24/12/2013

A IMITAÇÃO DO PODER - ("Prisciliano Ressuscitado" - Capítulo 2)


                       “Não há religião superior à verdade."
                                                        Helena Blavatsky



O drama de Prisciliano, como o primeiro mártir às mãos da própria Igreja Católica Romana a que pertencia, é um verdadeiro libelo acusatório, que põe em causa uma Instituição que cedo enfermou de vícios e posturas contrárias à sua origem...

Pode argumentar-se que o punhado de clérigos mais directamente envolvido no caso não representa a Igreja e que tudo se reduziu a um confronto de personalidades, bem localizado no tempo. Mas a verdade é que o processo em causa e o seu desenvolvimento, muito para além do conflito psicológico entre os actores principais, envolveu vários sínodos e concílios, com a exaustiva intervenção de bispos, patriarcas, santos e papas, para além de três imperadores romanos…

 Ali se delineou, pela primeira vez, um tipo de actuação que se veio a tornar num modelo de prática, sobejamente utilizado pela Instituição eclesiástica ao longo dos séculos. Por exemplo, não prefigurou o processo em causa os métodos da Santa Inquisição, oito séculos depois,  e não abriu a porta ao monolitismo reaccionário e intolerante e às alianças com o poder civil e militar, que ainda perduram?...

Por isso, não só me parece lícita a generalização, como a análise do modus-operandi permite entender, desde logo, a filosofia que levou à criação e à manutenção de um determinado "establishment", que a Igreja Católica Romana foi  refinando ao longo dos séculos...

É claro que sempre surgiram, dentro dessa mesma Igreja, homens livres e esclarecidos que, impregnados pelo espírito da Obra original, tentaram alterar o referido "establishment" sem, no entanto, lograrem consegui-lo; mas a ausência de resultados não significa ausência de esforço e de vontade de mudança.

Um exemplo significativo do imobilismo institucional ocorreu nos nossos dias, quando o próprio Papa João Paulo II resolveu pedir perdão à humanidade pelos crimes cometidos pela Igreja; como todos sabemos, teve que o fazer em nome individual, porque não conseguiu o apoio da Cúria romana, isto é, do núcleo duro da Instituição...

Daí o meu propósito não se centrar numa condenação sumária da Igreja Católica Romana,  como ela fez com Prisciliano, abrindo a porta a uma escalada infernal, mas em procurar repôr os factos históricos e tentar uma aproximação a uma verdade que foi também escondida e deturpada ao longo dos séculos por aquela mesma Igreja.

E porque não existe, de facto, uma religião superior à verdade.


ICEBERG

A Igreja Católica, por mais chocante ou absurdo que pareça, representa a parte visível de um enorme iceberg, onde se ocultam grupos de interesses de toda a ordem, desde a mais alta finança a lobbies inconfessáveis, que governam o mundo na sombra. Um poder destes, que detém as rédeas dos principais poderes temporais na face da Terra – Oriente incluído – e que se esconde por detrás do Vaticano, sendo tremendamente poderoso, nada tem, contudo, do verdadeiro Poder.

De facto, só o Poder Espiritual, que vem do Alto e é transmitido pelos Avataras Divinos, se constitui como o verdadeiro Poder – e esse Poder tem uma característica fundamental: em vez de retirar a vida humana, coisa que o outro faz sem pestanejar, é o único capaz de a restituir!...

Ora essa capacidade inigualável faz da Igreja Católica romana uma representante do falso poder, ou seja, uma simples “Igreja de imitação”...

Esta mesma idéia foi transmitida inicialmente por grupos de cristãos gnósticos primordiais, que se viam a si próprios como detentores da tradição autêntica do cristianismo, isto é, dos Mistérios transmitidos secretamente por Jesus, e que os bispos ortodoxos católicos não possuíam; então, independentemente da pompa com que os clérigos triunfantes se rodeavam, aquela falta essencial fazia deles membros vazios da referida "Igreja de imitação"- aliás, uma fraca e embaçada imitação face à outra Igreja, que alguns gnósticos iniciados também chamaram Igreja de Melquisedeque.

Esta diferença abissal tem sido muito mais iludida, disfarçada e branqueada pelos últimos Papas do marketing romano… Veja-se a actuação de João Paulo II, prestigiosa e prestigiante para a Igreja, mas doutrinariamente oscilante e muito aquém do esperado, porque, decerto, se manteve sempre espartilhada por um compromisso rigoroso, de parte a parte.

Ou seja, ainda que sinceros e bem-intencionados no seu esforço pessoal, aquele outro poder temporal, oculto por detrás, tudo vigia e não hesita, sequer, em eliminar os agentes que se tornam incontroláveis, como terá sucedido com o Papa João Paulo I.

Por isso, continua a ser uma incógnita a atitude desafiante do actual Papa Francisco, parecendo determinado em escapar ao rigor do “establishment”; mas também é verdade que a máquina vaticana, bem como a Igreja em geral (e o resto do iceberg…) precisavam, desesperadamente, de uma imagem diferente, a fim de sobreviverem a si próprios; isto é, precisavam de uma revolução estrondosa para que tudo ficasse na mesma.

Mas, às vezes, o dedo do destino impõe-se, fazendo com que o controlo de uma situação escape das mãos de quem pensa que o detém…

Será o caso?

O Papa Francisco foi eleito por um Conclave preocupado com a crescente perda de influência católica na híper povoada América Latina, sobretudo a favor da Igreja Evangélica; a sua aclamação terá visado, desde logo, a inversão dessa tendência e a solução para muitos outros processos semelhantes, espalhados pelo mundo, de enorme desgaste e desprestigio para a Igreja Católica.

Tal política precisava de uma Papa carismático e, obviamente, mediático.
Então, com Francisco sob a luz dos holofotes, figurando a derradeira esperança de uma igreja decadente, caduca e viciada, a revolução iniciou-se de imediato com uma inusitada operação de limpeza no Vaticano e a reconversão da Instituição romana, que encheu as manchetes no mundo inteiro e deu novo folego ao catolicismo.

Mas até que ponto conseguirá o Papa fazer levar essa revolução avante? E quem estará por detrás? As mãos de sempre ou o tal dedo de Deus?...

Até agora, os esforços notáveis e notados de Francisco, apontam para a substituição da máquina por um Coração – o Coração que detinha no início do cristianismo, como “Igreja de Pedro”.

