito, a veneração à deusa Mãe havia atravessado toda a antiguidade, marcando fortemente as grandes religiões e mitologias, e esse culto mantinha ainda raízes profundas entre os povos europeus do século XII, desejosos de recuperarem uma devoção que o cristianismo lhes negava. De fato, a Igreja opunha-se a qualquer culto no feminino, não só devido à sua misoginia intrínseca, como pela perigosa identificação com as Deusas- Mãe anteriores: Cibele, Artemisa, Deméter, Isis... Mas, de súbito, tudo mudou e, pela mão de Bernardo, o culto de "Nossa Senhora" irrompeu, triunfante, dos corações para os altares! As cúpulas da Igreja viram-se impotentes para o deter, pois como haveriam de contrariar os anseios mais profundos das populações se contavam com o apoio e a ação objetiva do abade de Claraval, um dos vultos mais prestigiados daquela mesma Igreja?!...

 Todos os mosteiros cistercienses foram dedicados a "Nossa Senhora" e as duas Ordens ligadas a S. Bernardo – Cister e Templários – encontravam-se, igualmente, sob a advocação da Virgem. Relata Jacques Huynen que "nos rituais templários, as preces a Nossa Senhora ocupavam um lugar preponderante: rogava-se mais à Virgem do que ao próprio Deus. Sempre é Ela, "em cuja honra foi criada a nossa religião", a que aparece à cabeça, antes mesmo de Nosso Senhor Jesus Cristo, quer na Regra quer nos Estatutos da Ordem do Templo”.

Esta situação dá que pensar: se fossem apenas os camponeses ignorantes a forçar o culto à Mãe, ainda com resquícios de paganismo, seria uma coisa; mas se a renovação desse culto se ficou a dever a um teólogo, a um doutor da Igreja, com a autoridade de S. Bernardo, então o caso assume outras proporções. Sobretudo pelo fato de S. Bernardo não designar a Virgem pelo nome cristão de Maria, mas por "Nossa Senhora" (e muitas catedrais foram assim consagradas, como a célebre “Notre Dame”) o que permite supor que agiu com um propósito e uma estratégia bem definidas e, a ser certo, muito pouco canónicas... 

O nome Maria identifica de imediato a mãe de Jesus; contudo, a expressão "Nossa Senhora" poderá referir-se à mãe de Jesus, mas não só – convenhamos que se presta a interpretações que uma mente inteligente como a de S. Bernardo não quereria fomentar, a não ser que fosse esse o seu propósito deliberado. Mas os "equívocos" não ficam por aqui, uma vez que muitas representações dessa "Nossa Senhora" eram Virgens Negras, na melhor tradição das Deusas-Mãe anteriores!  

Assinale-se que a cor negra ou noturna destas imagens é o símbolo do estado original, do não-manifestado e da virgindade primordial; a Tradição refere que a Shamballah, no Centro da Terra, se encontra envolvida pela escuridão mais negra e sagrada. René Guénon explica que "o Centro é, em razão do seu carácter original, o que se poderia denominar de lugar da não-manifestação; como tal a cor negra, entendida no sentido superior, convém-lhe perfeitamente. Deve ainda observar-se que, ao contrário, a cor branca também é apropriada ao Centro sob um outro ângulo, na medida em que é o ponto de partida de uma “irradiação” comparável à luz. Poderíamos dizer, portanto, que o Centro é “branco” exteriormente e em relação à manifestação que dele procede, mas que é “negro” interiormente e em relação a si mesmo".

Quanto a S. Bernardo, creio que a sua genial intenção ao utilizar a expressão "Nossa Senhora" nada continha de depreciativo por Maria, muito pelo contrário! Desse modo simples, mas absolutamente eficaz, canalizava na sua figura todos os cultos antigos da Grande Mãe, elevando a condição da mãe carnal de Jesus a uma concepção iniciática universal e sincrética do Princípio Cósmico Feminino – ou seja, a figura de Maria, encarnando em si todas as outras Deusas do passado, representava, a partir daí, a Grande Mãe!


A Grande Mãe, que igualmente pôs os olhos sobre os descendentes de Afonso Henriques, dos quais continua a ser Rainha...










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      E alegre se fez triste...


