15 de ago de 2016

QVINTO IMPÉRIO, ESPERANÇAS DO MUNDO (O EVANGELHO DA IBÉRIA - capítulo 1)






A instauração do Quinto Império no mundo, sendo universal, é um sonho português.

Para uns, um sonho bom, que prenuncia uma realidade intuitiva, mais real que todos os fatos materialmente comprováveis, e que desagua naquele futuro que Fernando Pessoa dizia conhecer e sobre o qual tanto escreveu. Parafraseando-o: “o futuro de Portugal, que não calculo mas sei, está escrito nas trovas do Bandarra e nas quadras de Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. ”

Para outros, não passa de um sonho efémero e de uma ilusão doentia. Ou seja, através da dialética material racionalista, todo o fenómeno se reduz à “mania mansa dos sebastianistas”, como a classifica Lúcio de Azevedo, colocada no mesmo saco da “aberrante maluquice, peculiar de escassa data de alienados pacíficos”, como também lhe chamou Sampaio Bruno.

Procurarei identificar as origens desse sonho quinto imperial, com o qual me identifico, bem como o seu significado e as suas relações com a alma portuguesa; obviamente, não me sentindo alienado por nenhuma doutrina ou corrente espiritualista e valendo-me, também, do espírito crítico e racional, que separa uma análise séria da mera apologia. 

Os Descobrimentos dos portugueses trouxeram uma primeira mundividência, essencial para se alargar a toda a humanidade um determinado programa profético... Sobriamente, sem exibicionismos  ou vãs glorificações, essa sempre foi a sua função como povo e, “dos mares nunca de antes navegados” de então, que abriram os caminhos do futuro, passaram já às Novas Descobertas do espírito, pois este outro Império só poderá construir-se com valores espirituais, ainda que assentes numa base material, pois pertence a este mundo.

 A um outro ciclo, mas a este mundo.

Como, afinal, sucede com a noção de “Pátria” para os portugueses que, depois de haverem traçado as suas fronteiras físicas, que são as mais antigas da Europa, as alargaram, depois, para as da Língua – “a minha Pátria é a língua portuguesa”, escreveu Fernando Pessoa, estabelecendo uma última referência à sua localização geográfica, muito mais ampla e religada internamente àquela extensão metafísica onde o amor não tem nacionalidade e o pensamento é livre e universalista... 

Ou seja, uma Pátria que também assenta no mundo, mas que se configura, essencialmente, como esteira ou leito por onde corre o Tao, como diriam alguns orientais.

É essa Pátria, futura sede quinto imperial, que os portugueses, serenamente, teimam em instaurar na face da Terra. E daí, também, a minha referência ao “sonho português” que, obviamente, transcende qualquer nacionalismo.

Fernando Pessoa dedica este poema ao Quinto Império:

“Triste de quem vive em casa,
  Contente com o seu lar,
  Sem que um sonho, no erguer de asa,
  Faça até mais rubra a brasa
  Da lareira a abandonar!

  Triste de quem é feliz!
  Vive porque a vida dura.
  Nada na alma lhe diz
  Mais que a lição da raiz –
  Ter por vida a sepultura.

  Eras sobre eras se somem
  No tempo em que eras vem.
  Ser descontente é ser homem.
  Que as forças cegas se domem
  Pela visão que a alma tem!

  E assim, passados os quatro
  Tempos do ser que sonhou,
  A terra será teatro
  Do dia claro, que no atro
  Da erma noite começou.

  Grécia, Roma, Cristandade,
  Europa – os quatro se vão
  Para onde vai toda idade.
  Quem vem viver a verdade
  Que morreu D. Sebastião? ”

Percebemos que Fernando Pessoa se refere à sucessão de quatro impérios, desembocando, logicamente, no quinto.... Ora a existência e o desaparecimento de quatro grandes impérios, porque imperfeitos e caducos, dando lugar ao quinto, futuro e definitivo, é igualmente referida pelo profeta bíblico Daniel, como consta no Antigo Testamento.

Detenhamo-nos, então, no Livro de Daniel.