Nesse sentido, a sua actuação concorda com a Profecia de Malaquias, um santo católico do século XII e autor da célebre “Profecia dos Papas”, onde descreve a sucessão apostólica de todos os pontífices desde Celestino II, seu contemporâneo, até ao último papa da igreja Católica, que designa metaforicamente como “Pedro, O Romano”.

Uma interpretação dessa Profecia leva a crer que o actual Papa poderá ser o último Papa da Igreja e o título “Pedro, o Romano”, que lhe é associado, concorda, igualmente, com a pretensão de Francisco em reconverter a Igreja aos valores originais do cristianismo.

Então, se aqueles esforços do Papa resultarem numa transformação significativa da instituição eclesiástica, tanto melhor, porque a Igreja de Pedro, depois de dois milénios de convulsões e desencontros, poderá terminar com dignidade.

E talvez seja essa a missão do Papa Francisco.

Mas independentemente das profecias, e seja ou não Francisco o último Papa, vai-se tornando claro que o tempo da Igreja Católica Romana está a chegar ao fim. A marcha da História não se detém e um novo ciclo, referido por inúmeras Tradições, inexoravelmente se aproxima: o ciclo onde a Igreja de Pedro será substituída pela Igreja de João.

Esta Igreja de João é a Igreja sem intermediários, nem estruturas pesadas a condicionarem o passo e a receberem remuneração pelos serviços – é a Igreja do Espírito Santo e da fraternidade universal; a igreja dos gnósticos, como Prisciliano, com acesso livre e directo à divindade por dentro de cada um!

É também a Igreja que os portugueses prepararam em segredo, ao longo da sua História, e que chamaram, igualmente, de Igreja de Melquisedeque. Segundo a Tradição Lusitana, ela virá à luz com a chegada daquele novo período mundial - o “Quinto Império” ou “Império do Espírito Santo”- para o qual trabalharam, em silêncio, inúmeros e quase sempre desconhecidos Iniciados, integrando aquela “vanguarda espiritual” que, com séculos de antecedência, prepara o passo seguinte da humanidade.


MUDANÇA

Segundo Fernando Pessoa, os últimos três “Avisos” da aproximação desse novo ciclo da História do mundo, foram interpretados do modo seguinte: o Primeiro, pelo poeta popular Gonçalo Anes, conhecido como o Bandarra, que viveu no século XVI ; o Segundo,  pelo padre jesuíta e livre-pensador António Vieira, um século depois; o Terceiro, já no século XX, por ele próprio, o poeta  autor da “Mensagem” que prenunciou o Segundo Advento do personagem central do Quinto Império : o Cristo Redentor Encoberto.

Claro que a Igreja Católica sempre se opôs, violentamente, à ideia de um ciclo para além dela e, portanto, nascido da sua própria morte anunciada. Por isso, o Bandarra e António Vieira, cada um no seu tempo, foram perseguidos e tiveram que responder, por heresia, perante o Tribunal da Inquisição. Quase seguiram o destino de Prisciliano, mas salvaram as suas vidas, embora fossem condenados.

Quanto a Fernando Pessoa, que se definiu a si próprio como "Cristão Gnóstico e, portanto, oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma", seguramente que só não foi encarcerado porque, no seu tempo, a Inquisição havia sido extinta em Portugal – senão, sem qualquer margem de dúvida, teria ardido na fogueira, com todos os seus escritos.

Portanto, procurar conhecer melhor as vidas e as obras destes homens poderá, também, abrir as nossas mentes e corações àquela mesma inspiração que os levou a desafiar o maior poder do seu tempo.

E igualmente do nosso.

O espírito divinamente rebelde do galego Prisciliano também está cada vez mais presente nesta mudança de ciclo. A sua vida precedeu a do Bandarra em doze séculos, a de António Vieira em treze e a de Fernando Pessoa em dezasseis mas, de forma intemporal, detinham em comum a liberdade de pensamento e de crença religiosa, inspirada pela acção do Espírito Santo, bem como a valentia para enfrentar a implacável máquina institucional da igreja. Mas, sobretudo, todos eles contribuíram enormemente para a sacralização de um espaço – o espaço ocupado por Portugal e pela Galiza, sua extensão natural e altar oculto, – predestinado a tornar-se num pilar físico ou sustentáculo material do Quinto Império supra-físico ou espiritual.

 Poderá, então, dizer-se que os delitos de consciência que levaram Prisciliano a tornar-se no primeiro mártir da igreja triunfante eram já sementes soltas do futuro, que caíram a destempo num terreno totalmente impreparado para as receber; por isso, ao florescerem naquela época foram, de imediato, arrancadas como daninhas.

Evidentemente, para que não manchassem a seara dos vencedores.




11/08/2013

O CAMINHO ("Prisciliano Ressuscitado" - Capítulo 1)


               "A evidência metafísica é a mãe de todas as certezas"                                                                                                                                                                                                    Fritjof  Schuon


A Ibéria sempre foi um viveiro de estrelas.

Dizem lendas e tradições milenares que as consciências celestes, do mais alto do firmamento, projetaram a sua energia em inúmeros lugares peninsulares que, por isso, se tornaram mágicos. Também a projetaram sobre determinadas individualidades, que passaram a transmitir aquela mesma luminosidade à sua volta e se transformaram em referências de mudança civilizacional.

Aliás, pode dizer-se que os mistérios sagrados das várias Tradições mundiais foram criados como projeções e reflexos de estrelas na Terra e que aquilo que leva à sua identificação e vivência plena é a Gnose. No Oriente, chamam a esse elo indefinível e inominável de Tao, que também poderá ter o significado, mais limitado e circunscrito, de Caminho.
Na Ibéria destaca-se um percurso milenar, ou Caminho, que atravessa todo o norte peninsular e que se denomina, muito apropriadamente, de Caminho das Estrelas, em referência à Via Láctea, que lhe serve de tecto.
O próprio nome de Compostela, meta oficial daquele Caminho mágico, e que deriva do latim “Campus Stelae”, pode significar “Campo da Estrela”.

A encarnação da sabedoria das estrelas na Terra tornou-se cada vez mais rara, pelas vicissitudes do mundo moderno, mas nem sempre foi assim. No que respeita à Ibéria, decorria o séc. IV quando uma delas iluminou intensamente o território da Galiza, manifestando-se no gnóstico Prisciliano. No entanto, ao tentar restaurar os valores e a pureza do Cristianismo primitivo, Prisciliano acabou decapitado por aqueles que não puderam suportar o seu brilho.

