3 de fev. de 2010

A GARANTIA



Custa-me muito conceber como é que Portugal, sendo um país de marinheiros experimentados, acabou por perder o norte e soçobrar tão desoladamente... A não ser que o desnorte em que agora, desgraçadamente, vive, faça parte de uma determinada estratégia, ou mesmo de um processo iniciático, em que a morte sirva de prova máxima para chegar à transformação e à superação de si próprio.

Analisando bem as circunstâncias históricas, tenho, para mim, que foi esse o caso.

A partir do século XVI, e após o esplendor interpretado pelo voo fabuloso da Ave (ou de Avis, a sua segunda dinastia), Portugal encetou um outro período da sua História e começou deliberadamente a morrer na batalha de Alcácer-Kibir, que determinou o final daquela dinastia.

E sobreveio o sono iniciático.

Esse sono foi-se adensando, progressivamente, ao longo dos séculos, até provocar o esquecimento do próprio processo e se transformar na mais terrível das mortes - a morte da consciência da nação.

Mas, afinal, segundo a hipótese levantada no início, seria essa a suprema prova: descer ao mais fundo dos fundos e morrer sem remissão, para depois, um dia, renascer das próprias cinzas, como a Fénix ou a Avis sagrada da mitologia...

Profecias

O Portugal sem identidade de agora erra às cegas, como um zombie, num limbo obscuro e gelado, com a indiferença que se segue ao desespero. Por mais que soem discursos branqueadores, por parte de um poder a quem só o poder interessa, essa é a realidade nua e crua.

Definitivamente, este não é o Portugal anunciado por António Vieira, pelo Bandarra e por Fernando Pessoa: aquele Portugal que, segundo eles, se levantará, um dia, como "luz das nações" e dará novos valores ao mundo, impulsionando a criação de um Império mundial de consciência e de cultura, enquadrando a  manifestação do Cristo Redentor Encoberto...

Teria sido apenas um delírio de visionários perturbados?...

Algumas tradições iniciáticas ignoram o papel "quinto-imperial" de Portugal e apontam, exclusivamente, para o continente americano, referindo o Brasil como o palco da nova civilização. Mas não dizia Fernando Pessoa que a sua Pátria era a língua portuguesa?... Penso que esse outro conceito de "Pátria"( ou, neste caso, de "Portugal"), simultâneamente físico e não-físico e muito mais abrangente e aglutinador, encerra a chave de todo o processo.

Sob este ponto de vista, o cenário em questão será, sobretudo, um "espaço de alma", preparado em  conjunto e cuja componente territorial ou física se repartirá por aqueles dois países de língua portuguesa. Quer isto dizer que Portugal e Brasil poderão (quem sabe?...) alternar entre si como o palco profetizado (por vezes, secreto, outras vezes exposto ao mundo), de acordo com as distintas etapas e os objectivos em causa, num só e mesmo processo: possivelmente, Portugal mais directamente relacionado com a manifestação do Quinto Império no mundo, e o Brasil com o arrumar de todos os passados "espirituais" ainda por resolver, bem como com a génese oculta daquele "Quinto" e o despertar da civilização seguinte (que, nesta lógica, se poderá designar como"Sexta"...), cujas sementes terão que crescer em simultâneo com a floração daquele Império futuro, mas anterior...

Se realmente for assim, percebe-se a confusão na interpretação das profecias que, deste modo, deixam de ser contraditórias.

Nevoeiro

Mas como poderá o Portugal perdido e destroçado, de hoje, assumir o seu papel? Como poderá a nau onde embarcou, para cumprir o sonho e que agora erra à deriva, reencontrar o norte e realizar o seu destino?

Segundo a arte de navegar, terá que ser encontrado, no horizonte ou no céu, um ponto fixo que sirva de referência, de modo a poderem estabelecer-se as novas coordenadas de um rumo seguro.

Quanto a mim, esse indispensável ponto de referência sempre existiu bem definido na distância, como o mais brilhante dos faróis. E para não restarem dúvidas da sua função orientadora ou de restabelecimento de um norte perdido, acumula o simbolismo com a geografia, situando-se, precisamente, ao norte de Portugal.

Refiro-me à Galiza.