"Aquela clara madrugada que
viu lágrimas correrem no teu rosto
e alegre se fez triste como se
chovesse de repente em pleno agosto.”

Manuel Alegre, “O Canto e as Armas”



Disse o poeta Manuel Bandeira, referindo-se aos seus compatriotas, que "todo o brasileiro é um português à solta". Considero essa observação extremamente inquietante para os portugueses, pois levanta de imediato uma pergunta: o que se passa com o português em Portugal para que, no seu próprio país, não se sinta à solta? .... Ou, por outras palavras: o que prende o português em Portugal? ....

Talvez que a resposta há muito tenha sido dada por Luis de Camões nos dois últimos Cantos de "Os Lusíadas" com o inesperado, mas esclarecedor episódio da Ilha dos Amores. Tudo se passa no regresso da viagem à Índia, quando os portugueses encontram, sem saber como, uma Ilha encantada "que Vénus pelas ondas lha levava"... E ali, naquela Ilha paradisíaca, os marinheiros lusitanos são premiados pela Deusa com um merecido repouso, onde dispõem de todas as delícias da Natureza e se envolvem em jogos amorosos com as sedutoras Nereidas, divindades das águas: 

"Nesta frescura tal desembarcavam
 Já das naus os segundos Argonautas,
 Onde pela floresta se deixavam
 Andar as belas Deusas, como incautas.
(...)
 Oh, que famintos beijos na floresta,
 E que mimoso choro que soava!
 Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
 Que em risinhos alegres se tornava!
 O que mais passam na manhã e na sesta,
 Que Vénus com prazeres inflamava,
 Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
 Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo."

 É então que Tétis, a principal das ninfas, que havia recebido o próprio Vasco da Gama, esclarece a sua identidade e os motivos de tal recepção aos portugueses:

"Que, depois de lhe ter dito quem era,
 C’um alto exórdio, de alta graça ornado,
 Dando-lhe a entender que ali viera
 Por alta influição do imóbil Fado
 Para lhe descobrir, da unida Esfera
 Da terra imensa e mar não navegado,
 Os segredos, por alta profecia,
 O que esta sua nação só merecia."

E conduzindo o capitão da armada ao cimo de um monte, mostra-lhe a "máquina do mundo", privilegio dos Deuses estendido aos portugueses, predizendo muitos e valorosos feitos... Ou seja, é-lhes dado a conhecer a História do futuro:

"Vendo o Gama este globo, comovido
 De espanto e de desejo ali ficou.
 Diz-lhe a Deusa: – “O transunto, reduzido
 Em pequeno volume, aqui te dou
 Do mundo aos olhos teus, para que vejas
 Por onde vás e irás e o que desejas.
(...)               
 Vês aqui a grande máquina do mundo,
 Etérea e elemental, que fabricada
 Assi foi do Saber alto e profundo
 Que é sem princípio e meta limitada.
(...)
 Até ‘qui, Portugueses, concedido
 Vos é saberdes os futuros feitos
 Que, pelo mar que já deixais sabido,
 Virão fazer barões de fortes peitos."

Analisando com maior profundidade este episódio, haverá que destacar alguns pontos essenciais, começando por sublinhar que a Ilha a que os portugueses chegaram não figurava em nenhum mapa e, portanto, a ela não se podia aceder senão pelo favor dos deuses. E essa chegada acontece de repente, sem ser anunciada, tal como sucede com a iluminação espiritual... 

Esta Ilha representa verdadeiramente o Paraíso na Terra, onde os portugueses são convidados a entrar e a gerar uma "progênie forte e bela", através da celebração e da realização individual do mais puro Amor. Ou seja, ali não existia qualquer pecado, reconhecido como tal pelo pensamento, sempre oscilando entre o Bem e o Mal, mas sim o retomar de uma inocência reconquistada pela plenitude amorosa e que implicava, de imediato, a anulação daqueles contrários. Desse modo se restabelecia a Harmonia original, seguindo a concepção neoplatónica de Camões, que concebe o Amor como princípio regulador e regenerativo da Harmonia e centro inequívoco do Mundo; um Amor transcendente, mas que também se expressa fisicamente, porque tem que ser completo em todos os planos, e onde o gozo sensual se funde com o mental e com o espiritual, sem qualquer culpa a ensombrá-lo ou a desviá-lo da Felicidade absoluta que representa. 