Nele podemos ler que, “no segundo ano do seu reinado, o rei assírio da Babilónia, Nabucodonosor, teve um sonho que lhe turvou de tal modo o espírito, que o impediu de dormir. Mandou chamar os magos e adivinhos, os feiticeiros e os caldeus, para que o interpretassem, dizendo:
 – Se não me expuserdes o conteúdo do sonho e a sua interpretação, sereis cortados em pedaços e as vossas casas arrasadas. Porém, se me revelardes não só o sonho, mas também o seu significado, recebereis dádivas e grandes honrarias.
Colocados perante tal obstinação do rei (“Vamos, dizei-me o que sonhei, pois só assim saberei se sois capazes de lhe dar a interpretação...”), os caldeus, finalmente responderam:
 – Não há homem sobre a terra capaz de descobrir o segredo do rei e, por isso, nenhum rei, por grande e poderoso que seja, exigiu, alguma vez, tais respostas a um mago, adivinho ou caldeu. O que o rei pede é difícil e ninguém poderá dar a solução, exceto os deuses, mas eles não vivem entre os seres de carne.
Furioso, o rei Nabucodonosor assinou um decreto que mandava executar todos os sábios de Babilónia, incluindo Daniel e os seus companheiros (os judeus ali permaneciam, em cativeiro). Mas Daniel dirigiu a Aryok, chefe da guarda real, propostas prudentes e sensatas. Disse Daniel:
 – Não mates os sábios de Babilónia. Leva-me até junto do rei para que lhe dê a explicação.
Apressou-se Aryok a conduzir Daniel junto do rei, falando deste modo:
 – Encontrei, entre os deportados da Judeia, um homem que pode dar ao rei a explicação que deseja!
O rei tomou a palavra e disse a Daniel:
 – És tu capaz de me dizer o sonho que tive e a sua interpretação?
Respondeu Daniel:
 – O mistério que o rei quer saber, nem sábios, magos, adivinhos ou astrólogos seriam capazes de o revelar. Porém, no céu há um Deus que desvenda os mistérios e que quis revelar ao rei Nabucodonosor o que vai acontecer no final dos dias.
Ó rei, os pensamentos que agitavam a tua mente no leito, referiam-se a eventos no futuro e aquele que te desvenda o que é secreto te dá a conhecer o que então sucederá. A mim, sem que possua mais sabedoria que qualquer outro ser vivente, foi-me revelado este mistério com a finalidade de dar ao rei a sua interpretação, para que conheças os pensamentos do teu coração.
Tu, ó rei, tiveste esta visão: uma estátua, uma enorme estátua, de um brilho extraordinário, mas de um aspecto terrível, levantava-se por diante de ti. A cabeça era de ouro fino, o peito e os braços de prata, o ventre e as ancas de bronze, as pernas de ferro e os pés, metade de ferro, metade de barro. Tu contemplavas esta estátua quando, de repente, uma pedra se desprendeu da montanha, sem intervenção de mão alguma, e veio embater nos pés da estátua, de ferro e argila, e os pulverizou. Então, tudo o mais ficou igualmente pulverizado: o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro, que ficaram como a moinha que, no verão, voa da eira, levada pelo vento e sem deixar qualquer vestígio. A pedra que havia golpeado a estátua, converteu-se numa alta montanha, que encheu toda a terra. Este foi o sonho. Agora vamos dar ao rei a sua interpretação. Tu ó rei, o rei de reis, a quem o Deus do céu concedeu a realeza, império, poder e glória – os filhos dos homens, os animais do campo, os pássaros do céu, onde quer que habitem, deixou-os nas tuas mãos e fez de ti o seu soberano –, tu és a cabeça de ouro. Depois de ti, surgirá outro reino, inferior ao teu, depois um terceiro reino, o de bronze, que dominará a terra inteira. E haverá um quarto reino, forte como o ferro; assim como o ferro tudo quebra e esmaga, assim este esmagará e aniquilará todos os outros. E o que viste, os pés e os dedos, em parte de argila, em parte de ferro, indicam que este reino será dividido; haverá nele a solidez do ferro, conforme viste o ferro misturado com argila. Os dedos dos pés, parte de ferro e parte de argila, significam que o reino será ao mesmo tempo forte e frágil. Se viste o ferro junto com o barro, foi porque as duas partes se uniram por descendência humana, mas não se aguentarão juntas, do mesmo modo que o ferro não se mistura com a argila. No tempo destes reis, o Deus do céu fará surgir um reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca passará a outro povo. Pulverizará e aniquilará a todos estes reinos, e subsistirá eternamente; tal como viste a pedra desprender-se do monte, sem intervenção de mão alguma, e reduzir a pó o ferro, o bronze, a argila, a prata e o ouro. O grande Deus fez conhecer ao rei o que há-de suceder no futuro. O sonho é verdadeiro e a sua interpretação digna de confiança.
Então o rei Nabucodonosor atirou-se de face contra a terra, prostrado diante de Daniel, e ordenou que se lhe oferecessem oblações e aromas calmantes. O rei tomou a palavra e disse a Daniel:
– Verdadeiramente, o vosso Deus é o Deus dos deuses e senhor dos reis, o revelador dos mistérios, já que tu pudeste revelar este mistério.
O rei conferiu a Daniel um alto cargo e lhe ofereceu muitos e magníficos presentes. Nomeou-o governador de toda a província da Babilónia e chefe supremo de todos os sábios da Babilónia.”

                                                            ***

O Quinto Império nasceu, assim, com raízes hebraicas, pois a sucessão em causa de reinos, ciclos ou impérios, assenta naquela mesma interpretação do profeta Daniel ao sonho do rei Nabucodonosor. A montanha que preenche toda a terra, representando o quinto reino, ou futuro ciclo para lá da História, definitivo, estável e perfeito, será o Quinto Império.

É isso mesmo que deduz o padre António Vieira: “Aquela pedra (...) que derrubou a estátua e desfez em pó e cinza todo o preço e dureza dos seus metais, significa um novo e Quinto Império, que o Deus do Céu há-de levantar no Mundo nos últimos tempos dos outros quatro. Esse Império os há-de desfazer e aniquilar a todos, e ele só, há-de permanecer para sempre, sem haver de vir jamais por acontecimento algum a domínio ou poder estranho, sem haver de ser conquistado ou destruído, como sucedeu (...) aos demais.”

E vai mais longe: “O primeiro império do Mundo, que foi o dos Assírios e dominou toda a Ásia, também foi o mais oriental. Dali passou aos Persas, mais ocidentais que os Assírios; dali aos Gregos, mais ocidentais que os Persas; dali aos Romanos, mais ocidentais que os Gregos; e como já tem passado pelos Romanos, e vai levando o seu curso para o ocidente, havendo de ser, como é de fé, o último império, aonde pode ir parar, senão na gente mais ocidental de todas?”