Não propriamente à belíssima Galiza da superfície, terna, acolhedora e unânimemente celebrada, mas ao fluxo contínuo e misterioso das suas águas amnióticas, dos carvalhos que falam, dos ares que transportam ou das montanhas que se abrem: a Galiza interna das maravilhas, profunda, mágica e prodigiosa...

A luz do etéreo

A Galiza, ocupando o noroeste peninsular (a tal "cabeça da Europa", no dizer de Camões), encima o perfil ibérico voltado para o mar; sendo assim, a sua situação corresponde, simbolicamente falando, à testa e ao alto da cabeça, onde a sabedoria oriental ensina que se situam dois "chackras" ou vórtices de energia que, depois de activados, conferem a clarividência e a iluminação total do ser.

Tais vórtices detêm uma correspondência no território galego, onde poderão ser representados externamente por Santiago de Compostela ("farol da unidade cultural europeia" passando, um dia, a "farol da unidade da cultura universal", no dizer de Agostinho da Silva) e pela Corunha, onde existe, realmente, um magnífico farol romano ainda em funcionamento: a Torre de Hércules, símbolo da cidade e justo património da humanidade.

Aqui está, pois, a luz vibrante que poderá orientar a nau portuguesa nesta conturbada viagem de consciência; sendo que, afinal, luz e nau, são duas partes de uma mesma coisa ou cabeça... Sem esquecer nunca que a cabeça tem um corpo e que esse corpo interage também com todos os demais; nada existe por si só e muito menos para si só, e o nosso espírito de descoberta sempre foi universalista.


Um berço e um destino a par

Pode dizer-se que Portugal e a Galiza nasceram juntos no território da antiga Gallaecia romana. Na verdade, os Portugal e Galiza actuais são a extensão natural um do outro, detendo em comum aspectos muito significativos da História, da língua, da cultura e do temperamento, sentindo ambos uma profunda e estranha saudade de algo indefinido que, supostamente, passou mas que, simultâneamente, se apresenta como futuro...

Desde a revolta de D.Afonso Henriques contra a Mãe (e a Mãe tem aqui o duplo significado da Mãe física - D.Teresa - e da Terra Mãe galega que se separou do Filho, ou o novo país lusitano), outros Reis portugueses conquistaram, esporadicamente e sem grande empenho e convicção, posições a norte; por isso acabaram por perdê-las, deixando a Galiza entregue ao seu destino "contra-natura" com Castela.

O que, no entanto, sempre se manteve foi a tendência natural para a reunificação, configurando num só país todo o rosto da Ibéria, pois ambos os territórios tudo tinham a ver um com o outro, diferenciando-se ambos, enormemente, de Castela.

Por isso dizia Fernando Pessoa que a Galiza, se "integrada em Portugal, fica parte do estado a que por natureza e raça pertence"...

Por isso, falava Agostinho da Silva nos erros históricos de Portugal, referindo-se ao nosso abandono da Galiza, "a companheira, pela qual o nosso amor jamais se desmentirá"...

Esclareço, desde já, que não sou militante de coisa política nenhuma, nem adepto de qualquer alteração estadual da Ibéria. A única alteração que verdadeiramente me importa é uma profunda mudança da consciência individual e colectiva, conduzindo a um "ibérico estado de ser", muito mais importante do que a um estado ibérico.

Salvaguarda


Posto isto, concordo em absoluto com o pensamento daquelas duas figuras de proa da cultura portuguesa; penso, no entanto, que há um motivo oculto para que Portugal e a Galiza tivessem mantido, até ao presente, uma fronteira entre si. A razão prende-se com a situação actual portuguesa: se agora constituíssemos um único país, estaríamos irremediavelmente no mesmo barco, vagueando como mortos-vivos num oceano de nevoeiro... E onde estaria a salvaguarda de um farol aceso a norte?...

Deste modo, para um poder valer ao outro, tivemos que permanecer separados.

Esta teoria concorda com a suposição anterior de que Portugal elegeu o sacrifício iniciático da morte para renascer a um outro nível e, assim, poder cumprir a sua missão última de "Cristo das Nações", tal como a classifica o poeta Vasco da Gama Rodrigues.

Prevendo, no entanto, que se poderia perder por completo nessa prova terrível, o Portugal lusitano, antes de penetrar no terrível labirinto do esquecimento, terá entregue uma espécie de fio de Ariadne àquele "outro Portugal" que ficaria de fora e que os galegos chamam de Galiza...