Portanto, os portugueses encontraram-se, ali, num estado primordial de pureza, sem mácula alguma a ensombrá-la, e nenhum deles tentou analisar ou rotular a experiência, se preocupou com comprovações científicas ou tentou obter quaisquer respostas intelectuais para o Mistério.... Sem perderem a sua condição humana, o que também é importante assinalar, aqueles marinheiros circularam por fora do espaço e do tempo, e o conhecimento que obtiveram chegou-lhes sem qualquer esforço ou interferência da mente: apenas tiveram que ouvir as palavras da Deusa. Ou seja, as revelações com que foram agraciados não dependeram do pensamento, sendo até condição indispensável que a mente estivesse o mais possível vazia e liberta, isto é, solta...

Assim sendo, aquele estado em que as preocupações se encontram ausentes, isto é, em que nos desligamos de um modelo pré-estabelecido imposto pelo pensamento, que nos diz, ininterruptamente, o que fazer e o que pensar, e nos deixamos, então, surpreender pela vida, é o que significa, para mim, "estar solto". E sem se estar solto não se poderá nunca chegar a parte alguma que valha a pena chegar – isto é, não teremos qualquer hipótese de divisar a nossa própria Ilha dos Amores, que nos espera algures, e muito menos capacidade para cumprir aquele outro destino amoroso, igualmente imprevisível, a que chamamos Quinto Império espiritual...


Utopia, sonho impossível?...

Como dizia Agostinho da Silva, “o ideal da humanidade é passarmos do previsível ao imprevisível”. Isto é, soltarmo-nos do previsível e começar a amar, a querer o imprevisível... ” Um imprevisível que o filósofo também associa à pomba errante do Espírito Santo, “que vai por onde quer, como ele português ” e que, por isso mesmo, lhe confere a possibilidade de ser tudo... No entanto, a única condição para manter viva essa possibilidade será o talento para nos soltarmos.

Mas para nos soltarmos verdadeiramente, para passarmos, de fato, do previsível para o imprevisível, teremos que viver em nós a experiência do Desapego; um Desapego que não é apenas a vontade psicológica de ultrapassar um desejo fortuito, mas um Desapego profundo e iluminado, como um permanente estado de Espírito.

Então voltemos à questão inicial: o que é que, a partir de certa altura, começou a prender os portugueses?

Regressemos à Ilha, e às palavras finais da Deusa:

"Podeis-vos embarcar, que tendes vento
 E mar tranquilo, para a pátria amada."
 Assi lhe disse, e logo movimento
 Fazem da Ilha alegre e namorada.
 Levam refresco e nobre mantimento;
 Levam a companhia desejada
 Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
 Por mais tempo que o Sol o mundo aquente."

Aqueles lusíadas gloriosos chegaram à "pátria amada" no ano de 1499, um ano antes da anunciada descoberta do Brasil, e o Portugal de então atingia o auge da saga portentosa que espantou o mundo: o seu pavilhão percorria a África, a Ásia, a Oceania e alcançava as Américas, marcando presença em todos os continentes. Mas apenas meio século passado, quando o próprio Camões regressou a Portugal, encontrou um cenário muito distinto, do qual deu conta no final da sua obra épica:

"No’ mais, Musa, no’ mais, que a lira tenho
 Destemperada e a voz enrouquecida,
 E não do canto, mas de ver que venho
 Cantar a gente surda e endurecida! ...
 O favor com que mais se acende o engenho,
 Não no dá a Pátria, não, que está metida
 No gosto da cobiça e na rudeza
 Duma austera, apagada e vil tristeza."

Pouco tempo depois de ouvir Camões recitar "Os Lusíadas", D. Sebastião embarcou para Alcácer-Quibir e a nação mergulhou na escuridão e no desespero, encerrando-se, a si mesma, numa prisão de nevoeiro... E nem “a companhia desejada das Ninfas/que hão-de ter eternamente”, isto é, a experiência do Amor mais puro e redentor vivido na Ilha, pôde servir de farol.

Eram os anos do fim.


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Enquanto estiveram na Ilha dos Amores, os marinheiros portugueses foram, realmente, tudo...