Também o Apocalipse de S. João se refere a um catastrófico “Fim dos Tempos” e ao surgimento, posterior e inimaginável, de uma era milenária de paz e de suprema felicidade para os homens. Essa nova era – denominada Millennium pelo autor do Apocalipse – renasceria das cinzas da História após a derradeira luta do "bem" ou do Cordeiro (simbolizando o segundo advento do Cristo), com o "mal", figurado pelo Anticristo, que sai completamente derrotado. O núcleo central do Millennium na terra, ou a capital espiritual desse reino milenário do futuro, seria uma misteriosa “Jerusalém Celeste”, a “morada de Deus com os homens” no mundo novo a haver... 

A era milenar mencionada no Apocalipse e que alguns pretendem que seja eterna, ou que dure “mil anos ou muitos mil...”, conforme António Vieira, corresponde, evidentemente, ao Quinto Império, sonhado pelos portugueses e empenhados em torná-lo realidade.

                                                                ***

O Livro da Revelação ou Apocalipse é atribuído ao evangelista João, que o terá escrito em Patmos, na Ásia Menor, durante o seu exílio em tempos do imperador Domiciano (81 – 96, d. C.) e constituiu sempre uma das leituras preferidas e mais recomendadas pelo gnóstico Prisciliano, o "Messias galego". Aliás, é no Apocalipse que se encontram todas as bases do messianismo cristão e do milenarismo, o que o converteu num dos Livros mais influentes na espiritualidade dos antigos povos cristãos, nomeadamente da Península Ibérica.

Na verdade, constatamos, com Manuel Gandra, que “ se persiste a dificuldade de esclarecer com precisão quais os conteúdos da maioria dos sistemas escatológicos outrora vigentes no atual território nacional, caso das teosofias celta, greco-latina e priscilianista, já nenhumas reservas acerca do seu significado suscita o Apocalipse de Lorvão (manuscrito português do século XII, iluminado, com um extenso comentário ao Apocalipse bíblico).

Juntamente com algumas dezenas de outros comentários similares, conhecidos pelo nome de Beatus, constitui uma impressiva manifestação do arianismo apocalíptico e quiliástico das comunidades moçárabes dos séc. VIII a XI, que no-lo legaram fazendo-o acompanhar do culto messiânico do Salvador (Agnus Dei) e da Mulher vestida de Sol, depois Nossa Senhora do Ó ou da Expectação, tão populares no círculo galaico-português, antecedendo em muitas centúrias o nascimento do sebastianismo. ”

Neste apanhado breve do pensamento que mais influenciou a génese da ideia quinto imperial, não se pode ignorar a Calábria, onde, no séc.XII, o abade cisterciense Joaquim de Flora formulou uma concepção trinitária da História, que dividiu em três grandes eras, estados ou idades. A primeira corresponderia ao Pai, sendo expressa pelo Antigo Testamento e regida pela lei mosaica; a segunda, seria a do Filho, apoiada no Novo Testamento e apropriada pela estrutura eclesiástica romana; finalmente, a terceira, a Idade do Espírito Santo, resultaria de uma ruptura com a anterior e teria como Livro o, ainda desconhecido, “Evangelho Eterno”.

Segundo esta concepção joaquimita, fortemente impregnada pelo messianismo e pelo milenarismo, seriam os desvios sucessivos à doutrina do Filho (segunda Idade) que ocasionariam a grande crise, proporcionando a chegada do Anticristo e a luta terrível, apocalíptica, que conduziria, dramaticamente, ao fim da História. Não obstante, para o abade Joaquim, seguir-se-ia uma nova era, a Idade do Espírito Santo, num mundo igualmente novo, governado sob a égide do Cristo vencedor...

Observa Fernando Pessoa: “O conceito de “quinto império” é antigo na profética cristã e pré-cristã, entendendo por “pré-cristã” a hebraica, isto é, a daquele povo que foi especialmente pré-cristão em ser, em grande parte, origem do mesmo cristianismo. No esquema profético, em que este conceito aparece, determina-se a existência de cinco impérios até àquilo a que simbolicamente os profetas chamam “o fim do mundo” – expressão esta que eles porventura sentem como sendo efetivamente o “fim do mundo”, mas que deve entender-se como significando o fim do que para eles é o “mundo”, isto é, o fim do conceito que têm do mundo, ou, esclarecendo melhor, o fim do ciclo psíquico – ordinariamente um ciclo religioso – a que pertencem e em que pensam. Convém notar bem este sentido profético da expressão, tantas vezes, empregada, o “fim do mundo”, ou “o fim das cousas”. Usada por um cristão, serve ela instintivamente para designar o fim da religião cristã; como, porém, uma mentalidade religiosa não concebe, de instinto ou de inteligência, o fim da sua religião – que seria o fim da Verdade, o que é impensável – , o que aparece na sua visão profética como o fim dessa religião, imediatamente se lhe desenha no espírito como o fim do mesmo mundo, a dissolução das cousas, a morte do universo – a tal ponto, e tão naturalmente, confundimos o universo real com o nosso conceito dele. Quando por isso, o católico Nostradamo profetiza para o fim do século vinte o ”fim das cousas” entendemo-lo como prevendo para esse tempo, não o acabamento da terra, ou a extinção da matéria universal, mas tão somente o fim ou da religião cristã, ou, pelo menos, da sua forma católica, se não for apenas o da forma romana do catolicismo. ” 

A estas correntes de fundo, associadas à esperança judaica na vinda do Messias, às lendas ligadas a Carlos Magno (Carolus Redivivus), transpostas depois para Frederico Barba Roxa como o Imperador Adormecido, bem como às do ciclo arturiano, com o regresso do rei que esperava em Avalon para voltar a conduzir o seu povo na face da Terra, se juntaram depois vaticínios surgidos em Espanha sobre uma figura nublada, de estirpe real, destinada a alterar o panorama do mundo.