Antemanhã

Apesar dessa indispensável separação externa, Portugal e a Galiza mantêm, por dentro, uma unidade indissolúvel - daí que se possa dizer que são corpos artificialmente separados mas que detêm a mesma Alma-Mãe.

Sendo assim, o destino de um está intrinsecamente ligado ao destino do outro. E se um perdeu, num determinado momento da sua actuação a solo, o contacto com a sua parte da Alma comum, será a ligação mais íntima e profunda com o outro que poderá ajudar a restabelecê-la. O fio também funciona como canal...

Digamos que a corrente telúrica-espiritual dessa Alma é a que faz activar os respectivos "chakras" e recordemos que, na zona da cabeça, para além dos dois já referidos, existe mais um: o da garganta, conferindo o dom do verbo ou do som criador.

 Em termos da "cabeça da Europa", esse vórtice energético é tradicionalmente representado por Sintra, em Portugal. De acordo com as características do "chakra", será dali que ecoarão as vozes anunciadoras do Quinto Império e da chegada do respectivo Rei-Imperador...

Os gnósticos referiam-se à aquisição da consciência da divindade, por dentro de cada um, como o surgimento do Rei... E, na verdade, só o despertar interno dessa consciência é que impulsionará a grande mudança, externa, na face da Terra.

Primeiro de forma individual e, depois, colectivamente.

O Portugal Quinto Imperial será, então, o renascido pela vitória no labirinto obscuro em que se encontra, reorientado pelo alinhamento a norte; será esse, o que irá cumprir a função anunciadora de um  advento civilizacional global de consciência e de cultura, que poderá ocorrer a partir da Ibéria.

Deste modo, a Galiza surge como a "garantia iniciática" do futuro da nação portuguesa...

Ou seja, a Galiza constitui-se não somente como o farol mas, também, como o Pórtico da Glória de Portugal!







25 de jan. de 2010

CORRIGIR DEFEITOS DE ORIGEM, segundo Agostinho da Silva



Talvez não seja muito ousado pensar que se tem de restabelecer Portugal porque talvez alguns defeitos que lhe achamos venham mesmo de origem. Para tal o veremos não como é hoje, mas como se apresentava antes de ser. Era ele na realidade, uma parte, a meridional, da província romana cujo nome a Galiza herdou, de modo que parecia possível que o futuro país se estendesse do mar Cantábrico até, vamos, ao Douro. Não sucedeu, porém, assim: acontecimentos históricos, que não podemos, pois que nada se sabe, ou não sabemos nós, da máquina que move a História, classificar de bons ou maus, fizeram que os territórios do Norte viessem a integrar o que, depois de séculos de mudanças, é hoje a Espanha. O Sul para o sul veio avançando, se estabeleceu em trechos da Lusitânia, também aceitaremos, até o Tejo, daí tomou as planícies de além-rio e só parou, por uns tempos, porquanto lá se lançou depois de navegar, quando se sentiu também mediterrâneo. É evidente que tudo que se pudesse passar de político, juridicamente político, para a volta ao início é do domínio de dois Estados soberanos, e só Lisboa e só Madrid teriam autoridade para tais modificações, não pensando eu, por outro lado, que fosse certo corrigir traçados de fronteira, ou até suprimi-la, como alguns chegaram a propor, de um lado e outro, a meu ver com excelentes intenções - talvez as tais de que está cheio o inferno na determinada teologia do Povo -, mas sem futuro algum. O que há, portanto, a fazer é só no campo cultural e o ideal seria aí uma unidade, sempre desejando e sempre admitindo variedades, do Noroeste da Península, marcando-a desde a Corunha e sua Torre de Hércules e desde Ribadeo até o Douro, meu rio nativo, com toda a largura que vai do Atlântico às Astúrias e, sobre o Sul, a Leão-Castela. É bom, além de tudo, que a língua comum se encontre em dois estádios e assim se conserve, sem artificialismos de junção, com a Galiza a fazer-nos saudades das poéticas e práticas flores de Dom Dinis. Só quando tudo for assim estará Portugal pronto para sua nova linha de partida. No estímulo e na guarda de Santiago Apóstolo, miticamente o abraçando.
("Carta Vária", 7.04.87)