Daí que, ao terminar aquele extraordinário ciclo de mar, Portugal deveria ter-se convertido, todo ele, numa projeção da Ilha dos Amores estabelecendo-se, desde logo, como um espaço de comunhão entre mundos. Nesse cenário ideal, poderia ter desvelado à humanidade "os segredos, por alta profecia / O que esta sua nação só merecia... ", que recebera ao longo da sua História, e em que, afinal, a maior conquista do povo lusíada fora, indubitavelmente, o Amor. E seria esse Amor que teria que ser proclamado e intensamente vivido, em todas as suas expressões, constituindo o único caminho para se chegar àquele futuro encomendado em Ourique. Então, seguramente com o beneplácito da Deusa, os portugueses ter-se-iam lançado de novo ao mar, porque ainda há destinos, não a descobrir, mas a cumprir.

No entanto, o país morno de antanho não aprendera a grande lição do Desapego, condição prévia estreitamente ligada ao Amor e o antidoto mais eficaz da “apagada e vil tristeza” que o havia envenenado; teimosamente, preferiu fechar-se sobre si mesmo e esperar por D. Sebastião – não o Sebastião espiritual, referido por Fernando Pessoa, pois indubitavelmente o Poeta também passou pela Ilha dos Amores... –, mas um Sebastião monolítico, tremendamente grave e sério, que acentuou o fatalismo e levantou a toda a volta os muros do cárcere psicológico da nação – muros esses que, de então para cá e, independentemente do sebastianismo primário, a que se agregaram muitos outros fatores negativos, se tornaram cada vez mais altaneiros e quase intransponíveis ...

E que ainda não foram derrubados.

Claro que, durante os séculos seguintes, também se viveram, como agora, alguns períodos mais ou menos satisfatórios ou, se quiserem, regulares; mas o que é isso para quem foi profetizado ser tudo?!...








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      Renascimento






De costas para o mar, que é o mesmo que estar de costas para a História, o Portugal de hoje, apesar dos foguetes, continua obstinadamente infeliz, a seguir modelos em terra que não são seus.

Penso que não foi um erro a entrada na Europa, mas foi um erro não termos ainda levado à Europa um novo humanismo, baseado na Criatividade e, sobretudo, no Amor, unindo o humano com transcendente, promovendo uma relação intima com a Natureza, expressão do divino, e experienciando a Fé iluminada numa "não-religião", assente no autoconhecimento ou numa gnose marcadamente ibérica, a que os portugueses chamaram de Espirito Santo.

Com a saída para o mar fechada pelas circunstâncias históricas, Portugal deveria ter aberto ainda mais a da metafísica, e explicado à Europa que ela também tinha que se renovar e alargar por horizontes não contabilizáveis; ou, pelo menos, mencionar que, desde o século XIII, existia em Portugal o Culto Popular do Espírito Santo, cuja figura central é um Menino Imperador, significando com isso que será a criança o modelo a partir do qual se transformará o mundo e se atingirá o Quinto Império ou Império do Espírito Santo...

Mas, infelizmente, Portugal não fez nada disso e, como dizia Agostinho da Silva, “também se deixou invadir pela pedagogia e pela escola, instrumentos destinados a construir uma civilização de adultos e a tornar a gente em ferramenta dessa construção. Na escola se aprende a separar o corpo da alma e a corrompê-los a ambos."
E explica que "resta, porém, ao espirito português a lembrança de ter feito crianças imperadores, e aí estará a base indispensável para destruir o sistema de escolas do mundo, criando lugares onde se aprenda e não lugares onde se ensine; cultivando a fantasia e não a memória; pondo o professor a aprender a ser criança e não a criança tendo como modelo o professor ..." Concluindo, com alguma esperança: "Restaurar a criança em nós e em nós a coroarmos Imperador, eis aí o primeiro passo para a formação do Império."

Mas Portugal esqueceu-se disto tudo e acabou formatado por critérios forâneos, que se converteram em referências para uma "boa" vida numa dicotomia entre desemprego, como símbolo de falhanço e desistência, e emprego, que soa muitas vezes a trabalho forçado, escravizando corpos e almas, e que nada tem a ver com a vida: como se pode ser feliz se não há tempo, nem espaço interior, para se ser feliz? E a espiritualidade mais profunda é sinónimo da suprema felicidade...