Algo semelhante se passou com a totalidade do próprio Caminho das Estrelas, depois conhecido mundialmente como Caminho de Santiago.

Em tempos imemoriais, que se embrenham em reminiscências atlantes, de que falaremos em seguida, esse Caminho havia já sido implantado pela Gnose, ou pelo Tao. Mas quando o poder que eliminou Prisciliano se apropriou do Caminho, logo o tentou atingir da mesma forma mortal, para o adaptar aos seus interesses. Mas a essência gnóstica continuou bem viva, ainda que agora flua somente pelo leito subterrâneo ou oculto do Caminho.

CABEÇA

As mesmas tradições antigas referem-se à Europa como senhora de um corpo geográfico-simbólico, em que a cabeça é figurada pela Península Ibérica. Essa é também uma forma de indicar que ali se encontra um centro elevado de consciência, no sentido metafísico daquela Sabedoria refletida pela Gnose.
Esse centro de consciência é a soma de vários outros pontos espalhados pela Ibéria de que se destacam, na Galiza, o Caminho de Santiago e, em Portugal, a Tradição Lusitana do Quinto Império que, afinal, convergem para um mesmo propósito.

Ou seja, a Gnose ou o Tao, como fonte que irriga o Caminho dito de Santiago, também foi quem colocou a pedra angular do Quinto Império.
Por Quinto Império, referem-se os portugueses iniciados ao surgimento de um período mundial correspondente a um determinado ciclo planetário, em que prevalecerão os valores do Espírito e onde será erradicado o "mal" como ignorância, assim como o egoísmo, a intolerância e a prepotência, que assentam e proliferam nas atuais culturas do medo.

Esta suposta utopia foi apoiada e desenvolvida nos tempos modernos por Poetas como Fernando Pessoa - que, inclusive, se assumiu como o derradeiro Aviso daqueles tempos vindouros -, e Filósofos como Agostinho da Silva, que alargou e estendeu a Península Ibérica ao “Portugal do outro lado do mar, que os brasileiros chamam de Brasil”.

Da simbiose ibero-americana resultou um novo sangue, que poderá, agora, subir à cabeça. E, como assinalado, uma das principais veias condutoras desse sangue é, precisamente, o Caminho das Estrelas.
De facto, cada vez mais pessoas, a nível mundial, se interessam e se lançam no antigo Caminho peninsular, acreditando que é possível o sonho da mudança. Esse Caminho de fora é, sobretudo, transformador por dentro, onde começam verdadeiramente as mudanças importantes.

Deste modo, despertando antigos valores que poderão restaurar um estado de consciência perdido, e prosseguindo o percurso interno e libertador de homens como Prisciliano, a Ibéria poderá voltar a ser, um dia, um campo de estrelas.

LEVEZA
A primeira coisa que qualquer peregrino aprende no Caminho de Santiago é a condição essencial de não caminhar sobrecarregado.
Do mesmo modo, ao prosseguir esta outra caminhada intelectual, é igualmente imprescindível retirar da nossa mochila interior todos os pesos que estão a mais e, sobretudo, os que não foram ali colocados por nós.
Refiro-me às crenças, aos dogmas, aos anátemas e aos tabus que nos foram impostos ao longo da História pelos poderes que controlam a sociedade, a ciência e as religiões e que, de tal modo foram inculcados e assimilados como “a verdade”, que não damos pelo peso brutal que carregamos às costas…
Por isso, para além de inúmeras passagens determinantes da História interpretadas ao contrário (uma  História que foi sempre escrita pelos vencedores…), encaramos também a Pré-História como um longo período de obscurantismo cultural. Mas já vem sendo altura de, pelo menos, admitir que o obscurantismo poderá estar em nós, na nossa atitude, no nosso olhar condicionado, talvez ainda incapaz de abarcar o legado assombroso de uma cultura que permanece desconhecida.
Então, sem pesos indesejáveis e com o espírito aberto, vamos abordar questões complexas ligadas ao surgimento do Caminho, como a da lembrança de uma Época de Ouro, algures no passado mais remoto da humanidade, desaparecida num desastre de amplitude cósmica, mas que se encontra gravada na memória coletiva e inconsciente dos povos. Inconsciente, porque a outra memória continua controlada pelo poder dominante; um poder que persevera em apagar aquela e outras recordações temendo, com fartas razões para isso, que ponham em causa o seu próprio predomínio.

ILUSÃO
Efetivamente, o que seria do mundo se o homem começasse a pensar por si e da sua própria maneira, em vez de pensar como foi ensinado a pensar, utilizando formulas e pensamentos que não são os seus, mas que constituem as balizas do seu comportamento?...
Vivemos numa época onde só o pensamento racional conta. E o poder que nos governa, mantendo o mundo tal como está (isto é, sob o seu domínio) serve-se dessa condição, por ele mesmo imposta, para injectar o pensamento "racionalmente correcto" que mais lhe convém. Fica desde logo excluída toda e qualquer descrição do mundo e da vida obtida por outros meios de percepção como, por exemplo, a intuição, que representa a inteligência espiritual.
No passado não foi assim. O homem regia-se, sobretudo, pelos valores do espírito, a que acedia diretamente pelos canais que desenvolvia em si mesmo, apoiado pelas religiões dos Mistérios, que o conduziam a essa auto descoberta. Claro que também se servia do mental racional para explorar disciplinas como a filosofia, a matemática, a astronomia ou as ciências da construção, mas o racionalismo era um meio, um instrumento precioso, mas um instrumento; isto é, a mente era uma servidora do homem de então e não a senhora absoluta e ditadora implacável em que hoje se transformou.
Por isso surgiram dogmas e tabus, vedando o acesso a explicações que estavam para além da mente racional. Por isso a ciência positivista tomou um papel preponderante, destronando todos os laivos da espiritualidade antiga – e as próprias religiões adotaram um procedimento semelhante, pois elas mesmas se eivaram de dogmas e obediências cegas, num esquema racional e material de conquista de poder.
Curiosamente, e depois de um longo período de negação absoluta, é a própria ciência de ponta que saiu da calha estabelecida para se aproximar dos processos descritos pela espiritualidade, confirmando muitas das suas propostas e encetando caminhos de investigação semelhantes.
No entanto, o poder dominante ainda é o mesmo que faz de cada homem um vigilante de si próprio e dos seus semelhantes, com receio de que o seu mundo racionalmente correcto se desmorone. Esse terror da mudança também se reflecte no desejo permanente de converter os outros à sua forma de ser e de pensar, em vez de, corajosamente, se lançar à descoberta de si próprio.
Mas tudo que tem um começo, também tem um fim. E tudo leva a crer que este ciclo de obscurecimento, de ilusão e de controlo, tem os seus dias contados.