Não é possível mais, daqui por diante, um afastamento de Portugal dos outros povos da Ibéria peninsular, da mesma forma como isso aconteceu da outra vez.
É evidente ter de manter cada povo a sua individualidade, cada país ou cada estado tem de ser muito bem definido e muito bem limitado, mas torna-se completamente impossível praticar, entre as culturas, os divórcios havidos na História de Portugal até agora.
Temos de entender todas as culturas da Península e teremos de compreender todas as culturas desses povos, a partir daqui a entrarem numa obra conjunta.
(entrevista, 1986)

Costumo insistir em três pontos que me parecem essenciais na história da cultura portuguesa. É o primeiro o do Culto Popular do Espírito Santo, o segundo o do pensamento messiânico do Padre António Vieira, o terceiro o da heteronímia do Poeta Fernando Pessoa.
Assinala-se a existência do Culto com a vinda da Princesa Isabel a casar com El-Rei Dom Dinis.
Caracteriza-se o segundo pela concepção do Quinto Império.
É o terceiro bem conhecido pelo que escreveram Álvaro de Campos, Ricardo Reis ou Alberto Caeiro.
Curiosamente, são os três de algum modo peninsulares: era Isabel, depois santificada, do Reino de Aragão; militou Vieira na Companhia de Jesus de Santo Inácio de Loiola; teve Pessoa ascendência galega, aí como Camões.
(texto de 1985)

Antes de 1974, visitei muitas vezes a Galiza, aprofundei o meu conhecimento da história e da cultura galegas, o que fortaleceu uma ideia minha de que devemos repensar a fundação de Portugal. Não no sentido de buscar informação nova ou de propor interpretações diferentes, mas para questionar o que se poderá chamar os erros da história de Portugal.(...)
Tenho a ideia estranha de que se está em vésperas (no sentido de algo que pode acontecer agora ou daqui a mil anos) de uma nova expansão, muito mais interessante do que a anterior, porque vai ser feita com a companhia de Espanha. Uma expansão de cultura, não estritamente portuguesa mas peninsular, abolido o tratado de Tordesilhas, que se não fará, como a primeira, pelo comércio, ou pela introdução de formas ou linguagens religiosas em vez de religião.
(entrevista,1985)

A única região que já é ibérica do futuro é a Galiza. Exactamente porque é uma região de língua e de cultura fortemente Minhota, se não quisermos dizer Portuguesa, de herança Celta, se quisermos ir para alguma adivinhação pré-histórica; e ao mesmo tempo, pela paixão de Isabel, a Católica, pela Galiza, é uma região que também apanhou muita coisa da cultura que poderíamos chamar Espanhola, predominantemente Castelhana. De maneira que, se olharmos a Galiza, ela poderá ser o ponto da Península em que já duas culturas se entendem e, poderíamos dizer, começam a ter alguma mestiçagem. O que tem um aspecto curioso, quando muitos escritores ou intelectuais Galegos acham que seria muito interessante que o Galego se fosse aproximando do Português - pelo menos o falado, se isso for possível, e o escrito, sobretudo por causa da área que vai ser abrangida pela Língua Portuguesa; que deixa hoje de ser portuguesa para ser uma língua galaico-luso-afro-brasileira...
(entrevista, 1986)

Do rectângulo da Europa passámos para algo totalmente diferente. Agora Portugal é todo o território de língua portuguesa. Os brasileiros lhe poderão chamar Brasil e os moçambicanos lhe poderão chamar Moçambique. É uma Pátria estendida a todos os homens, aquilo a que Fernando Pessoa julgou ser a sua Pátria: a língua portuguesa. Agora é essa a Pátria de todos nós.
Quando se diz ter Portugal de fazer alguma coisa, o que tem de ser feito sê-lo-à por todos os homens de língua portuguesa. A missão de Portugal, agora, se de missão poderemos falar, não é a mesma do pequeno Portugal, quando tinha apenas um milhão de habitantes, que se lançou ao Mundo e o descobriu todo, mas a missão de todos quantos falam a língua portuguesa. Todos estes povos têm de cumprir uma missão extremamente importante no Mundo.
(entrevista, 1986)