Será, pois, necessário recorrer ao pilar onde tudo verdadeiramente se inicia: uma nova educação de base. As suas premissas já foram formuladas, também por Agostinho da Silva, e assentam, muito simplesmente, na crença de que nascemos "estrelas de ímpar brilho, sem que o mundo em nada nos melhore", baseando-se, portanto, no valor primordial da natureza e buscando de novo, e acima de tudo, a filiação naquela Natureza divina. Nesse processo, cada um terá que desbravar o seu próprio desenvolvimento interior, constituindo a educação mais um processo de orientação do que de ensino, para que a maneira de ser original e natural da criança não seja substituída por uma "natureza adulta".  

Por isso, proclamava Agostinho na "Educação de Portugal": "Declara-se que todos os Imperadores de qualquer Império declarado Santo pela vontade, os interesses e os apetites dos homens, devem ceder seu trono às características infantis de atenção contínua à vida, de existência total no presente, de ignorância de códigos, manuais e fronteiras, de integração no sonho, de valorização do jogo sobre o trabalho, de simpatia pela cigarra, que logo a nossa escola substitui pelo aplauso à formiga, já que (a primeira) convém à alegria, apenas, e a outra ao lucro." E, sobretudo, tendo sempre presente que: "O reino que virá é o reino daqueles que foram crucificados em todas as épocas, por todas as políticas e por todas as ideologias, apenas porque acima de tudo amavam a liberdade (...); o reino daquele Deus que viam definindo-se fundamentalmente por não obedecer a nada e a ninguém senão à sua divina natureza; e o reino que desejam para homens que não sintam obrigação alguma que não seja a de se aproximarem quanto possível da divindade de ser livre, livre no viver, livre no saber, livre no criar."

Frisando bem a base estritamente pessoal deste processo que, no entanto, poderá transbordar e contagiar os demais, recordo as palavras de um outro grande pensador do nosso tempo, Jiddu Krishnamurti: "Uma crença é um assunto puramente individual, e não se pode nem se deve organizá-la. Se o fazem, torna-se em algo morto, cristalizado, converte-se num credo, numa seita, numa religião que luta com as demais para se impôr. " E lamentava-se: "Quando digo para buscarem dentro de si mesmos a iluminação, a glória, a purificação, a incorruptibilidade do próprio ser, ninguém está disposto a fazê-lo... (...) Mas aqueles que realmente desejam compreender, que tratam de descobrir o que é eterno, sem princípio nem fim, caminharão juntos com grande intensidade e constituirão um perigo para tudo que não é essencial, para as irrealidades, para as sombras..."

Para as sombras e para o nevoeiro, evidentemente!

Trata-se, pois, de um projeto educativo verdadeiramente revolucionário, assente em fundamentos religiosos que partem do próprio indivíduo; sublinhe-se que não se trata de mais uma religião, mas numa descoberta e numa consequente interação religiosa ou alinhamento com a corrente da Vida (ou fluxo do Tao), onde se encontram todas as religiões e filosofias e se fundem Oriente e Ocidente, o que igualmente concerne a ateus e agnósticos. Partindo dessa base, tudo o que respeita ao novo Império brotará naturalmente, sabendo-se, desde já, que num Império do Espírito não existe relevância pessoal e que tudo é igualmente importante – o que é o mesmo que dizer que nada possui, deveras, importância alguma ...


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Da batalha de Ourique aos nossos dias vão quase nove séculos e tudo aquilo que chamamos “História de Portugal”. Uma História plena de obras valorosas, de feitos inacreditáveis e de heróis lendários, que instauraram, a partir de um país com escassos noventa e um mil quilômetros quadrados, um vasto império com dezenas de milhões de quilômetros quadrados, repartidos por todos os continentes.

Claro que esses heróis não agiram sozinhos, mas sempre souberam galvanizar e levar atrás de si o Povo Português, por sua vez repleto de outros heróis, homens e mulheres anónimos, que permitiram realizar todos os sonhos e conquistas, "mais do que permitia a força humana", no dizer de Camões. Mas onde se encontra, agora, essa gente lusitana?