REDESCOBERTA
Como se disse antes, a genuína sede de conhecimento fez romper as normas e está, agora, a produzir avanços, praticamente diários, em todos os campos da evolução humana. As áreas da ciência e da tecnologia são aquelas que mais transmitem a sensação de que o homem moderno ultrapassou tudo o que se havia conseguido no passado.
Mas será isso que sucede, como coisa nova e nunca vista? Ou será que o homem começou, finalmente, a ultrapassar o ciclo do seu próprio encarceramento, e a recuperar o nível de conhecimentos que tinha no passado?...
Porque essa é a grande questão: os avanços e as invenções de agora serão verdadeiramente novos ou corresponderão, antes, à redescoberta de um conhecimento já detido por civilizações antigas?
Se assim for, então poderemos perceber, cada vez melhor, as nossas origens, a nossa verdadeira História; e, ao saber de donde provimos, poderemos ter uma ideia, cada vez mais nítida, do nosso destino, ou para onde nos dirigimos…
Dito de outra forma: poderemos saber quem somos, individual e coletivamente.
Então, neste Caminho de peregrinação pelos alvores da humanidade teremos, inevitavelmente, que ir ao encontro da primeira grande cultura que plasmou e deixou gravados em milhares de placas de argila e rolos cilíndricos os seus relatos sobre a Historia do Homem: a Suméria.
Situada entre os rios Tigre e Eufrates, a Mesopotâmia foi o berço da Suméria, descrita como o lugar do Éden bíblico. Surgida, mais ou menos, há uns 6.000 anos (ou seja, por volta de 4.000 a.C.), tornou-se na primeira civilização conhecida, sendo-lhe atribuídos os mais elevados índices de cultura e desenvolvimento, que serviram de base a todas as demais civilizações e culturas da Terra.
Nas referidas placas de argila, os sumérios deixaram o registo do seu saber, nomeadamente o relato assombroso da origem e transformação do homem. Estes textos são, no entanto, muito pouco conhecidos, porque não são gratos ao poder que domina, na sombra, a humanidade e que utiliza os governos subalternos dos países, bem como as religiões dogmáticas, para impor as suas regras de controlo.
A Suméria, que se situava no sul da antiga Mesopotâmia, ocupava o território que hoje conhecemos como Iraque. Daí que sejam legítimas as maiores dúvidas sobre os motivos que levaram os EUA a invadirem, recentemente, aquele país e a tomarem posse de tudo o que ele contém.
Porque o conhecimento tem um valor que deixa o petróleo a perder de vista…

 SUMÉRIA
No séc.XIX, quando a arqueologia descobriu por debaixo das areias da Mesopotâmia e da Síria, milhares de placas de argila e de cilindros, totalmente gravados, com registos referentes à época dos patriarcas bíblicos e a outros períodos muito anteriores, o mundo deveria ter rejubilado.
Mas o mundo não soube e continua, maioritariamente, a não saber de nada. Nem a querer saber.
No entanto, a existência desses relatos escritos, cuja publicação só veio a lume na segunda década do séc. XX (e sempre discretamente e com propositada sobriedade noticiosa), evidencia que alguns deles foram, nada mais nada menos, do que o fundamento e o modelo de que se serviram mais tarde os israelitas para escreverem o Génesis!
O porquê de tanta “discrição compulsiva” reside no facto dos relatos descobertos se revelarem, de facto, como fontes do Antigo Testamento mas, em inúmeras passagens, se mostrarem muito diferentes da escritura canónica aprovada.
A este propósito, escreve Lawrence Gardner no seu sólido livro “A Estirpe do Santo Graal”: “Os relatos históricos eram familiares, e os personagens e os lugares eram facilmente reconhecíveis como protótipos integrantes do Antigo testamento, mas os diversos conteúdos eram tão diferentes da escritura aprovada que a sociedade doutrinada e as autoridades que a governavam se sentiram imediatamente ameaçadas.”
Foi assim que saltaram os alarmes dos poderes religiosos e políticos, seus aliados, que tudo fizeram para manter a informação longe da sociedade por eles controlada. Sociedade que, por sua vez, também preferiu manter-se sob a segurança de uma descrição histórico-religiosa conhecida, em vez de encarar factos que poderiam fazer ruir os pilares onde ela, comodamente, se apoia. 
Resultado: o dogma não só sobreviveu como se impôs à evidência documental, e a história bíblica oficialmente aprovada continua a ensinar-se e a invocar-se em escolas e igrejas, enquanto os documentos que estiveram na origem dessas mesmas escrituras são ignorados.

ADÃO
A Mesopotâmia representava já uma vanguarda civilizacional desde há uns 10.000 anos a.C., mas foi quando a sua região sul se destacou como Suméria, por volta do ano 4.000 a.C., que ali se produziu um repentino e acentuado avanço cultural e civilizacional, acompanhado por uma inacreditável revolução técnica, que adiantou a sociedade suméria em milhares de anos face ao processo natural de desenvolvimento.
Se atendermos às condicionantes deste processo natural, ligado às teorias evolucionistas de Darwin, notamos que o homem demorou cerca de um milhão de anos a perceber que podia fragmentar e afiar as pedras; que foram precisos mais quinhentos mil anos para que as transformasse, deliberadamente, em instrumentos de trabalho, e outros cinquenta mil para que descobrisse a metalurgia e os rudimentos da agricultura. Ou seja, as conquistas que marcaram a evolução do homem foram sempre muito lentas e difíceis e, nessa lentidão exasperante de cada passo, decorreram eras inteiras pré-históricas.
Mas, de súbito, dá-se um salto inexplicável na evolução, com o surgimento aparentemente espontâneo do homo sapiens e outro salto, ainda mais fabuloso, quando se chega à Suméria, terra de Adão.
Ali, inexplicavelmente, segundo as leis observadas pelo processo natural, terá ocorrido algo misterioso que rompeu definitivamente esse processo e deixou os historiadores académicos estupefactos e os darwinistas perdidos.
Segundo a evolução natural, o homem de hoje seria o que ainda são algumas tribos de África e da Austrália, ou, quando muito, a sua elite civilizacional estaria, ainda, a uma larguíssima distância da mais elementar compreensão da matemática… Mas o que quer que tenha sucedido na Suméria, permitiu que o homem de hoje, apenas 6.000 anos passados, se lançasse na conquista do espaço!...
O que terá quebrado a cadeia natural e se encontra por detrás de tudo isto?
As placas sumérias respondem, cabalmente, a esta questão.