A Nação Portuguesa poderá desmentir todos os que a consideram falida, orientar a Península e conseguir que a dita Península seja o apoio de todos os Povos e de todos os homens que apenas se querem cumprir e se não resignam a morrer sem ter plenamente vivido.(...)
Não há uma só Península Ibérica, mas duas, sendo a outra a mal denominada América Latina...
("Carta Vária", 5.02.87)

O entendimento fecundo com a Espanha seria uma grande condição da nova expansão portuguesa.
(entrevista, 1985)

Portugal - hoje maior do que nunca porque tendo largado escravos a Irmãos ganhou, os do Brasil e os da África e os da Ásia -, se salvará de todos os desastres por sua boa estrela, seguro de ressurreição, mesmo que morte haja; capitaneará uma Península de Nações, Finisterra de um mundo que se acaba lançada para o mundo que começa; incluirá uma Europa, que apodrece em seus mesquinhos interesses, na vasta, poderosa corrente de pensamento e de acção que dele tem de brotar; e fará do conjunto dos Povos que às Línguas da Ibéria usam, por nascimento ou adopção, a força capaz de ultrapassar todos os antagonismos de Leste e Oeste ou de Norte e Sul, mostrando que a Humanidade é uma, como outrora mostrou ser uno o Mar; e, mais além, que transcendência e imanência, juntas, o Uno são.
(texto de 1981)

Só os Povos Ibéricos, a toda a volta do mundo, lhe poderão, a ele mundo, dar mundo novo; mas entende-se, naturalmente, que portugueses prefiram que o arranque venha de Lisboa, ou Brasília ou Luanda; ou até de Compostela, separada Irmã, que, de farol da unidade cultural europeia, passaria a farol da unidade de cultura universal.
(texto de 1980)

13 de jan. de 2010

Fernando Pessoa : SOMOS IBÉRICOS



Somos os precursores de uma tragédia divina, gritada ao Atlântico e ao Mediterrâneo...

O espírito ibérico é uma fusão do espírito mediterrâneo com o espírito atlântico, por isso as suas duas colunas são a Catalunha e o estado natural Galaico-Português. Castela (representando por este nome os estados intermédios, que Castela imperatriz de facto conseguiu harmonizar no seu espírito) é apenas a região de troca e portanto de estabilização dessas duas influências limites. Não deve ter outro papel que o de uma espécie de fiel na balança das duas inclinações marítimas. Por isso, a ter papel preponderante (como o que já teve na história) esse papel é tudo quanto há de menos ibérico...

Na península hispânica, de um lado ao outro, nós não somos latinos, somos ibéricos. É preciso assentar nisto, antes de mais nada. Nada temos, psicologicamente, de comum com os dois países herdeiros da civilização latina propriamente dita - a Itália e a França . Nós não somos latinos, somos ibéricos. Temos – espanhóis e portugueses – uma mentalidade à parte do resto da Europa. Por mais diferenças que nos separem (e elas deveras existem) estamos mais próximos psiquicamente uns dos outros, do que qualquer de nós de outro qualquer povo extra-ibérico...
(colagem de textos para o filme "Mensagem")

Separados, teremos, cada um de nós (Portugal e Espanha), um sentido nacional; não temos sentido civilizacional. Podemos existir mais ou menos digna e decentemente, (...), mas isso não é existência digna de que a ela se aspire. Valemos mais do que isso; temos direito a fazer mais do que a existir.
("Sentido nacional e sentido civilizacional: a Civilização Ibérica")

De há tempos para cá se vem fazendo, por um processo de combinação espontânea que vale muito mais, e significa muito mais, que qualquer táctica de política amistosa, uma aproximação mental entre Portugal e Espanha. Dir-se-ia que os dois países repararam por fim no facto aparentemente evidente que uma fronteira, se separa, também une; e que, se duas nações vizinhas são duas por serem duas, podem moralmente ser quase uma por serem vizinhas. Esta aproximação mental não implica, de parte a parte, a abdicação de cousa alguma em que consista essencialmente a independência ou a personalidade de cada uma das nações: duas criaturas podem ser amigos sem ser sócios. Implica tão somente um estabelecimento de entendimento e de amizade, natural no caso de Portugal e de Espanha, que nenhum conflito de ambições hoje separa, que uma civilização tradicional comum aproxima, e que se encontram mais que nunca ante o problema, comum também, de defender, naquela larga extensão da América, que por ambos foi civilizada e aberta à continuidade do progresso, a tradição civilizacional ibérica contra a incursão disruptiva de conceitos civilizacionais estranhos.
("Aproximação mental entre Portugal e Espanha")