De facto, alguns textos proféticos espanhóis atribuídos a Santo Isidoro, arcebispo de Sevilha no século sétimo, isto é, em tempo dos Godos, anunciavam que "nos últimos dias, reinará sobre a grande Hispania um monarca duplamente dotado de piedade... Combaterá todas as impurezas e reinará sobre a casa de Agar..." Isto é, aquele misterioso Rei haveria de derrotar o império Otomano e, desse modo, estabelecer a Monarquia Mundial. Profecias que também ecoavam nas coplas do frade cartuxo Pedro de Frias, ou nas do frade bento Juan de Rocacelsa, vários séculos depois.

Com esse cenário por detrás, foi nas "Germanias" ( levantamentos populares ocorridos no sul de Espanha, entre 1519 e 1523), que surgiu pela primeira vez uma figura temporal designada como "El Encubierto", assumindo-se como o último caudilho da revolta. Uma aparição fugaz, pois foi prontamente abatido.

Mas terá sido toda essa amálgama de ideias em ebulição no caldeirão ibérico que permitiu a um humilde, mas invulgarmente culto e talentoso sapateiro de Trancoso (vila do nordeste de Portugal), criar, por sua vez, uma poderosa vaga de fundo, deixando “grandes mistérios profetizados a que todos comumente chamam as Trovas do Bandarra, por esta ser a sua alcunha, e ele profetizar em certo género de verso português, que propriamente se chama Trova. ” 

São palavras de D. João de Castro, nobre lusitano do tempo de D. Sebastião e grande apologista do Bandarra, de quem foi o primeiro a publicar uma boa parte das Trovas na sua “Paráfrase”, em 1603, explicando o sentido oculto dos versos e comparando-o aos de outra origem. Acrescenta, a propósito da “baixa sorte” do Bandarra, que é assim que Deus nos ensina “por estas suas eleições, quanto se lembra sempre de pequenos para confusão do costume do mundo, não se desprezando por tais meios manifestar-lhe suas grandezas. ”

  "Muitos podem responder
    e dizer:
    Com que prova o sapateiro
    fazer isto verdadeiro,
    ou como isto pode ser?
    Logo quero responder,
    sem me deter:
    Se lerdes as profecias
    de Daniel e Jeremias,
    por Esdras o podeis ver." 

Era a voz do Bandarra a justificar-se face à História. E com humildade, lamentava:

 "Oh, quem tivera poder
   para dizer
   os sonhos que o homem sonha!
   Mas hei medo que me ponha 
   grã vergonha
   de mos não quererem crer."

Mas o Bandarra também esclarecia que:

 "Não conto sapatarias
   que noutros tempos sonhei.
   O que agora contarei
   são mais altas profecias."

E que profecias eram essas? Respondem as Trovas:

 "Este sonho que sonhei
  é verdade muito certa
  que lá da Ilha encoberta
  vos há-de vir este Rei."

A mensagem era clara e de tal modo atingiu o coração dos portugueses que, rapidamente, as Trovas se converteram na cartilha, ou mesmo no Evangelho da “religião sebastianista”.

É preciso notar que o sebastianismo foi a forma que tomou o messianismo português – isto é, a crença messiânica num salvador, ou num rei predestinado, que viria remir a pátria e exaltá-la ao domínio universal – e que tal crença se iniciou ainda antes de D. Sebastião. Na verdade (e para além das já citadas origens bíblicas e apocalípticas), ela principia, formalmente, no Bandarra, em 1530, e nas suas Trovas.

Também é de assinalar que este messianismo sebastianista, que se aninhou e tornou inseparável da alma portuguesa, desde então aos nossos dias, não encontra comparação, na sua persistência e no mantimento da mesma expressão, em nenhum outro povo do mundo, excluindo os hebreus.
Aliás, as Trovas do Bandarra também tiveram grande voga entre os hebreus daquele longínquo século XVI, supostamente convertidos ao cristianismo e chamados de “cristãos novos”, não só de Trancoso, mas de todo o reino de Portugal.

O próprio Bandarra foi acusado de judaísmo e conduzido, sob prisão, ao tribunal do Santo Ofício, em Lisboa. Dificilmente se desenleou das acusações, sendo coagido a abjurar os seus erros, num auto de fé, e obrigando-se a não mais escrever, ler ou divulgar coisas relativas à Sagrada Escritura; para além disso, as suas Trovas foram incluídas no “Index”, ou catálogo das obras proibidas pela Igreja. Deve acrescentar-se que, passado um século, conforme relata António Vieira, no preciso dia da aclamação solene de D. João IV como rei de um Portugal restaurado, se encontrava uma imagem do Bandarra num altar da Sé de Lisboa... 

Ou seja, o processo inquisitório anterior esfumara-se, ninguém levava mais em conta a proibição do Santo Ofício e os próprios pregadores exaltavam do púlpito a excelência das Trovas, como verdadeiras profecias, enaltecendo o seu autor como o grande profeta nacional... O Bandarra, por interpostas bocas, voltava a falar livremente e levava a melhor sobre os seus juízes de outrora, que o haviam condenado ao mais rigoroso silêncio. Mas nem sempre foi assim pois, no futuro, as Trovas seriam de novo proibidas ou exaltadas, num vaivém conforme às flutuações do poder da Igreja.