MISTÉRIO
Entre os diversos investigadores especializados na Suméria, permito-me destacar o autor das “Crónicas da Terra”, Zecharia Sitchin. Não porque compartilhe todas as conclusões que retira da tradução das placas, mas porque foi dos primeiros em fazê-lo e em dar a cara, com a publicação dos seus livros.
Relata Sitchin, no “Génesis Revisitado”, que os textos cosmológicos, astronómicos e históricos dos sumérios insistem em que existe mais um planeta no nosso Sistema Solar, a que chamam Nibiru e cuja órbita passa entre Marte e Júpiter, a cada 3.600 anos: “Os textos sumérios repetem, insistentemente, que foi desde esse planeta que os Anunnaki vieram à Terra. Este termo significa, literalmente, “Aqueles que do Céu à Terra Vieram”. A Bíblia a eles se refere como os Anakim e, no capítulo 6 do Génesis, também lhes chama Nefilim que, em hebreu, significa o mesmo:"Aqueles que Baixaram do Céu à Terra".
Segundo as fontes sumérias, foram os Anunnaki que lhes ensinaram tudo o que lhes permitiu tornarem-se num modelo de civilização. Mas, muito mais do que isso, e sempre segundo os textos sumérios, foram os Anunnaki que utilizaram a manipulação genética e determinadas técnicas de fertilização in-vitro para criarem, muitos milhares de anos antes (isto é, há cerca de 300.000 anos), o primeiro homo sapiens, a partir do homem primitivo de então.
Pelo que os sumérios nos transmitiram, em documentos históricamente válidos, aí temos o “elo perdido”, reencontrado desta forma, porventura, desconcertante!...
Mas será tão desconcertante assim?...
A presença extraterrestre na transformação do homem, o seu acompanhamento e intervenção nalguns períodos da história da humanidade, tal como nos nossos dias, por muito que choque a sociedade em que vivemos (o que já nem sequer acontece…), não choca de modo algum os poderes que a governam, pois estes conhecem, por demais, a realidade dessa presença. Na verdade, não é uma história de ficção o facto de alguns chefes políticos, militares e religiosos do nosso tempo terem tido encontros secretos com representantes de civilizações extraterrestres, nos quais foram pactuados tratados e convenções, envolvendo determinadas tecnologias, e que esses contactos tenham continuado até hoje, desencadeando inúmeros projectos “Top Secret”, cuja extensão poderá, um dia, vir a ser conhecida.

ADN
Mas reiterando o que já é conhecido e está publicado nos dias de hoje, provindo das fontes sumérias citadas, foram mesmo seres desconhecidos, oriundos das estrelas ou, mais propriamente, do planeta Nibiru que, numa expedição à Terra, há cerca de 500.000 anos atrás, encontraram e transformaram o homem autóctone, de então, no homo sapiens. Mais tarde, esse protótipo foi substancialmente melhorado com a criação do Adão bíblico, que permitiu ao homem de agora ser o que é. A melhoria extraordinária da raça terá, depois, atingido o auge, reflectido no esplendor civilizacional da Suméria, quando o homem novo experimentou uma convivência determinante com os seus criadores.
Ora a transformação genética implicou, logicamente, mexidas no ADN humano, onde também terá ficado gravado uma espécie de “memória do acto” , junto com  todo um potencial de conhecimento reservado.
Ou seja, a partir daí o homem assumiu a sua condição de caminhante em busca de si próprio e, do mesmo modo, foram depois estabelecidos os Mistérios Iniciáticos, precisamente para o ajudar a coordenar esse processo de auto-revelação.
O desafio que tem pela frente consistirá, então, em percorrer todo um caminho interno, enfrentando o conflito entre a luz e a escuridão, através dos meandros do seu próprio ADN, até atingir o potencial que transporta em si, tomando posse do conhecimento que leva guardado dentro.
Com o passar dos milénios, aquele caminho interno, ideal, veio a deter várias outras expressões pelo lado de fora, criadas de forma iniciática, para auxiliar e conduzir o homem ao conhecimento de si próprio.
Por isso, é tão importante percorrer um determinado caminho externo virado para dentro, e nele esgotar o cansaço físico, mental e espiritual, renovando e transmutando energias. E se esse caminho tiver sido traçado na mais remota antiguidade e se tiver mantido, através de tempos sem fim, como rota sagrada, congregando os esforços dos milhões de peregrinos que por ali passaram, então o seu valor será incalculável.
Não existem muitos caminhos desses no mundo. Um deles, porventura o mais importante da actualidade, é o que conhecemos como o Caminho de Santiago!