Fernando Pessoa diz que nos transformámos num povo de heróis adiados. E explica: "O português é capaz de tudo, logo que não lhe exijam que o seja. Somos um grande povo de heróis adiados. Partimos a cara a todos os ausentes, conquistamos de graça todas as mulheres sonhadas, e acordamos alegres, de manhã tarde, com a recordação colorida dos grandes feitos por cumprir. (...)
Somos hoje um pingo de tinta seca da mão que escreveu Império da esquerda à direita da geografia. É difícil distinguir se o nosso passado é que é o nosso futuro, ou se o nosso futuro é que é o nosso passado. Cantamos o fado a sério no intervalo indefinido. O lirismo, diz-se, é a qualidade máxima da raça. Cada vez cantamos mais um fado."

E porque sucede isto?

O mesmo Fernando Pessoa dá-nos conta da razão pela qual o escol de heróis, que constitui, de fato, a medida da nação, desapareceu e ainda se não renovou: "A nossa ruína cultural, a nossa não lusitanidade íntima, esse é o mal que nos mina; todos os outros, por graves que sejam, podem passar, podem ter solução. Mas para aquilo que, continuado, é a morte mesma, não há solução.
Do esforço instintivo da sociedade portuguesa, da operação obscura das leis desconhecidas, pelas quais as sociedades se regem, e que são o comentário frequentemente irónico à vontade inútil dos homens, ao esforço estéril das vontades individuais e conscientes, não podemos esperar nada, embora o possamos esperar. É que não podemos ter confiança no que desconhecemos, nem trabalhar em prol ou em contra do que é inevitável e seguro.
Do estado nada podemos esperar também, mas, aqui, por uma outra razão. O estado não é português, o estado não é decente, o estado está, desde 1820, na posse de homens cuja obra é a essência da traição e da falência. Procurar o auxílio do estado é tão absurdo como procurar influenciar os homens que o possuem. Não há neles uma centelha de boa vontade patriótica, nem de lucidez portuguesa. Vivem daquilo, e nem vivem daquilo elegantemente. O esforço revolucionário para os deitar abaixo é um gasto espúrio de energia. Quem é que se lhes vai seguir? Não há em Portugal nenhum grupo ou partido, nenhuma reunião de homens duradoura ou ocasional capaz de gerir o país."

Não de gerir o país economicamente, esclareço, mas sim de recuperar e manter viva a alma da nação, com vistas à sua missão de sempre. Para muitos, será inadequada ou mesmo completamente ridícula esta questão, mas António Quadros já havia avisado: "Sabemos hoje que a ciência e a razão não são chaves plenamente satisfatórias para o conhecimento universal, deixando fora do seu objeto e das suas possibilidades regiões imensas, que a teoria do conhecimento sonda através de outros meios e de outros caminhos. "

Ora no Portugal de hoje não há qualquer tipo de acesso a essas regiões imensas: não há talento nem criatividade para as sonhar, descobridores para as localizar, gente para as desbravar.... E, sobretudo, absolutamente nenhum interesse em fazê-lo! Sem alma, perdeu-se a alegria e a exaltação do imprevisível.... Sejamos mais claros: o Portugal nascido em Ourique morreu em Alcácer-Quibir e o país atual não passa de um fantasma em relação ao anterior.

O horóscopo de Portugal feito por Fernando Pessoa, que também foi reconhecido como um dos maiores astrólogos do seu tempo, confirma que Portugal sofreu desaires sucessivos, como que pequenas mortes, até ao desenlace fatal e final, que aquela carta astrológica situa em 1978. Claro que uns dizem que o que ali se encontra assinalado é a “morte iniciática” de Portugal, ou seja, a “Crucificação”, correspondente à Quarta Iniciação e à qual se seguirá a “Ressurreição”, mas, de então para cá, passou-se quase meio século e não há vestígios de nenhuma madrugada redentora, e a outra ocorreu logo ao terceiro dia! .... Portanto, creio que seria melhor deixar de se falar em ressurreição para se colocar a perspectiva mais humilde do renascimento: um renascimento não menos glorioso, assinale-se, antecedendo o próprio renascimento do mundo pensado e preparado, a seu tempo, pelas Descobertas dos portugueses.