Fernando Pessoa também nos transmitiu a euforia pelo Bandarra, enquadrando-a, no entanto, no horizonte quinto imperial atual e não ao serviço de interesses temporais. Ouçamo-lo:

“ O verdadeiro patrono do nosso País é esse sapateiro Bandarra. Abandonemos Fátima por Trancoso.
Esse humilde sapateiro de Trancoso é um dos mestres da nossa alma nacional, uma das razões de ser da nossa independência, um dos impulsionadores do nosso sentimento imperial.
Esse Bandarra é a voz do Povo português, gritando, por cima da defecção dos nobres e dos clérigos, por cima da indiferença dos cautos e dos incautos, a existência sagrada de Portugal.
Quando António Vieira quis basear em qualquer coisa a sua fé natural nos destinos superiores da Pátria, que coisa foi que encontrou? As profecias desse sapateiro de Trancoso. Amou-as e as comentou o maior artista da nossa terra, o Grão Mestre, que foi, da Ordem Templária de Portugal.
O Bandarra, símbolo eterno do que o Povo pensa de Portugal.
Que Portugal tome consciência de si mesmo. Que rejeite os elementos estranhos. Ponha de parte Roma e a sua religião. Entregue-se à sua própria alma. Nela encontrará a tradição dos romances de cavalaria, onde passa, próxima ou remota, a Tradição Secreta do Cristianismo, a Sucessão Super-Apostólica, a Demanda do Santo Graal. Todas essas coisas, necessariamente dadas em mistério, representam a verdade íntima da alma, a conversação com os símbolos, (...).
Citam-se quadras populares, melhores ou piores, como sendo a voz do Povo. A voz do Povo, porém, não falou nunca tão alto como na voz do Bandarra.
Quebrar com Roma. Quebrar com a ideia monárquica. Quebrar com a ideia de Pátria como entidade oposta a qualquer outra coisa neste mundo.
Quebremos com Roma. Deitemos fora esse fardo de trevas e de desalento que há séculos pesa, mais ou menos, sobre as nossas inteligências e sobre as nossas decisões. (...)
No sentimento patriótico não deve existir elemento que não seja nosso. Expulsemos, pois, o elemento romano. Se há que haver religião em nosso patriotismo, extraiamo-la desse mesmo patriotismo. Felizmente temo-la: o sebastianismo. “

                                                             ***

O dealbar do ano de 1554 começou de forma fatídica para os portugueses, pois o amado príncipe D. João, único sucessor direto do rei D. João III, morria na flor da idade, com 16 anos. No entanto, sua mulher, D. Joana de Áustria, filha do imperador Carlos V, estava grávida e passados apenas dezoito dias sobre a morte do príncipe, dá à luz o filho de ambos – D. Sebastião.

Por isso, um escrito da época assinala que, com esse nascimento, “enxugou Nosso Senhor nossas lágrimas, dando-nos novos espíritos e nova esperança. ”

E assim foi, desenvolvendo-se simultaneamente a ideia de que o futuro monarca seria um ser predestinado, guiado pelo Céu, para realizar os maiores feitos na terra. 

Luis de Camões escrevia na sua dedicatória de “Os Lusíadas” ao rei Desejado:

 “Maravilha fatal da nossa idade,
   Dado ao mundo por Deus, que todo o mande,
   Para do mundo a Deus dar parte grande.”

Prenunciava, desse modo, as conquistas em terras maometanas, de acordo com Lúcio de Azevedo, que acrescenta: “Tudo nele influi o sentir de predestinado. Criam-no com fumos de imperador de Marrocos, clama o provincial dos Agostinhos, frei Miguel dos Santos, no sermão das exéquias. Diogo de Teive, em tersos versos latinos, prediz que ele há-de estender os domínios da Índia até aos confins do orbe, e sujeitar de todo as terras africanas. Fala aí outra voz que a da simples lisonja, porque é convicção nacional. Depois das incríveis proezas da Índia, exageradas até ao delírio, nada parecia impossível. Aos treze anos, pessoa tão conspícua, como o cronista-mor do reino Francisco de Andrade, pressagia-lhe a glória de destruir o trono otomano, que Solimão o Grande ocupava. Também os Lusíadas esperam dele o jugo e vitupério do marroquino, do torpe israelita, e de quem ainda?

“Do Turco oriental e do gentio
 Que ainda bebe o licor do santo rio.”

Todas as aspirações coincidem no mesmo sonho. Destruído o Turco, recuperada a Terra Santa, dominado o judaísmo, nada mais faltava, para as profecias se cumprirem, que o império universal. Era a voz do Bandarra que soava, até nos carmes do insigne cantor da nossa grei.”

Manuel Gandra assinala que, naquela altura “era invocado com insistência um presságio extraído dos capítulos I e II do “Oráculo Profético”, supostamente oferecido por um anjo a S. Cirilo:”No tempo de 1554 nascerá o sol, e estará eclipsado e escondido por algum tempo, e será lastimado com o aguilhão do desprezo numa pequena cova de três ou quatro repartimentos, cercado de grades. Guardá-lo-ão escorpiões, e depois senhoreará o Mundo.”

Também o mesmo autor nos chama a atenção para o célebre retrato de D. Sebastião pintado por Cristóvão de Morais que, com enorme desfaçatez, era destinado ao papa Pio V. Porque, na verdade, essa tela denuncia, claramente, o projecto gibelino, ou anti-papal, do monarca  português...