 ATLÂNTIDA
Uma outra questão que se liga com as origens mais remotas do Caminho, e que oscila entre o mito e a realidade, é a que se refere ao continente perdido da Atlântida.
De facto, a existência da Atlântida levanta uma polémica que a ciência e a historiografia oficiais resolvem num ápice, remetendo tudo para o domínio da fantasia. Mas a questão fica arrumada?... Pelas datas envolvidas, o homem paleolítico poderia ter sido contemporâneo dos atlantes, ainda que vivendo na sua periferia, e estes teriam influído fortemente na sua evolução, com consequências históricas provadas e indesmentíveis, mas que deixam esse súbito progresso sem qualquer explicação. Se a Atlântida fosse uma fantasia, quem mais o teria feito?...
Tal como, hoje em dia, um cientista de topo da NASA habita no mesmo planeta e na mesma época em que um selvagem seminu atira setas nos confins da África, assim o homem atlante, de cultura infinitamente superior, vivia na mesma época em que, noutra parte do mundo, lutavam pela sobrevivência os homens primitivos do Paleolítico Superior. E como também sucede nos nossos dias, com o envio de expedições científicas e humanitárias aos lugares mais recônditos e atrasados do planeta, também os atlantes, nas suas deslocações por outras zonas do globo, terão contactado aqueles povos primitivos, a quem ensinaram, antes e depois do cataclismo que afundou a Atlântida, técnicas e conhecimentos que impulsionaram decisivamente o seu progresso. De facto, e por si só, o homem do Cro-Magnon não poderia ter dado um passo tão grande na sua evolução em tão curto espaço de tempo.
Não existem sinais evidentes desse contacto no período seguinte, o Mesolítico, devido às grandes e profundas transformações na estrutura geológica e climatérica da Terra. Ou por outras palavras mais concludentes: o contacto terá sido interrompido devido ao afundamento da Atlântida.
Mas, no final desse período Mesolítico surgiram, em inúmeras vertentes atlânticas, restos e sinais de uma civilização muito superior à autóctone, provavelmente também desaparecida nos referidos cataclismos geológicos.
E os historiadores têm dificuldade em explicar porquê…
É certo que não existem provas materiais que atestem a realidade da Atlântida, mas também não é possível provar que ela nunca existiu. Ou seja, para além de oferecer explicações e soluções de continuidade, nada se opõe àqueles que optam por acreditar que o continente atlante fez parte da face da Terra.
Mas os que pensam assim podem sentir o apoio confortável de estarem ao lado do grande Platão, que nos seus diálogos “Timeu e Crítias” refere a existência da Atlântida, revelada a Sólon por sacerdotes egípcios.
Também a Teosofia, pela voz respeitada de Helena Blavatsky, se debruça sobre a questão da Atlântida. Assinala, inclusive, que terá sido há uns 800.000 anos que se afundou a parte mais extensa do continente, tendo restado duas ilhas: Rutha e Daitía,  correspondendo, actualmente, às ilhas espanholas das Canárias e às portuguesas dos Açores.
Passados 600.000, anos teria sucedido o afundamento de uma outra parte, deixando a Atlântida reduzida a uma só grande ilha, com o nome de Poseidónis. Essa ilha mantinha uma ligação com Gades (a actual Cádiz, no sul de Espanha) através de uma cadeia de ilhas menores.
Refira-se que foi esta última ilha atlante – Poseidónis – que Platão referiu na citada obra.
Finalmente, mais ou menos 200.000 anos depois (correspondendo a cerca de 10.000 antes da era cristã), terá sucedido o desastre definitivo, com o afundamento de Poseidónis. Esse cataclismo poderá ter provocado a abertura do actual estreito de Gibraltar, com a separação e o levantamento das Colunas de Hércules.
A Atlântida desaparecia, assim, da face da Terra.
Mas mesmo tratando-se de um cataclismo cósmico, poderão ter existido sobreviventes: homens e mulheres atlantes que, avisados, tomaram os seus barcos e largaram a tempo da ilha de Poseidónis, rumando a lugares seguros que conheciam de viagens anteriores.
Os sobreviventes da Atlântida confundem-se, muitas vezes, com a versão multiplicada do Noé bíblico. No entanto, haverá uma diferença entre o cataclismo geológico que provocou o afundamento da Atlântida e aquele outro fenómeno que a Bíblia descreve como o Dilúvio, que só terá sucedido alguns milhares de anos mais tarde, numa parte da Suméria dirigida pelos Annunaki. Mas esta é uma questão que tem confundido os próprios investigadores mais especializados.
A não ser que os Annunaki quando, pela primeira vez, “desceram do Céu à Terra”(o que, segundo Sitchin, poderá ter ocorrido há uns 500.000 anos) tivessem mantido alguma relação com a civilização atlante, já então reduzida ao espaço de Poseidónis. Mas, a ter havido, que tipo de relação terá sido aquela que, inclusive, os confunde entre si, não na memória que se apagou, mas no inconsciente colectivo da humanidade, que se lembra sem se lembrar?...
Ainda no que respeita à Atlântida, uma parte desses sobreviventes, transformados, ocasionalmente, em deuses pelos povos primitivos que os receberam, permaneceu na frente atlântica europeia, isto é, nas costas da Ibéria. Com o decorrer dos milénios, uma outra parte passou para o norte de África e foi estabelecer-se a Oriente, nas zonas férteis dos grandes rios como o Nilo, o Tigre e o Eufrates, e o Indo.
Foi assim que a Pré-História deu, oficialmente, lugar à História, com o arranque das primeiras e mais importantes civilizações reconhecidas: Egipto, Suméria e Mohenjo Daro, na Índia.
Estava-se, mais ou menos, no ano 4.000 antes da era cristã.