Já explicarei melhor o meu ponto de vista. Antes, gostaria de sublinhar que a convicção, a responsabilidade e a esperança relativamente ao Quinto Império nunca desapareceram para alguns portugueses, independentemente do estado do país ser favorável ou se situar nos antípodas do seu propósito, como sucede agora. E não desapareceram porquê? Muito simplesmente porque o desiderato expresso em Ourique não se encontra depositado ou dependente de Portugal, mas nas suas gentes e da sua ação no mundo... E esta distinção encerra, a meu ver, uma chave para se entender todo o processo.

Uma chave mestra, aliás.

Regressemos ao início de tudo, simbolizado pelo referido Juramento de Afonso Henriques: a divindade aparece-lhe milagrosamente e comunica-lhe que "quero em ti e teus Descendentes fundar para mim um Império"... Note-se bem: "em ti e teus Descendentes" – a mensagem refere-se claramente às pessoas, não à terra, e essas pessoas são os Portugueses.

Sampaio Bruno escreveu em “O Encoberto” acerca daquele desfecho que, citando  Pierre Leroux “se chama o fim do mundo ou a consumação final, seguida de ressurreição, ou, como diziam os Apóstolos de Jesus, duma palingenesia geral, dum refrescamento universal, sob os auspícios dum rei ou dum messias, dum profeta ou dum tipo enviado por Deus para esse efeito. ” E, argutamente, acrescentava:
“Este rei pode ser, mesmo, colectivo; porque não pode ser um povo, Portugal? Não o foi já outro povo, Israel?
Como os demais nossos antigos, Pedro de Sousa Pereira, em seu “Mayor triunfo da Monarchia lusitana”, se firma nas transcendentes palavras típicas do juramento de Ourique e assinala para Portugal a “semelhança cõ o povo de Israel, de que se lhe transferio o domínio. ” Pois que “o reyno de Portugal é de eleição divina e sucedeo a Israel, que o perdeo por seus pecados, e se deu ás gentes que fizeram fructo n’elle de estender o nome de Deus até o Iappão, que e o outro polo, cõfirmãdo nossa santa fé com suas vidas, a pesar de tãtos encontros dos infieis, e riscos do grãde Oceano. ”



Creio, no entanto, que o Portugal em causa não será o velho Portugal assente na ibéria, mas um Portugal etérico, que em tudo extrapola o espaço demarcado na Península, cerne do espírito universalista e gerador do espaço quinto imperial, no qual os portugueses serão os seus primeiros agentes de ligação.

Ao falarmos em portugueses, não podemos deixar de pensar naqueles "segundos 16" atrás referidos e que, auxiliados por um reduzido escol, detiveram, e detêm ainda, a difícil tarefa de conduzir todos os outros à sua função primordial no mundo: a instauração do Império encomendado em Ourique. Penso que encarnam tudo aquilo a que o padre António Vieira se referia, recorrendo, uma vez mais, ao exemplo de Santo António:"Santo António foi a luz do mundo, porque foi verdadeiro Português; e foi verdadeiro Português porque foi a luz do mundo. Bem pudera Santo António ser luz do mundo, sendo de outra nação, mas uma vez que nasceu Português, não fora verdadeiro Português se não for a luz do mundo, porque o ser a luz do mundo nos outros homens é só privilegio da Graça, nos Portugueses é também obrigação da natureza. "

Afirmar, deste modo, que os portugueses detêm uma missão específica, ou uma "obrigação da natureza", nada tem a ver com elitismo ou qualquer orgulho emocional da raça, que gera um perigoso nacionalismo primário, mas sim e apenas com o reconhecimento de uma função no contexto mundial – uma função criadora de civilização e que, assim o creio, não se poderá confundir com a terra pátria original, em si mesma. Aos Portugueses foi atribuída essa função, e essa função será realizada em Portugal ou onde estiverem os portugueses no mundo, pois, como também diz Fernando Pessoa, "a Pátria Portuguesa existe toda ela dentro de cada indivíduo português..."

 E, de uma vez por todas, que função será essa? ...

Creio firmemente que os portugueses representam a ponta de lança da humanidade no que respeita à instauração de um Império da Cultura e do Espírito, num mundo reunido e preparado para esse efeito pelos mesmos Portugueses. O que também está de acordo com esta outra afirmação de Fernando Pessoa: "Só duas nações – a Grécia passada e Portugal futuro – receberam dos deuses a concessão de serem não só elas mas também todas as outras."