O que supremamente convém é criar, desde já, a ibericidade. Fazer tender todas as energias das nossas almas para um fim, por detrás de todos os fins imediatos que tenham. Esse fim é a Ibéria.
("O Problema Ibérico")

Portugal não quer ser espanhol, nem de uma forma nem de outra. Dos ódios que a história semeia, o ódio do português ao espanhol imperialista é o único que ficou, porque o contra os franceses que nos invadiram sob Napoleão, e o contra os ingleses que nos lançaram o Ultimatum célebre, já passaram ambos e se desradicaram de nós.
Ora esta existência de divergências muito grandes, longe de ser uma cousa que prejudique a ideia implícita (para o estadista) na íntima unidade civilizacional ibérica, antes a reforça e a torna mais aceitável. Porque todo o organismo é superior na proporção em que a sua unidade essencial é interpretada e realizada por funções diferenciadas. Quanto mais elevado é um organismo na escala dos seres vivos, mais diferenciados são os órgãos que o compõem, e maior a interdependência das suas funções. Por isso, dada a unidade fundamental que a natureza (pelo território e pela história) deu à Ibéria, e dada a paralela diferença entre povo e povo que a compõem, somos levados, não à conclusão que essa unidade é impossível, mas, ao contrário, que, sendo possível, será produtora de resultados sociais (civilizacionais) notabilíssimos, por isso que, conseguida a unidade orgânica, a divergência grande das partes componentes tenderá a fazer essa unidade altamente produtora de civilização.
("A Confederação Ibérica")

Se somos ibéricos, temos direito a esperar que tudo deve tender para uma política ibérica, para uma civilização ibérica que, comum aos países que compõem a Ibéria, a todos, porém, transcenda (a cada um individualmente transcenda).
("A síntese cultural ibérica")

Um país vale profundamente na sua civilização pelo grau com que, nacionalizando-os, aprofunda e dá novo sentido aos elementos gerais comuns a todos os países da civilização a que pertence. Um país inferior limita-se, aceitando os elementos gerais de civilização, a imprimir-lhes o cunho nacional suficiente para que não se desnacionalize, recebendo-os. Este género de países nada de essencial dá à civilização. Podia deixar de existir sem que ela sofresse; (...)
Chamo a estes países conservadores de civilização.
Um país mediamente criador não só aceita os elementos vindos do exterior, mas também os harmoniza e os intensifica em um determinado sentido; esse sentido o vinco, a psique nacional o habilite a dar-lhes.(...)
A estes países chamo países distribuidores de civilização.(...)
Finalmente há os países que criam civilização. São aqueles que aos elementos gerais que o seu tempo lhes fornece acrescentam, ao sintetizá-los qualquer cousa que não consiste só na harmonia deles, mas qualquer cousa a mais, qualquer nova direcção não contida em um ou outro dos elementos sintetizados, mas no seu conjunto, e, se em algum dos elementos, vagamente. (Tal como sucedeu), em virtude da sua estupenda acção nas descobertas, com este divino lugar da terra, a quem os deuses concederam que abrisse as portas do Longe e renovasse na distância o velho mundo.(...)
Esse período das descobertas marcou o que somos. Fomo-lo incompletamente, porque agimos inibericamente. Todos nós de aqui - portugueses, castelhanos, catalães... - só atingiremos a nossa maioridade civilizacional quando, confederados na Ibéria, pudermos, lidos na desgraça e na experiência triste de tanto passado, afrontar a Europa outra vez, reconstruir o nosso predomínio dos tempos em que o mundo era nosso, de outra maneira, para outros fins...

Que esta aspiração de todo o passado ibérico, ressurrecto agora numa voz isolada, encontre eco nos corações da Ibéria! Que todos nós, por mais que nos custe, nos compenetremos do nosso destino gladiolado! (...) Sacrifiquemos, cada um de nós, aquilo que nada vale. Tudo isto vai custar, tudo isto é muito difícil, tudo isto pesa e dói e nos separa de cousas amadas, e de um passado próximo, que, embora fosse um erro, foi o nosso passado.