Educado por jesuítas (que haveriam de prolongar essa fidelidade nos tempos que se seguiram ao desaparecimento do rei), e certamente por eles ou por outrem instruído nas crenças messiânicas, no milenarismo joaquimita e nas profecias do Bandarra, D. Sebastião tê-las-á abraçado, como prova a referida pintura. Nela surge como Monarca Universal ou DVX, associado ao Veltro ou cão lebreiro, personagem da Divina Comédia, de Dante Alighieri, “agente do Tribulatio e da Renovatio e, de acordo com a tradição gibelina, assimilada pelo joaquimismo, enviado por Deus para aniquilar a meretriz e o gigante que delinque com ela, i.e., Roma. ”
























Senão, vejamos o respectivo excerto do Inferno, canto primeiro da Divina Comédia de Dante Alighieri, no que se refere à loba, símbolo de Roma:

    “A fera, que tanto te faz gritar,
      Não deixa passar pessoa alguma pelo caminho
      Onde se dispõe, a fim de a devorar.

      Tem natureza tão pérfida e furente,
      Que seus apetites jamais sacia
      E depois que há comido, mais fome sente.

      Com muitos animais se consorcia
      E a outros se vai unir, até que venha um lebreiro
      Que dará morte à loba, em agonia. ”

Fazendo-se retratar como o senhor do cão lebreiro, D. Sebastião assume-se como chefe da Igreja posterior à de Roma, que ele próprio, ou o seu cão, derruba.

Daí, também, que aquele retrato não tenha sido conservado no Vaticano... 

As Trovas do Bandarra e outras profecias congéneres, afirmavam que Portugal daria ao mundo o grande Encoberto, que haveria de desbaratar os exércitos dos Turcos na África, na Terra Santa, na Ásia menor, e inauguraria a Monarquia Universal. D. Sebastião, o rei-menino, de nascimento tido por milagroso e tão fortemente Desejado, estava imbuído de todos esses ideais cavaleirescos. E, evidentemente, ao contrário do que fizera seu avô D. João III que, em vez de conquistar a África, abandonara algumas praças africanas, fervia por nela assentar os seus arraiais.

Quando entrou na nau que o conduziu a Marrocos tinha 24 anos. Decorria o mês de Agosto de 1578. Terá dado conta de que as ervas secas pelo verão, na planície de Alcácer-Quibir, já cheiravam a morte à sua chegada?...

A triste nova do desastre africano e do desaparecimento do rei predestinado provocou a maior consternação e desespero no reino de Portugal, que ficava à mercê de Filipe II de Espanha, tio de D. Sebastião e, portanto, o herdeiro mais próximo da coroa. 

E as profecias?...

Sem D. Sebastião, quem haveria de engrandecer a Pátria e cingir a coroa de Monarca Universal?... O rei Desejado tinha um papel a cumprir e não podia sucumbir assim!...

Besselaar refere que “o padre José de Anchieta, apóstolo do Brasil, no dia fatal de 4 de Agosto de 1578, teria dito ao capitão Miguel de Azevedo que D. Sebastião perdera a batalha mas não morrera e que, ao cabo de muitos anos, novamente tomaria posse do seu Reino.”

Também D. Francisco Manuel de Melo, no seu “Portugal Restaurado”, observa que a afeição recíproca entre os Jesuítas e D. Sebastião fez com que muitos varões doutos da Companhia não só duvidassem da morte dele, senão que esperassem havia de ser restituído ao trono...

Aliás, os Jesuítas, fomentando a crença messiânica e contando, depois, com um inflamado António Vieira a transformar as trovas do Bandarra em puro sebastianismo, vieram a tornar-se nos grandes responsáveis pela posterior Restauração, sessenta anos depois.

Mas na época seguinte à batalha perdida, a confusão e o desalento, misturados com revolta e submissão, nada mais deixavam ouvir e, depois do breve interregno em que o cardeal D. Henrique procurou salvaguardar o trono, o país, exausto, cedeu às ameaças de Castela e reconheceu o rei Filipe II, primeiro de Portugal. 

Lúcio de Azevedo afirma que “ é nesse tempo que D. João de Castro, o futuro apóstolo do sebastianismo, vê pela primeira vez as Trovas do Bandarra (...), que fazem ressurgir na alma popular a esperança antiga. Ele foi o S. Paulo da religião sebastianista, que reuniu os elementos dispersos da lenda em corpo de doutrina, deu a esta a forma definitiva e, com o fervor dos prosélitos, a propagou."

Para D. João de Castro, o rei D. Sebastião teria mesmo sobrevivido à batalha de Alcácer-Quibir e andaria a peregrinar por terras longínquas, para um dia voltar como o Encoberto e assumir, finalmente, a sua função de Imperador do Mundo.

Alguns séculos volvidos, em que o sebastianismo passou por inúmeras vicissitudes, com poucos altos e muitos baixos, vem, finalmente, Fernando Pessoa, o mestre do “racionalismo espiritualista”, esclarecer que não é a forma humana de D. Sebastião que, milagrosamente, haveria de regressar um dia, mas sim aquilo que ela, entretanto, passou a simbolizar.

Explica que “ no sentido simbólico, D. Sebastião é Portugal: Portugal que perdeu a sua grandeza com D. Sebastião, e que só voltará a tê-la com o regresso dele, regresso simbólico – como, por um mistério espantoso e divino, a própria vida dele fora simbólica – mas em que não é absurdo confiar. ”