 RENASCIMENTO
Do mesmo modo que os atlantes que vieram do mar ocuparam um lugar de destaque na mitologia dos povos que os receberam, as suas naves, como sinal externo da chegada da sabedoria divina, também se converteram em objectos de culto. Por isso, navegar, cruzar o mar ou penetrar ousadamente nos seus mistérios como fizeram, muito mais tarde, os navegadores portugueses que deram “novos mundos ao mundo”, converteu-se numa arte de iniciados. Acrescente-se que, ainda hoje, os corpos arquitectónicos das igrejas cristãs se chamam “naves”.
A este propósito, escreveu Juan Atienza no seu livro “Os Sobreviventes da Atlântida”: “Ao longo dos séculos, a barca – e, por conseguinte, quem a ocupa -, converter-se-á em símbolo de iniciação. Simão Pedro aparecerá nos Evangelhos como pescador e será o portador da chave. Lohengrin, o Cavaleiro do Cisne da mitologia germânica, chegará numa barca desde um lugar desconhecido. O próprio corpo do apóstolo Santiago chegará a Iria Flávia noutra barca, lançada sem rumo pelos seus discípulos no oriente mediterrânico. Essa barca terá percorrido, apenas com a força do sopro divino, a rota do Sol, originando, com a sua mítica chegada às costas galegas, o indício mais evidente – a mais diáfana chamada de atenção – sobre uma das peregrinações mais constantes e controvertidas da História.”
Alguns barcos atlantes que escaparam ao desastre cósmico, aportaram nas costas da Ibéria, levando as sementes de um conhecimento superior e, portanto, de um desenvolvimento civilizacional a todos os níveis. Ora a recordação da chegada daqueles mestres primordiais, portadores da sabedoria divina, foi perpetuada ao longo de eras sem fim e a sua memória, ainda que distorcida, deu origem a inúmeras peregrinações e romarias, precisamente nos lugares que mais adentravam aquele mar, isto é, nos cabos ocidentais da Península Ibérica.
De facto, ainda hoje, em muitos cabos das costas de Portugal e da Galiza (a vertente atlântica europeia) se celebram festas e romarias de temática religiosa-marítima, como sucede nos cabos Espichel e da Roca, em Portugal, e no cabo Finisterra, na costa galega, onde os romanos diziam que terminava o mundo. E onde termina, verdadeiramente, o Caminho terrestre de Santiago.
Entre a cidade de Santiago e o cabo Finisterra fica a ria de Nóia e, junto a ela, a vila do mesmo nome. Um nome que recorda a presença de um “Noé”, sobrevivente a um cataclismo que a tradição local classifica como o Dilúvio. Diz a mesma tradição que aquela povoação foi originalmente fundada por Noela, uma filha do Patriarca Noé, que ali aportou com a sua Arca, que se encontra enterrada algures, na serra limítrofe da Barbanza. Sobre o escudo de Nóia pode ver-se uma imagem da mesma Arca, imortalizada pelo Antigo Testamento.
Esta Nóia galega, centro ideal de uma área onde se encontram a maior parte dos numerosíssimos dólmens e petróglifos de uma Galiza sagrada, encontra-se a escassos 30 Km da cidade mágica de Santiago de Compostela, também ela ligada à obtenção de conhecimentos ocultos. E que, segundo a lenda, por via de um ser que, mesmo morto, também chegou à costa galega depois de uma longa viagem por mar…
A crença em seres marinhos, descendentes dos tritões e surgindo nas praias encantadas da Galiza, foi sempre uma constante na tradição popular. Dela nos dá conta, já em 1570, o padre Torquemada, nas páginas do seu livro “Jardim de Flores Curiosas”. Também não deixa de ser curioso que a fonte mais famosa de Santiago, situada na praça das Platerias, junto à entrada sul da catedral, tenha quatro grandes Cavalos Marinhos rodeando a figura do apóstolo Santiago, como uma "Quinta Coisa", surgida do mar e tendo por cima a Estrela... Ou seja, simbolizando que o Caminho aberto por esta "espiritualidade ibérica" conduzirá ao "Quinto Império", anteriormente referido, como transformação global da humanidade.
Toda a Galiza, como sucede com uma boa parte de Portugal, está coberta de monumentos megalíticos, assinalando o percurso intraterreno das veias telúricas do planeta. O que pressupõe, como tenho vindo a defender, um conhecimento deveras assombroso e, em muitos casos, acima do actual, por parte dos povos que os erigiram, pré-classificados como primitivos e arquivados na gaveta ainda indefinida da Pré-História. Mas a Pré-História não tem que ser “Pré” de nada, como um documentário antes do filme principal, porque, em si mesma, constitui uma verdadeira e maravilhosa História, tão ou mais rica em acontecimentos transformadores da humanidade quanto a outra que se lhe seguiu.
Portanto, Sitchin tem razão quando afirma que o verdadeiro enigma não radica no retrógrado das sociedades primitivas mas no nosso próprio progresso…
Todos sabem que os Templários, herdeiros de algum desse conhecimento ancestral, se ofereceram para ajudar os reinos cristãos na Reconquista da Península Ibérica aos árabes. Mas o que se sabe menos é que, como troca da sua ajuda, solicitavam a posse de certos lugares conquistados e criteriosamente escolhidos por antecipação. Na verdade, eram lugares associados a centros de cultura megalítica!... Foi assim que os Templários se tornaram nos principais defensores do Caminho de Santiago.
Já foi explicado que esse Caminho não era de Santiago, nem pertencia a nenhuma Igreja, mas sim a todos aqueles que buscavam o conhecimento. Perdidas no tempo, as primeiras peregrinações, muito mais do que a expiação dos pecados, buscavam nas finisterras ibéricas o ensinamento dos mestres que tinham vindo do mar, transmitido por núcleos de ensino instalados nos cabos ou na sua zona de influência. E assim se foi estabelecendo, sobre os demais, um Caminho síntese, assinalado por forças telúricas e demarcado pelas estrelas.
 Um Caminho totalmente pagão que, muito mais tarde, a Igreja Católica triunfante, constatando a impossibilidade de o destruir, de tão arreigado que estava á tradição popular, cristianizou com o nome do apóstolo Santiago.