Construamos em nós a Ibéria. Um dia a Ibéria será.
("Para construir a Ibéria")

12 de jan. de 2010

AS ESTRELAS DO CAMINHO - Declaração de Intenções



A Ibéria sempre foi um viveiro de estrelas.

O itinerário mágico que a atravessa denomina-se, muito apropriadamente, de "Caminho das Estrelas", nome que referencia a Via Láctea, que lhe serve de tecto, mas que também pode assinalar os seus reflexos ou projecções na Terra.

Pode dizer-se que os Mistérios Sagrados das várias Tradições mundiais foram criados como reflexos de Estrelas e que o Conhecimento que leva à sua identificação e vivência plena é a Gnose.

Nos tempos que correm, a projecção da Sabedoria das Estrelas na Terra é cada vez mais rara, mas nem sempre foi assim. No que respeita à Ibéria, decorria o séc.IV quando uma delas iluminou intensamente o território da Galiza, manifestando-se no gnóstico Prisciliano. No entanto, ao tentar restaurar os valores e a pureza do Cristianismo primitivo, Prisciliano acabou decapitado por aqueles que não puderam suportar o seu brilho.

Algo semelhante se passou com o próprio Caminho das Estrelas, depois conhecido como Caminho de Santiago.

Em tempos imemoriais, que se embrenham em reminiscências atlantes, esse Caminho havia já sido implantado pela Gnose. Ora quando o mesmo poder que eliminou Prisciliano se apropriou do Caminho, logo o tentou atingir mortalmente, acabando por descaracterizá-lo e adaptá-lo aos seus interesses. A essência gnóstica continuou, no entanto, bem viva, ainda que, agora, flua, somente, pelo leito subterrâneo ou oculto do Caminho.

Um processo que lembra, afinal, o ocorrido com os primeiros cristãos...

Foi ainda a mesma projecção celeste, manifestada como Sabedoria Divina ou Gnose que, para além da Galiza, fez brotar a respectiva Tradição Mágica em muitas outras regiões misteriosas da Ibéria.

Em Portugal, e no seguimento dos fundadores da nação e dos reis de Avis, figuras igualmente estelares como Luis de Camões, o Bandarra e o Padre António Vieira mantiveram acesa a chama mágica da Lusitânia, com maior ou menor visibilidade, conforme as épocas.

A Península Ibérica, no dizer do próprio Camões, é a "Cabeça da Europa".

Tal designação concorda com outras Tradições antigas que se referem à Europa como senhora de um corpo geográfico-simbólico, em que a cabeça é figurada pela Península Ibérica. Essa é também uma forma de indicar que ali se encontra um ponto elevado de Consciência, no sentido metafísico daquela Sabedoria reflectida pela Gnose.

A Gnose é, pois, o pilar que sustenta a Tradição Lusíada do Quinto Império, ou o surgimento de um novo período mundial baseado nos valores do Espírito, onde será erradicado o "mal" como ignorância, assim como o egoísmo, a intolerância e a prepotência, que assentam e proliferam nas actuais culturas do medo.

Esta suposta utopia foi apoiada e desenvolvida nos tempos modernos por Poetas como Fernando Pessoa - que, inclusive, se assumiu como o derradeiro Aviso daqueles tempos vindouros -, e Filósofos como Agostinho da Silva, que alargou e estendeu a Península Ibérica ao Portugal do outro lado do mar, que é o Brasil.

Dessa simbiose ibero-americana resultou um novo "sangue", que pode agora subir à "Cabeça"...

Actualmente, há cada vez mais pessoas no mundo inteiro que se mostram sensíveis às ondas emitidas pela "Cabeça da Europa". Acreditando, lúcidamente, que é possível o sonho da mudança, desde logo trabalham por ela, começando por se transformarem a si mesmas e ao seu mundo individual. E o resto virá por acréscimo.

O objectivo deste blogue é tornar-se numa janela, propositadamente aberta para fazer correntes de ar, em oposição ao estado actual de "ar condicionado", num mundo em que tudo o mais também o é... Deste modo, por aqui circularão os ares de mudança que sopram na Ibéria e que poderão ajudar a destapar a Luz que se desprende desta Terra Sagrada, incitando à descoberta dos seus Mistérios e ao percorrer dos seus Caminhos Mágicos.