E, ainda, que: “1. Onde há forma há alma. A forma é o que torna tal cousa tal cousa. Assim uma árvore tem forma. Uma batalha, que é tal, e não tal outra, tem forma também. Quanto maior é a cousa, mais a sua forma lhe é própria. Não se pode restituir a uma batalha a sua forma. Uma vez dada, ela não se repete. Os acontecimentos têm alma. Os acontecimentos são homens.
                         2. A metempsicose. A alma é imortal e, se desaparece, torna a aparecer onde é evocada através da sua forma. Assim, morto D. Sebastião, o corpo, se conseguirmos evocar qualquer cousa em nós que se assemelha à forma do esforço de D. Sebastião, ipso facto o teremos evocado e a alma dela entrará para a forma que evocámos. Por isso quando houverdes criado uma cousa cuja forma seja idêntica à do pensamento de D. Sebastião, D. Sebastião terá regressado, mas não só regressado modo dizendo, mas na sua realidade e presença concreta, posto que não fisicamente pessoal. Um acontecimento é um homem, ou um espírito sob forma impessoal.
                          3. A profecia é a visão dos acontecimentos na sua forma corpórea. É o contrário do que acima expomos. Uma batalha que se vai dar aparece com uma forma humana ou outra antes de se dar. Porque pode ter uma forma humana, porque realmente a tem.
                          4. A profecia pode às vezes (ou, sempre) aplicar-se a várias cousas. Isto não invalida a profecia. É que vários acontecimentos, são um acontecimento só, isto é, um só ente sob várias formas. Assim se uma profecia representar possivelmente D. Sebastião, D. João IV, D. Pedro IV (ou V) e a República e mais cousas, isto não quer dizer que a profecia seja falsa. Quer dizer que toda a profecia é de uma cousa sob várias formas, e ela exprime o essencial que atravessa todas essas formas.
                           5. Com D. Sebastião morreu a grandeza da Pátria. Se a Pátria tornar a ser grande, voltará, ipso facto, D. Sebastião, não só simbolicamente falando, mas realmente. “

Todas estas explicações pessoanas encontram-se condensadas no poema da “Mensagem” dedicado a D. Sebastião:

“ Sperae! Caí no areal e na hora adversa
   Que Deus concede aos seus
   Para o intervalo em que esteja a alma imersa
   Em sonhos que são Deus.

   Que importa o areal e a morte e a desventura
   Se com Deus me guardei?
   É O que eu me sonhei que eterno dura,
   É Esse que regressarei. “

Neste poema encontra-se sintetizado todo o messianismo sebastianista português, ou quinto imperial.
“Esse que regressarei” é o verdadeiro Encoberto, que acalenta os corações e acende a luz da esperança no Mundo... É esse o Encoberto que poderá utilizar, eventualmente, uma expressão humana, como sucedeu com Jesus, no seu tempo, embora a sua condição ou essência nada tenham de humano...  Porque, afinal, esse mistério encerra o anúncio da Segunda Vinda ou Novo Advento do Cristo Redentor, por ora ainda Encoberto.

                                                               ***


Segundo Fernando Pessoa, os últimos três Avisos da aproximação do Encoberto já ocorreram: o Primeiro, no século XVI, foi o poeta popular Gonçalo Anes, conhecido como o Bandarra, nascido na vila de Trancoso, em Portugal, no ano de 1500 e ali também falecido em 1556 –  personagem e obra amplamente referidos nestas páginas.

Ao Bandarra sucedeu o Segundo Aviso: o padre jesuíta António Vieira, que nasceu em Lisboa, Portugal, em 1608 e terminou os seus dias em Salvador, Brasil, em 1697. Missionário, filósofo, escritor e orador de renome, foi um dos mais importantes vultos culturais do século XVII. Acusado pela Inquisição, que o perseguiu pelas suas ideias milenaristas e messiânicas, inspiradas pelo Bandarra, foi confinado à sua cela. Em 1666, o tribunal ordenou mesmo a sua reclusão num cárcere de custódia, onde passou todo um ano.

Foram dezanove as “reprovações” e demais “suposições” com que Vieira foi arguido e os juízes classificaram o seu escrito “Esperanças de Portugal. Quinto Império do Mundo...” de “estranho, escandaloso, temerário, ofensivo, fátuo com sabor a heresia e injurioso para a Igreja. ” A sentença depois proferida não podia ser pior para um homem como António Vieira: “...seja privado para sempre de voz ativa e do poder de pregar. ”

Assim que se viu livre, partiu para Roma, em busca da revisão daquela sentença, e ali passou os seis anos seguintes. Só então regressou a Lisboa, munido de um Breve do Papa Clemente X que o isentava “por toda a vida de qualquer jurisdição, poder e autoridade dos inquisidores presentes e futuros de Portugal ”, mas permanecendo sujeito à autoridade da Cúria romana.

 Pessoa não hesitou em considerá-lo como “ o maior artista da nossa terra, o Grão Mestre, que foi, da Ordem Templária de Portugal. ”
Não existem registos ou quaisquer outros vestígios da referida Ordem Templária de Portugal, certamente secreta; por isso, Fernando Pessoa só poderia afirmar tal coisa se ele próprio tivesse pertencido à ordem e acedido ao seu historial... No entanto, não é meu objetivo de agora especular sobre factos ocultos da vida de António Vieira, mas sim definir o seu pensamento face ao Quinto Império, claramente expresso. 

Esse pensamento entronca, obviamente, nas Trovas do Bandarra, o seu modelo e a quem considerava “profeta iluminado”, mas alarga audaciosamente o seu sentido, fazendo coincidir a Monarquia de Portugal com o Império do Mundo, num Reino “sem termo nem limites”; isto é, sublimados os 4 impérios anteriores, imperfeitos e caducos, surgiria o Quinto, conforme a profecia de Daniel, cujo espaço seria o mundo e o tempo o Millenium, mas aqui com o sentido de eternidade, dado pelas próprias palavras de Vieira: “mil anos ou muitos mil”...