ARQUIVO
A Ibéria fez, no passado, o papel de charneira ou de ponte entre mundos, por onde passou a luz da civilização, ou o brilho da consciência humana, de Ocidente para Oriente, marcando o início da História. Ou de uma nova História.
Mas naquele distante berço oriental persistiu a recordação de uma terra mágica, no Ocidente, onde haviam chegado, primeiro, os primeiros mestres. E essa terra tornou-se na meta sonhada para a qual, um dia, se dirigiriam, novamente, os vivos e os mortos.
 Os vivos e os mortos porque o trajeto de volta ao Ocidente, sendo um percurso traçado na superfície da Terra e, portanto, de ordem física, dizia, sobretudo, respeito às almas, ou melhor, às chispas divinas ou mónadas que deveriam reencarnar ao longo desse percurso, o que o tornava, essencialmente, espiritual. Por isso, a grande maioria dos túmulos egípcios e mesopotâmicos se encontram voltados para o Ocidente.
O eminente teósofo Henrique José de Souza, em cuja Obra se fundamenta a atual Eubiose, dá o nome de Itinerário de Osíris (ou IO) àquele percurso de consciência de “vivos e mortos” que seguem o mesmo itinerário do Sol, que nasce a Oriente e se põe a Ocidente.
Actualmente, supõe-se que o ponto da consciência, em marcha pelo referido Itinerário, esteja focado na Europa. Ora a Ibéria é a extremidade mais ocidental da Europa e, novamente, com um papel fundamental em todo o processo: um papel de charneira, de ponte entre mundos ou entre continentes, determinando a passagem da Europa para o continente americano.
O Professor Henrique José de Souza afirma que na Ibéria se encontra o “Arquivo” espiritual da atual “Raça Humana” (definida sempre como “Estado de Consciência”) e, portanto, constitui a pauta por onde se deverá reger esta nossa cultura ou civilização.
Para ter acesso ao conteúdo do Arquivo ibérico existem vários processos, ou caminhos que a ele conduzem. Creio que, um deles, é o Caminho de Santiago.
Atravessando a Ibéria como um Caminho síntese do Itinerário maior de Osíris, ou do Sol, o Caminho de Consciência de Santiago poderá, assim, proporcionar uma recapitulação de todas as etapas daquele outro Itinerário. Ou seja, o peregrino-iniciado que o percorre poderá ter acesso ao Arquivo e, mais do que isso, transformar-se, ele próprio, no Arquivo vivo da Ibéria e da Raça Humana. Aliás, pode dizer-se que o Quinto Império espiritual será como que a exteriorização ou a abertura daquele Arquivo ao mundo inteiro, sob a presença e a direção de um Guia muito especial...
O Caminho de Santiago divide-se em dois trajectos fundamentais: o primeiro, partindo de várias origens,  leva à catedral de Santiago de Compostela, onde se encontra o suposto túmulo do Apóstolo – é o Caminho do Encontro de cada um consigo mesmo e da consequente Transformação. O segundo, parte de Santiago e termina no cabo Finisterra – é o Caminho da Transcendência, em que cada um, identificado com quem é e transformado pelo que caminhou, se supera a si mesmo e avança, decididamente, para a metástase com as estrelas.
Por isso, quando a terra do Caminho termina no cabo do fim-do-mundo, poderá surgir o impulso definitivo para a elevação interior, que lança o peregrino- iniciado ao encontro das estrelas da Via Lactea que sempre lhe serviram de tecto.
Mas no final da via Lactea, encontra-se a constelação do Cruzeiro do Sul que se apresenta, assim, como o fecho glorioso e culminante do Caminho das Estrelas e dos seus mistérios. Fecho e continuidade, em simultâneo, ou um final que se funde num outro início, como um cais que tanto é de chegadas como de partidas... 

Ao falamos no Cruzeiro do Sul, teremos também que falar do hemisfério sul (onde somente aquela constelação é visível), nomeadamente do Brasil, onde Henrique José de Souza diz que termina, igualmente, o Itinerário de Osíris. Por esse motivo e a propósito do papel de Portugal na instauração do Quinto Império espiritual que, como tenho vindo a defender, tudo tem a ver com o Caminho Ibérico das Estrelas, acrescenta Agostinho da Silva que "um companheiro deve Portugal ter no duro caminho que terá que trilhar e esse companheiro se chama Brasil".
Mas no que respeita, directamente, ao percorrer do Caminho de Santiago não podemos esquecer que os sapatos do peregrino ficaram em Finisterra.
 Ou seja, que o Caminho, a partir daí, deixou de ser pelo chão.

PARTIR
O homem original detinha um vínculo com o divino por onde fluía o Tao, o absoluto, o inominável, e que o harmonizava com a natureza, da  qual se sabia parte integrante e indissociável. Esse vínculo foi-se perdendo, à medida que começaram a aparecer os nomes e as classificações, e se criavam definições, conceitos e instituições – isto é, à medida que se instalava o predomínio da mente. Foi assim que surgiram as regras e, com elas, a moral, a dignidade, a virtude, a ética, a justiça, a bondade, a filantropia e todos os outros grandes sentimentos e pilares da sociedade, controlados, claro está, pela mais estrita racionalidade.
Tudo isso só emergiu devido à desarmonia causada pela interrupção do fluxo, que levou à tentativa de remediar a falta por uma outra via, necessariamente artificial. Mas se houver uma revolução de consciência, o Tao voltará a fluir de forma simples e natural.
Soltando as nossas amarras mentais, o Caminho de Santiago é, assim, o Caminho das Novas Descobertas, no sentido que lhe atribuía Fernando Pessoa: não mais a descoberta de novos mundos físicos, mas a dos diversos planos espirituais. Por isso, quem faz, agora, o Caminho tem o direito de reclamar para si o mesmo sentido da frase gloriosa dos navegadores-iniciados portugueses que partiam em busca de novos horizontes e sentiam no rosto e na alma o vento da liberdade: “Navegar é preciso! Viver não é preciso!”.
Na verdade, viver uma vida de doméstica escuridão, aprisionada às ideias e aos objectivos que outros nos inculcaram nas mentes, será viver?... E, com a legítima obsessão de sermos livres, não teremos caído na mais tenebrosa escravidão, permanecendo auto encarcerados pela ideia que nos foi servida de liberdade?... Decididamente, viver assim não é preciso! E essa constatação é reveladora e faz-nos partir ao encontro do sonho espiritual que nos diziam que não existia… Por isso, com uma entrega total e lúcida ao Caminho, dirigimo-nos à Finisterra das nossas vidas.
 Ao optarmos por esse percurso, retomamos a frase antiga dos descobridores de mundos expressa, agora, deste outro modo: “Viver não é preciso! O que é preciso é Caminhar!”

MEMÓRIA
Caminhar, percorrer o Caminho em toda a sua extensão, significa romper o status em que vivemos. Ao fazê-lo, estaremos, também, a honrar todos aqueles que, como o galego Prisciliano, igualmente o ousaram romper.
No caso de Prisciliano, naquele longínquo século IV, a sua pretensão audaz de que a Igreja Católica nascente abandonasse a soberba e a sede de poder, em que já se consumia, para regressar à pureza dos ensinamentos primordiais de Jesus, foi tomada como uma afronta. E a Igreja não perdoou: perseguiu, torturou e condenou Prisciliano à morte por decapitação.
Do mesmo modo, no nosso tempo, a ousadia de pretendermos chegar a uma transformação e a uma superação de nós mesmos, através do Caminho de Consciência de Santiago, também nos deverá custar a cabeça. Não às mãos do carrasco, mas às nossas próprias e com a espada de Santiago, pois  essa é a sua função - não a de matar mouros!
Isto é, se não tomarmos a espada de Santiago e com ela fizermos rolar as nossas cabeças, programadas por séculos e séculos de educação judaico-cristã e formatadas pelo poder social controlador, o Caminho terá sido em vão.

Recordemos: Viver não é preciso! Caminhar é preciso!

Salvé Prisciliano, morituri te salutant!