Explicita-se, assim, a Declaração de Intenções deste "blogue - janela", que não pretende mais do que manter-se aberta e alinhada com a "gnosibérica" de sempre.

Contribuindo, à sua maneira, para que a Ibéria volte a ser um campo de estrelas.

8 de jan. de 2010

NATAL IBÉRICO


Que a Luz reencontrada de Portugal
E a Paz das montanhas esquecidas da Galiza,
De acordo com a Lei Universal, representada pelo Brasil secreto,
Se unam na Magia Real da noite das noites
E enquadrem o novo Presépio,
Para que possa amanhecer no mundo dos homens
O Sol mais Desejado.

7 de mar. de 2009

O PRINCÍPIO


Contam antigas profecias que o futuro do mundo se encontra directamente relacionado com o futuro de Portugal, apesar deste ser um pequeno e aparentemente insignificante país, ocupando quase toda a costa ocidental da Península Ibérica.

Portugal, cujo território provém da antiga "Lusitânia" (ou "Terra da Luz"), vive actualmente, e desde há largos anos, uma gravíssima crise económica e financeira; mas mais desoladora e devastadora ainda é a crise de identidade, que um suposto progressismo ideológico vem impondo e alimentando.

De facto, sem a noção de identidade, é como se fosse apagada toda uma História que, através dos Descobrimentos marítimos, ofereceu "novos mundos ao mundo", sendo igualmente apagada a ligação ao Espírito Lusíada que a promoveu.

Fernando Pessoa (1888 - 1935), hoje em dia considerado mundialmente como um dos maiores génios da poesia contemporânea e cuja obra é estudada em universidades de todos os continentes, assumiu-se, também, como o Terceiro e último Aviso de um novo Ciclo na História do Mundo. De acordo com o seu pensamento, este Ciclo terá como base impulsionadora a Ibéria e, sobretudo, um Portugal renovado pela religação ao mesmo Espírito que esteve na base dos Descobrimentos anteriores; desse modo, e a um outro nível, dará igualmente "novos mundos ao mundo", ou seja, proporcionará a descoberta e o reconhecimento de novas Dimensões no Espaço-Tempo-Energia, transformando inevitavelmente a consciência humana e a própria face da Terra... Defende Fernando Pessoa que como reguladora e, simultaneamente, como súmula dessa transformação, surgirá na Terra uma plêiade de Seres que rodearão Aquele que conhecemos anteriormente como o Cristo, até aí Encoberto, e que voltará a caminhar de novo entre os homens.

Em tais circunstâncias, o início deste Ciclo determinará o final do nosso mundo doméstico e conhecido, dando lugar a
um novo espaço de consciência multi-dimensional (isto é, para além das três dimensões familiares actuais), que a Tradição Lusíada e Fernando Pessoa denominam de Quinto Império ou Império do Espírito Santo.

A História de Portugal reflecte, até determinada altura, a preparação do país para funcionar como catalisador e primeiro palco daquele evento transmutador do mundo. Depois,
com o surgimento de outros interesses, esse Conhecimento foi-se fragmentando, diluindo e deteriorando, até que se perdeu na memória da nação e Portugal começou, cada vez mais, a entristecer... Mas Fernando Pessoa, apoiado por inúmeras profecias, garante que tudo aquilo que ficou latente e adormecido irromperá, de novo, na altura devida.

O pequeno livro de versos de Fernando Pessoa onde estão contidos, de forma mais ou menos velada, todos os Avisos deste Quinto Império a haver, intitula-se "Mensagem" e foi publicado no ano de 1934.

Mais recentemente, em 1988, no dia 13 de Junho (data em que o Poeta faria 100 anos), foi estreado no cinema S.Luiz, em Lisboa, o filme com o mesmo nome - "Mensagem"-, baseado naquele profético livro e produzido de forma independente, totalmente à margem dos circuitos habituais do cinema português. Nele se relata como a gnose da História passada de Portugal se projectará, um dia, naquele futuro sonhado e descrito por alguns poucos visionários, como Fernando Pessoa.

No final do livro, que é simultaneamente a cena final do filme, a figura de Fernando Pessoa, simbolizando o reencontro da nação com o Espírito Lusíada, olha o espectador nos olhos e afirma: "É a Hora!..."

E pode ser o princípio de tudo.