 A instauração material desse último Reino ou Império caberia aos portugueses, seguindo um Rei que, ao morrer não morreria, mas antes se retiraria para um local misterioso donde, mais tarde, ressurgiria no palco do mundo, ainda que corporizado por Outro. De acordo com Vieira, nessa altura “todos os reinos se unirão em um ceptro, todas as cabeças obedecerão a uma suprema cabeça, todas as coroas rematarão em um só diadema...”

O Terceiro Aviso foi interpretado pelo próprio Fernando Pessoa, no século XX, e a sua obra é tão desmesuradamente grande e universal, que dispensa quaisquer comentários. Refira-se, apenas, um pormenor menos conhecido: o poeta dava-se a si mesmo a alcunha de Íbis, assim ocultando uma suposta ligação ao deus Thot dos Egípcios, desvelador do verbo criador e patrono dos magos, astrólogos, curadores e encantadores, guarda-livros e contabilistas (atividade com que Pessoa ganhava a vida), também associado ao deus grego Hermes... Simbolicamente, não deixa de ser muito significativo.

Na “Mensagem”, único livro português publicado em sua vida, Fernando Pessoa sublinha o advento próximo do personagem central do Quinto Império: o Cristo Redentor Encoberto, que governará o mundo no ciclo seguinte ao atual. Claro que a Igreja Católica sempre se opôs, violentamente, à ideia de um ciclo histórico para além dela e, portanto, nascido da sua própria morte anunciada.... Por isso o Bandarra e António Vieira, cada um no seu tempo, foram perseguidos e presos pela Inquisição; quase seguiram o destino de Prisciliano, mas salvaram as suas vidas, embora fossem condenados. Quanto a Fernando Pessoa, que se definiu a si próprio como “Cristão Gnóstico e, portanto, oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma”, se a Inquisição, entretanto, não tivesse sido extinta em Portugal, não teria qualquer hipótese de escapar...

Seguramente, teria ardido na fogueira, com todos os seus escritos.


                                                               ***


O mito do rei menino do sebastianismo, morto e ressuscitado, encontra ainda correspondência nos rituais populares da atualidade, referentes aos Cultos do Espírito Santo, ou Impérios, durante os quais é coroada uma Criança como Rei-Imperador. Estas festas constituem manifestações exclusivas do mundo lusíada e, sobretudo nos Açores e no Brasil, mantêm-se fiéis às origens.

Foi a Rainha Santa Isabel, mulher do Rei D. Dinis, quem introduziu o culto do Espírito Santo em Portugal, na sua vila de Alenquer, entre os séculos XIII e XIV ; por sua vez, D. Dinis foi quem protegeu a Ordem do Templo, aquando da sua perseguição e extinção pelo Rei de França, conluiado com o Papa Clemente V. Em Portugal, foi simplesmente transformada em Ordem de Cristo, mantendo-se a salvo todos os mistérios a ela ligados e que já vinham detrás, pois acompanharam o nascimento da nação lusíada. António Telmo, autor da “História Secreta de Portugal”, chega ao ponto de afirmar o seguinte: “ O que é que permitiu que, em Portugal, a Ordem da Milícia do Templo continuasse a existir coberta pela Ordem da Milícia de Cristo? Este facto é simples: Portugal é a Ordem do Templo até D. Manuel I e desde a sua origem. Só assim se explica que a cruz da Ordem simbolizasse a Pátria nos templos e nas caravelas. ”

O culto bem português do Espírito Santo recolhia e fixava a parte mais polémica do corpo doutrinário joaquimita, identificando-o com esperanças sebásticas e com o messianismo do Quinto Império. Daí a perseguição de que se veio a tornar alvo.

De facto, conforme Manuel Gandra, “Joaquim refere-se a três idades, status ou tempos: o Tempo ante gratiam, o Tempo sub gratiam e o Tempo quod e vicino expectamos, sub ampliori gratia. Ao Tempo da Lei Natural sucede o Tempo da Lei Evangélica que, por sua vez, deverá dar lugar ao Tempo da Inteligência Espiritual. O primeiro foi na Ciência, ou na Luz; o segundo na Sageza, ou na Beleza; o terceiro será na plenitude do Espírito, ou no Amor. O primeiro foi o Tempo dos Velhos, o segundo o Tempo dos Homens maduros, o terceiro será o Tempo dos Meninos. ”

Por isso, a principal cerimónia das festas do Espírito Santo consistia na coroação do Menino Imperador, homenageado pelo povo e pelas autoridades civis, militares e religiosas, e assessorado por dois reis – um homem maduro e outro idoso –, representando as três idades, isto é, do Espírito Santo, do Filho e do Pai, respectivamente. O menino, símbolo da humanidade espiritualmente renovada, empunhava o ceptro e com ele distribuía a benção do Divino, tocando a fronte dos presentes. Procedia depois à libertação de um preso, simbolizando a abertura das cadeias num mundo que delas já não precisava, e a festa terminava com um bodo solene e alegre, em que todos participavam, independentemente da sua condição social, credo ou raça.

Ou seja, simbólica e popularmente falando, as festas do Espírito Santo representavam uma espécie de Pentecostes português, correspondente ao advento da Terceira Idade do Mundo...

A partir do século XVI, Franciscanos e Jesuítas, entre os quais, António Vieira, transferiram para o Brasil toda essa corrente de expressão e de pensamento. Terá sido o primeiro arremedo de transposição da Península Ibérica para terras sul-americanas.


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A cabeça da Europa, designação justa e apropriada da Península Ibérica, cujo rosto é Portugal, virado para a imensidão do mar atlântico, tantas vezes coberto de brumas e espessos nevoeiros, procurava já, com olhos lúcidos e perscrutantes, divisar o futuro...