Reforçando esta convicção, assinale-se que a Ilha dos Amores não pertencia a qualquer país deste mundo e que, naquele pequeno paraíso, símbolo da Idade do Ouro e para o qual os portugueses haviam sido convidados, não flutuava qualquer bandeira nacional... E essa é uma indicação deveras significativa e que caracteriza todos os centros espirituais autênticos!

Portanto, voltemos agora a falar do nosso país e daquilo que fez o Poeta da “Mensagem” exclamar: "Senhor, falta cumprir-se Portugal!" Ou seja, voltemos a falar do seu renascimento.

Por absurdo que pareça, acredito que os Descobrimentos detiveram também, talvez até como o seu propósito mais oculto, a ideação e o aprestamento de um outro “corpo planetário” destinado ao posterior renascimento de Portugal; não para servir de sustentáculo a mais uma versão comum do país, mas à sua expressão futura, renascida como base Quinto Imperial. Um corpo, portanto, que poderá corresponder ao que Fernando Pessoa, no seu tempo e até idealizando-o de outro modo, considerava o "super-Portugal de amanhã ", ou Fernão Álvares do Oriente denominava "Lusitânia Transformada"... 

Como se disse atrás, trata-se de um corpo subtil, mas com algumas correspondências geográficas, assinalando um espaço físico e não físico que vai da serra de Sintra, em Portugal aos montes da Galiza, na Espanha, e á serra da Mantiqueira, em Minas Gerais, no Brasil, alargando a Península Ibérica ao outro lado do Atlântico e espraiando-se, também, a partir do coração de todos aqueles que o sentem por dentro de si mesmos ... Um espaço vivo, com alma nova e coração puro, aberto pelo Sentimento, pela Língua e pela Cultura, unindo a Ibéria com a América do Sul, como só transcendentalmente pode acontecer, e que contém algures, no meio do oceano, ou no mais íntimo de cada um, a Ilha dos Amores – aquela mesma cantada por Camões e surgida no meio do nada; só que agora se trata, sim, daquele nada que é tudo, que se atinge com o despejar de conceitos e culpas, que nos torna livres de patriotismos ocos, de nacional- espiritualismos e das demais efabulações psíquicas e mentais... 


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Ao chegarmos à Ilha ou, mais apropriadamente, quando a Ilha chegar a nós, poderemos entender que o triunfo sobre a desarmonia e o desconcerto do mundo através do Amor foi, de fato, a maior realização dos navegadores lusitanos, e que continua diariamente ao nosso alcance, nas nossas casas, nos nossos trabalhos, nas nossas vidas...  Como eles, teremos que nos soltar e “deixar ir”, não só para podermos reconhecer o Portugal renascido, mas porque os portugueses, relativamente ao projeto Quinto Imperial, continuam a ser a mão de obra do Espírito.
 

Então, e só então, seremos capazes de identificar também as estrelas que assinalam o caminho para o local preciso em que, naquele grande espaço lusíada se armará, fisicamente, um novo presépio. Tal conjectura poderá soar como um outro absurdo, porque o mundo continua dominado por forças que se opõem a este propósito, mas parece-me ser a única resposta vitoriosa à situação desesperada em que vivemos. Portanto, acredito que aquele presépio na face da Terra, projetando-se igualmente no coração sensível de cada criatura humana, constitua o fator decisivo para a transformação global do planeta, sob o signo do Espírito Santo. No entanto, devido à fortíssima oposição em termos da mente programada e ao modelo mundialmente imposto pelos interesses e poderes soberanos, temo que essa transformação não seja pacífica - nem em cada um, nem no mundo.

“Eu não vim trazer a paz, mas uma espada”, dizia o Cristo há dois mil anos...

 Deste modo, antecedendo a instauração do Quinto Império, prevejo um cenário de luta intensa, aos vários níveis, pela consciência própria e pela redenção da humanidade e do planeta, competindo aos portugueses, na primeira linha do combate, a missão mais crítica e temerária de todas: encarnar o sonho e abrir a porta à esperança.

Mas será isso mesmo que lhes permitirá, finalmente, serem tudo...